
9h, um domingo azul. Manhã linda, como sempre são as manhãs do último trimestre, em São Luís. Azuis, ensolaradas, lacunosas. Arrumamo-nos, eu e mãe, com pressa, para que não perdêssemos nem um só instante das manifestações, convocadas em todo o Brasil, em defesa do presidente Lula, em apuros desde o cômputo final das urnas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que definiu o chucro Flávio Bolsonaro na dianteira do pleito.
No dia seguinte ao resultado, meu corpo reagiu com apreensão. Dores inconvenientes, atrofias figmentais, nódulos em kips por sobre os meus ombros. Costas lanhadas, mesmo, num rasgo de dor e vertigem totais. Sou hipocondríaco. Estava com medo. Sigo com medo. Só atinei na curva da esperança, quando, no protesto comandado pelos estudantes da UFMA – universidade da qual sou egresso –, quinta-feira (8), vi brilharem os olhos de tantas caras novas. Em destemor, sem, de antemão, os brios murchos, qual muitos dos meus contemporâneos quando o bicho pegou lá por 2016 e 2018.
O desânimo, esta palavra-encosto, foi se dissipando. A UEMA não fez feio e pôs na rua mais estudantes, professores, militantes e trabalhadores, um dia depois. Tudo em convergência para que, neste último domingo (11), fosse confirmada de vez a boa maré de movimentações que a esquerda encampou – com direito à tropa do Janones e psicose política – a fim de apertar o cerco diante da desvantagem de votos em primeiro turno.
A ação, pode-se afirmar, deu muito certo. A avenida Paulista não nos deixa iludir: foram 2 milhões de pessoas.Por mais precoce que seja falar em virada (e, nossa, como eu torço por um cadinho de esperança de que estejamos, ao fim e ao cabo, virando o jogo), o campo progressista está aguerrido, azeitado, fazendo o corpo-a-corpo exigido pela conjuntura e tentando, com certo êxito, jogar o jogo assimétrico das big techs.
Incomodamos, vide a intervenção direta do Kássio Nunes, em favor de Flávio, sem qualquer sutileza. O acinte da decisão do ministro acerca do grupo Soldados de Lula, comandado pelo bravateiro André Janones, pasmou até a Folha de São Paulo, que o qualificou como o é: censura.
Com tantos inimigos à direita bagunçando o coreto, só se viu vermelho no Largo do Carmo, cá desta São Luís. Às favas o atraso, meu e de minha mãe. Coração reluzente, com tantos dos nossos. Muitos (muitos mais!) do tempo em que ela pertencera ao movimento estudantil, entoavam as palavras de ordem dos novos baianos militantes passeando na garoa (choveu um tanto no trajeto, de fato) entre o mercado central e o anel viário.
Estava feliz, não sem uma indizível má digestão política. O medo, sempre ele, vagueando no meu pensamento. Pensei: – e se não conseguirmos? E se eles, os nossos algozes grassarem entojados ignorantes; ressentidos, amargos, purulentos? Ai de mim e de quantos, assim, como eu? Os neguin, os trabalhadores, as mulheres, os veados. E os meus amores?
Chamado à razão, concluo que, na pior das hipóteses, terá sido – a caminhada, o passo, a chuva no caminho até a Praia Grande – pelo direito de ainda oferecermos contrapeso ao debate político. Pelo exercício da liberdade de contestar o Grande Conluio Nacional dos carreiristas; dinheiristas; maledicentes; apátridas – e até de parte da imprensa, que tem optado pelo servilismo ante a democracia, por má-fé e indisposição com Lula.
Terá sido por todos aqueles que se empenharam em combater os desmandos da Ditadura – e aí, hosanas e salves à minha mãe, que lá esteve, no ocaso dos milicos, e, ontem, novamente, fez valer no suor de sua carne aguerrida de militante, um palmilhar obstinado no barro deste chão puído do Brasil
Tudo já está valendo a pena, concluo. Os milhares em protesto, cantando e dançando na simbólica rua Godofredo Viana ratificaram, com ou sem sucesso na virada de votos, uma miragem de alegria e fé nas boas-novas; nova aurora. novo aeon. quisera, mesmo troncha.
Balanço de leques, apuro dos tantãs. Manejo aos repiques. Cortejando a madrugada. Sonhos não-binários. Meninos, meninas, os de sempre e os de quando em vez. Os que têm medo do Centro, e foram lá só pra ver. Héteros com Lula. Desafetos com Lula. Eu, com meus amigos, fitando um sonho bom.
Ainda és, Ilha Rebelde. Estás aqui, sob os meus olhos.
Enquanto espero, com medo.
E com o coração maior que o mundo.





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