Entrevista com Carolina Hallal: “No fundo, tudo é performance”


Entrevista com a estudante de História da Universidade de São Paulo, Carolina Hallal, popular nas redes sociais por conta das suas reflexões em temas como político, comportamento, filosofia e psicanálise.


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Estudante de História e criadora de conteúdo, Carolina Hallal reúne milhares de pessoas em torno de discussões que transitam entre filosofia, psicanálise, literatura, política e educação. Há pouco mais de um ano, os vídeos publicados por ela nas redes sociais transformam assuntos aparentemente díspares em ponto de partida para reflexões a partir das Ciências Humanas. Do cotidiano à Copa do Mundo, do desejo à geopolítica, nada parece diminuto à sua curiosidade.

Em conversa com a Sociedade do Copo, Hallal reflete sobre os limites das redes sociais para o pensamento crítico, a experiência na docência, a relação entre internet e formação intelectual, referências culturais e os desafios que se avizinham para o Brasil contemporâneo, sem prescindir do bom-humor, presente ao longo de toda a entrevista.

Leonardo Alves: Apesar dos vídeos muito voltados para psicologia e literatura, você é estudante de história e até já estagia na área. Como surgiu esse interesse pela docência?

Carolina Hallal: O que eu mais gostava era brincar de dar aula. Eu fingia que eu estava dando aula para aluninhos imaginários.Isso eu sempre adorei. Eu tinha na casa da minha avó uma espécie de cavalete e eu deixava um papel e ia escrevendo como se fosse uma lousa.

E aí acho que um ponto muito chave para mim foi uma professora de História que era absolutamente incrível, muito bem formada e que tinha uma presença muito forte em sala de aula. A troca dela com os alunos me encantou muito. Depois, essa mesma pessoa foi minha professora nos anos seguintes, às vezes em matérias diferentes, e também chegou a  ser minha professora no colegial. Ela foi muito decisiva na minha trajetória, na minha opção pela docência e pela História.

Quando eu comecei a pensar mais seriamente que queria cursar História na graduação, isso não foi tão bem recebido pelos meus pais. Eu mesma tinha medo. Então comecei a pensar, ventilar a possibilidade de fazer duas graduações ao mesmo tempo. Ou seja, não abrir mão da História, mas também ter um plano B. Acabei decidindo fazer Direito e História ao mesmo tempo. E fiquei durante dois anos e meio fazendo essas duas coisas. Foi muito legal. Na verdade, eu gostei muito do Direito.

Eu não gosto do Direito como prática, eu acho chato, mas estudar Direito achei muito legal. E, claro, tem pontes, eu achei muito interessante. Aí, no fim, só tranquei o Direito porque senti que, em algum lugar, eu estava ficando um pouco defasada nas duas áreas, porque estava todo mundo começando a estagiar, ou em colégio ou em escritório, e eu não tinha tempo para fazer nenhuma das duas coisas. Então eu achei que faria mais sentido me dedicar mais profundamente a um dos dois. Optei pela História.

Leonardo Alves: É interessante notar nos teus vídeos o teu interesse multidisciplinar. No começo, antes de me aprofundar no teu perfil, eu até imaginava que você fosse estudante de Psicologia, já que traz bastante Freud e Lacan nos conteúdos. Pensando nisso, queria saber por que, ao longo da tua trajetória acadêmica, a opção mais consolidada acabou sendo pela História, e não por áreas como a Psicologia ou a Filosofia? 

Carolina Hallal: Eu penso que essa compartimentação do saber — com as Ciências Humanas divididas em caixinhas muito rígidas como História, Geografia e Filosofia — não é natural; é uma construção histórica, vinda sobretudo do século XIX. Por um lado, isso pode até ser interessante, mas por outro é muito empobrecedor. A História sempre me encantou, mas a minha escolha por ela não anulou o meu interesse por outras áreas. Tanto que fiquei em dúvida se prestava História ou Letras, depois me interessei por Ciências Sociais e hoje pretendo fazer um mestrado em Filosofia.

De fato, tenho um trânsito grande dentro das Ciências Humanas porque todas elas me atraem de alguma maneira. Meu conhecimento sobre a Psicologia de modo geral é pequeno, mas a Psicanálise em específico virou um interesse enorme a partir da minha experiência pessoal. Eu faço terapia desde os sete anos, mas antes era na abordagem comportamental, a TCC.

Quando mudei para a análise, aquilo me encantou profundamente. Foi justamente na clínica, na posição de analisanda, que nasceu uma vontade imensa de me aprofundar naqueles conceitos que a minha analista mobilizava para explicar as coisas. Foi bem por aí.

Juliano Amorim: Em sua entrevista para a Folha de São Paulo, você menciona esses momentos da análise e das aulas como as faculdades nas quais você pensa os temas que serão abordados eventualmente durante os seus vídeos. Eu queria saber como é esse processo para ti de tornar aquela inquietação pessoal em algo que possa servir ao público. Como é que você faz esse filtro? Como é que é isso para você?

Carolina Hallal: Isso é algo difícil, porque o ritmo imposto pelo algoritmo das redes sociais exige que você esteja presente o tempo todo. Você não pode ficar um mês sem postar, senão o algoritmo te derruba. Acho isso empobrecedor e cruel, porque às vezes queremos maturar um pensamento e, de repente, ele não cabe ali. Mas aprendi a lidar com isso e a entender que o que eu falo pode ser apenas um teaser para a pessoa ir atrás; não preciso dar conta de tudo. Para termos algo a dizer — ainda que seja algo pouco acabado e que não esgote a questão, como são os meus vídeos —, precisamos ser provocados. E sinto que essas provocações vêm do contato com o mundo ou com o meu universo interno.

As aulas me colocam em contato com as questões mais estruturantes da sociedade, e o que me chama atenção geralmente atravessa a minha própria trajetória e os meus valores. Já o contato com o mundo interno vem da análise.

No fundo, a análise nos faz perceber que, por mais diferentes que sejamos, compartilhamos muita coisa. Existe um tecido comum que nos constitui: dores que tomam formas distintas, mas que têm uma raiz parecida, como o desejo de ser reconhecido, visto e amado. Acho que falar sobre isso acaba sendo útil para muita gente

Juliano Amorim: Eu quero saber de você, também, se quando você vai burilar os temas para apresentar ao público, se há algo assim que você ainda prefere não discutir? Talvez “não discutir” não seja bem a expressão, mas que demandaria de você um cuidado que talvez as redes sociais não propiciem.

Carolina Hallal: Esse é um dilema que atravessa toda a minha produção de conteúdo. Não por causa de um tema específico, mas porque as redes sociais são, de modo geral, um ambiente avesso ao aprofundamento e ao rigor conceitual ou temático. Vira uma espécie de crise interna: me questiono se posso me permitir falar sobre certos assuntos sabendo que, em poucos minutos, é quase impossível dar conta de sua complexidade. Mas aí entra o meu lugar como estudante. 

Primeiro, nunca me propus a falar como uma especialista, até porque estou longe disso. Segundo, acredito que também é interessante simplesmente provocar as pessoas, fazer com que saibam que algo existe. Se elas se interessarem, podem ir atrás com mais profundidade por conta própria

Leonardo Alves: Carol, enquanto você falava sobre essas inquietações, achei muito interessante o fato de você partir de uma posição de aluna, mas também ser professora — e principalmente de crianças do Ensino Fundamental, pelo que li. Queria entender como funciona esse processo a partir desse outro lugar na sala de aula, onde você é a pessoa que provoca. A docência te traz reflexões que colaboram para os vídeos? E os teus alunos, eventualmente assistem ao teu conteúdo? Isso vira assunto em sala de aula? Como é essa experiência para você? 

Carolina Hallal: Eu ainda estou com um pé em cada barco, porque não sou docente de fato. Estou na licenciatura, o que significa que ainda não posso dar aulas. Sou estagiária, então acompanho as aulas com a professora e, no período da tarde, fico responsável por um plantão de dúvidas. Nesse momento do plantão, estou ali na sala sozinha, como uma ‘autoridade’, entre muitas aspas, mas ainda não é o lugar definitivo de uma professora. Mesmo assim, essa posição permite um olhar muito interessante sobre as inquietações dos alunos, até porque eles se sentem um pouco mais livres para expor as coisas nesse ambiente menor do que no meio da aula regular.

Certamente, todo olhar que não seja o nosso, que vem de outro lugar, de outras experiências de vida, inquietações e fatores geracionais, é extremamente enriquecedor. Então, sim, acho muito provocativo estar na docência e em contato com uma geração que já não é a minha, com quem tenho, às vezes, doze anos de diferença. Isso é muito legal

Leonardo Alves: Nesse aspecto, eu queria trazer um ponto um pouco mais espinhoso. Ontem mesmo vi o vídeo de uma professora desabafando sobre essa posição de autoridade que você mencionou. Essa autoridade em sala de aula tem sido muito questionada, e parece cada vez mais difícil ser professor e lidar com uma geração superconectada. Eu queria entender se isso chega a ser um receio para você. Como você enxerga o atual cenário da educação, acompanhando isso de perto e projetando o seu futuro como professora, já que está na licenciatura? 

Carolina Hallal: Quando falamos sobre essa posição, a perspectiva é bem freiriana: na educação, precisa haver algum tipo de autoridade, mas ela não pode, de modo algum, ser autoritária. O grande desafio para o professor é equilibrar essas duas coisas sem cair num autoritarismo estéril, que não cria ponte nenhuma. Honestamente, penso que isso seja um saber docente construído na prática.

O Maurice Tardif, um autor de quem gosto muito na área da educação, fala justamente sobre como alguns saberes docentes são desenvolvidos fora do ambiente acadêmico: na experiência do dia a dia, no cotidiano do próprio professor. É um processo contínuo de construção, e a experiência nos ajuda muito nesse sentido. Acho que daqui a dez anos eu serei capaz de responder a essa pergunta com muito mais propriedade.

Leonardo Alves: E, Carol, de alguma forma tu enxergas nos teus vídeos uma tentativa, quem sabe, de uma nova proposta educacional? Eu sei que tu faz muito a partir das tuas inquietações e compartilha isso — e acaba viralizando —, mas tu enxergas nisso alguma forma, alguma possibilidade de modelo de se adaptar a esses novos tempos onde é cada vez mais difícil ser professor e dar aula?

Carolina Hallal: Eu vou dar uma resposta que talvez não seja a esperada, mas eu diria que não. Eu acho que o ambiente da escola, ainda que esteja se revendo, se repensando num contexto muito diferente daquele em que ele surgiu, ele tem ali coisas muito importantes, determinantes muito próprios, que não precisam se render e ceder às redes sociais, ao ritmo da rede social.

Tem muita gente que fala “ah, esse modelo de escola já perdeu, precisa mudar tudo”, e eu acho que tem que tomar cuidado. Tem muitos países que adotaram muita tecnologia e metodologias ativas e estão tendo que reverter esse processo agora porque isso teve alguns efeitos deletérios. 

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Leonardo Alves: Uma outra coisa que surge bastante nos seus vídeos é a questão da leitura, não necessariamente acadêmica, mas a literatura no geral. Queria saber a tua visão sobre isso, porque notamos uma tendência muito forte atualmente a um certo anti-intelectualismo. Não sei se você concorda, mas às vezes a pessoa que lê e tenta trazer temas um pouco mais elaborados acaba sendo ridicularizada ou achincalhada.

Como é essa questão de estar expondo na internet e se colocando à prova a todo tipo de comentário? 

Carolina Hallal: Sobretudo na minha geração, o hábito da leitura às vezes é visto como algo performático ou pedante. Mas eu penso: o que nas redes sociais não é performático? Elas são a coisa mais performática do universo. Está todo mundo, o tempo todo, tentando criar um certo ethos, uma persona. Se eu gosto de ler, por que não posso compartilhar isso? Por que as pessoas só podem compartilhar viagens para lugares incríveis? No fundo, nem gasto muita energia mental com esse tipo de crítica

Leonardo Alves: Aproveitando essa questão geracional que você traz, eu queria saber um pouco mais dos seus hábitos fora da rede social, fora do que a gente acompanha. Como é que você costuma traçar a sua vivência? O que você gosta de fazer, quais lugares gosta de frequentar?

Carolina Hallal: Eu gosto muito de passar tempo com as minhas amigas; cada vez mais sou muito grudada com elas. A gente viaja bastante nos fins de semana — inclusive, estou aqui agora com uma amiga, por exemplo. Também adoro conhecer restaurantes e gastronomia de modo geral, desde o café da manhã até o almoço e o jantar.

Gosto muito de ir ao museu, a exposições, ao cinema e ao parque… mas odeio esporte. Acho que é uma vida normal, não sinto que tenha muita coisa de diferente. O ponto central é que sou bem apegada às minhas amigas e passo a maior parte do meu tempo livre com elas.

Juliano Amorim: Seguindo a pergunta do Leonardo em relação à sua vida pessoal e às coisas que você gosta de fazer offline: toda vez que você abre a caixinha de perguntas no Instagram, eu percebo que há uma curiosidade muito grande sobre isso. E eu mesmo te acompanho, eu vi você no show do Zé Ibarra, no show da Marina Sena… A gente tem esse viés também no nosso portal de tratar de temas relacionados à cultura, à música e ao cinema.

E eu já citei dois artistas aqui, que eu vi você nos shows deles. Eu queria saber o que é que está fazendo a sua cabeça em termos de música.

Carolina Hallal: Eu tenho adorado o Zé Ibarra. No show, o cara é muito incrível, de verdade, ele é maravilhoso e demais! Também tem um amigo meu que está começando agora na cena musical e que eu admiro muito, chamado Joaquim. Ele já lançou um álbum chamado Varanda dos Palpites; esse disco é muito bonito, você conhece?

O Joca é realmente demais, nota dez, e os shows dele são maravilhosos. Nessa mesma toada do Zé e do Joca, conheci a Maria Beraldo, que achei muito interessante, assim como a Assucena, que eu também não conhecia e achei ótima. E, claro, tem os clássicos: Gil, Caetano… isso eu amo. O meu preferido de todos é o Caetano.

Juliano Amorim: Pensei em te perguntar em relação a isso, porque o Caetano também é o meu preferido. Gostaria de saber o porquê para você.

Carolina Hallal: Eu acho que o Caetano é o que mais me toca; tem algo ali meio mágico para mim. Claro que admiro os outros também, mas o Caetano tem uma força muito particular. O Ney Matogrosso também é incrível, e estou bem animada para ir ao show dele agora. Angela Ro Ro, Gal Costa… essas são referências para sempre. Também amo a Alcione e, no fim das contas, também gosto bastante das divas pop. 

Juliano Amorim: Isso eu ia te perguntar, porque eu também adoro…certamente tem gostos que fogem à imagem que algumas pessoas têm de ti.

Carolina Hallal: Ah, certamente! Eu adoro Taylor Swift, eu adoro Olivia Rodrigo, eu adoro Beyoncé… eu adoro todas. Vou nos shows! Adoro.

Juliano Amorim: Você falou da Taylor Swift… Eu fico mais com o folklore. O que você acha? 

Carolina Hallal: É o meu preferido.

Leonardo Alves: É maravilhoso saber mais sobre os teus gostos e hábitos, porque sempre tentamos traçar esse perfil das pessoas que entrevistamos. Queria aproveitar para retomar um ponto que você tocou e que está muito em voga nas redes sociais atualmente: a questão da performance. Já que você falou um pouco sobre isso, queria que elaborasse mais o assunto, até porque você parece muito desprendida de um conceito do qual boa parte das pessoas não consegue se desvencilhar. 

Então, de que forma você enxerga esse fenômeno das pessoas acharem que ter um gosto um pouco diferente do usual é uma performance? Ou está todo mundo performando, enfim? Como é que você enxerga isso de uma forma mais aprofundada?

Carolina Hallal: Eu faço tanta piada disso com as minhas amigas. Esses dias, no meu Instagram pessoal, fiz um post sobre a SP-Arte e coloquei como legenda: ‘Nós quando somos os mais performáticos da SP-Arte’. A gente brinca o tempo inteiro com isso; basta alguém fazer algo diferente para a outra falar: ‘Eita, como performa!’.

Eu não consigo levar esse conceito muito a sério porque, no fundo, tudo é performance. A própria Judith Butler, quando aborda a questão de gênero, explica que se trata de uma performance; nós performamos papéis sociais e papéis de gênero o tempo todo. Então, para esse termo fazer sentido no debate atual, deveria haver alguma distinção clara entre o que é e o que não é performance, mas a verdade é que quase todo comportamento envolve algum nível de encenação.

É algo que acho curioso, mas prefiro encarar como um ‘não problema’. Sabe aquele meme da Gretchen do “enquanto isso no tribunal de minúsculas causas…’’? Pois é. 

Leonardo Alves: Nós costumamos fechar as nossas entrevistas sempre com dois questionamentos rápidos, que já são um padrão por aqui. Perguntamos aos convidados sobre uma indicação e uma contraindicação de qualquer natureza: pode ser um livro, um filme, um hábito, uma viagem… enfim. O que você indica e o que você contraindica, por favor? 

Carolina Hallal: Deixa eu pensar… Vou indicar um livro que estou lendo agora e gostando bastante, chamado O Astrólogo, lançado recentemente pela Editora 34. Ainda não terminei, mas estou achando a leitura muito interessante. É um estilo diferente do que costumo ler, e tenho curtido justamente por isso.

Já uma coisa que eu contraindico… Olha, o que realmente me incomoda é esse mimetismo nauseabundo da cultura europeia. Essa tentativa de copiar a todo custo uma cultura que não é a nossa, achando que isso é o sinônimo de ser chique. Eu acho isso extremamente cafona.

Leonardo Alves: Isso me trouxe uma última questão sobre a valorização do nacional. De fato, nos teus vídeos, você costuma trazer muitos autores brasileiros e reflexões sobre o país. Eu queria entender como você enxerga, primeiro, essa grande desvalorização que temos em relação ao que é produzido aqui e, por outro lado, por que considera essencial resgatar e valorizar a nossa própria cultura. 

Carolina Hallal: O Brasil carrega essa questão enorme da formação da identidade e da valorização do que é nosso. Esse esforço para construir uma identidade nacional nos constitui desde que nos tornamos um Estado-nação, no início do século XIX.

No entanto, em um poema de 1930 chamado ‘Também Já Fui Brasileiro’, presente no [livro] Alguma Poesia, o Drummond já se mostrava cético e desencantado com esse ufanismo patriótico. Acho que precisamos ter cautela com isso, porque a construção do que é considerado ‘nacional’ é extremamente ideológica. Às vezes, busca-se um purismo que simplesmente não existe, pois a cultura é feita de atravessamentos.

Claro que devemos ter cuidado para não cair no mimetismo. O Roberto Schwarz, um dos meus autores preferidos, aborda muito bem esse aspecto quando discute o conceito de ‘ideias fora do lugar’, criticando a importação de modelos que não foram forjados a partir do nosso próprio processo social, histórico e material.

Mas, ao mesmo tempo, também é preciso evitar o extremo oposto e não buscar um purismo ingênuo. Durante boa parte do século XX, a grande tônica foi a valorização do nacional-popular, um movimento que também teve suas contradições. Muitas vezes, em nome do nacionalismo, articulam-se alianças políticas contraproducentes. Afinal, não é porque somos de um mesmo país que compartilhamos os mesmos interesses; muito pelo contrário, às vezes eles são opostos.

Isso ficou evidente no período anterior ao golpe de 64, quando se defendia a necessidade de uma aliança das classes populares com o setor tido como progressista da burguesia nacional. Essa conciliação não se sustentou e redundou no golpe. Por isso, acho fundamental não se ludibriar nem idealizar excessivamente a ideia de nação.

Juliano Amorim: Voltando a tratar do pacto que você mencionou — os pactos sociais brasileiros —, eu queria falar especificamente sobre a Nova República. Tivemos uma semana muito tensa, e há sempre uma discussão na imprensa e em alguns círculos intelectuais sobre um possível fim do pacto da Nova República. Esse diagnóstico te parece consistente? Como você avalia isso? É precipitado dizer? 

Carolina Hallal: Hoje eu acordei e li um texto do Pedro Cardoso. Ele é um cara interessante. Ele fez uma postagem muito boa dizendo que o nosso problema é que, de alguma forma, levamos essas rivalidades e disputas como se fossem a verdadeira política e não uma grande farsa.

Acredito que ele tem razão, no sentido de que o que está em jogo, muitas vezes, passa longe de ser um projeto político de nação. As questões republicanas, em si, frequentemente não passam dos interesses de uma elite política que vai se travestindo de interesse público e de lutas que supostamente diriam respeito ao povo.

Mas se pararmos para analisar friamente essa discussão toda sobre a dosimetria da pena que estamos acompanhando agora… Será que é realmente isso que afeta o cotidiano das pessoas? Ou seria o debate sobre a jornada de trabalho? Acho que todos esses cenários são provocações necessárias para questionarmos e refletirmos sobre o que de fato importa.

Produção: Juliano Amorim // Entrevista por Leonardo Alves e Juliano Amorim // Revisão por Paulo Vinícius Coelho.

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