
Lô Borges escreveu as canções mais bonitas que já ouvi em qualquer tempo. Este é um arroubo-sentença típico do meu gosto por frases de efeito, em sua maioria grandiloquentes, libérrimas de sentido lógico aferível. E é mesmo verdade.
Trago comigo este sentimento há pelo menos dez anos. Como poderia me esquecer: madrugada insone, quase às 4h da manhã, ouvira nalgum dispositivo (não sei bem se já um smartphone, ou um dos muitos MP4s que tive) A Via-Láctea, canção do disco homônimo lançada em 1979. O modo como o piano é utilizado na faixa, recheando os espaços; salpicando de delicadeza as passagens junto à orquestra, conduziu-me à nova gramática em música.
Eu, assim como Lô e seus asseclas de Clube da Esquina, já era alucinado por Beatles. Chegaram-me à vida aos oito anos. Aqui e acolá, nutria gosto, mesmo, pelos melodiosos sujeitos da canção. Fosse Carly Simon, com a dulcíssima exibição de seu canto agreste – superinteligível, desde já, para a minha sensibilidade pré-púbere –, ou Tom Jobim, cujo trabalho, nos anos 2000, muito me entusiasmava – e siderava, a reboque, aos milhões de brasileiros, dada a onipresença de suas canções nas aberturas das novelas de Manoel Carlos.
Tom e Beatles dão em Lô. Precipitam o refino da liga harmônica de que este garoto belo-horizontino, batizado Salomão Borges Filho, nascido a 10 de janeiro de 1952, veio se besuntar, no início da carreira. Seu magnum opus, O Trem Azul, é a forma-síntese da junção entre a bossa-nova e o rock inglês. Harmonia sofisticada, deambulante, sem quadratura. walk on the wild side, como sugere o ritmo livre da guitarra de Toninho Horta na faixa.
1972 é o ano da estreia de Lô Borges no mundo fonográfico. No início da década de 1970, as composições Clube da Esquina (ou Clube da Esquina 1, como ficou vulgarmente conhecida), Para Lennon e McCartney e Feira Moderna foram alguns dos primeiros trabalhos assinados por Lô, o compositor, inicialmente gravado por nomes como Som Imaginário, Evinha e Milton Nascimento, este último, o seu parceiro mais proeminente. É com Milton que Lô dá o primeiro passo – e que passo, afinal! –, com Clube da Esquina, a obra-prima de ambos.
No mesmo ano, saiu também o Disco do Tênis, trabalho apreciado pela crítica e, tardiamente, aceito pelo grande público. Cabe dizer: nem Clube, nem Tênis repercutiram junto à audiência, na época. Ambos, lamentavelmente, ganharam melhor status com décadas de atraso. A tempo, no entanto, de que Milton e Lô gozassem das loas e louros. Alegria.
Um Girassol da Cor dos Seus Cabelos e o “O Trem…” foram, assim, alguns dos primeiros êxitos do Lô Borges cantor, de voz sensível e belo falsete. Só mais de cinco anos após uma pausa, Lô tornou a grassar nas rádios, com a inconteste Clube da Esquina 2, já um standard nacional. Companheiras de “janela temporal”, Todo Prazer, Nuvem Cigana e Ritatá – todas do início dos anos 1980 – também performaram a contento nas rádios.
Não se poderia esperar que Lô Borges – um sujeito sensível e extemporâneo, por excelência – se enamorasse do modo hierárquico e dirigista com o qual as gravadoras costumavam tratar os nomes do seu casting. Tanto é prova que esta foi, por décadas, uma relação de idas e vindas, em sua carreira; pontos ora luminosos; ora em trevas, de portas fechadas.
Perfil indócil e musicalidade a exalar dos poros. Penso em Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, que a tantos emociona – a mim, claro, também –, em Dois Rios, Chuva da Montanha, Como o Machado ou Paisagem da Janela. Lô Borges é o compositor das canções certas. Nada lhe apareceu de inspiração senão em flor de explícita beleza. Caetano costuma dizer algo parecido de Dorival Caymmi, ao comentar que o obá de xangô compôs só o essencial. Dom dos deuses para lá da Bahia-Minas, estrada natural.
Aliás, o que os mineiros têm?





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