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Entrevista com Mavi Simão: “para mim, o Maranhão na Tela é como um filho”


A Sociedade do Copo é parceira de mídia do Maranhão na Tela 2025. Nesta edição do quadro Enchendo o Copo, conversamos com Mavi Simão, idealizadora do festival, que revisita sua trajetória no audiovisual e comenta a evolução do evento até se consolidar como um dos mais importantes do país.


Mavi Simão. Foto: reprodução

Mavi Simão é o coração e o rosto do Maranhão na Tela. Costuma dizer que o festival é “como um filho”, metáfora que revela tanto o afeto quanto a entrega pessoal para que o evento aconteça ano após ano. A definição diz mais sobre o vínculo afetivo da criadora do que sobre qualquer dependência do festival em relação à sua idealizadora. Aos 18 anos, atingindo a maioridade, o Maranhão na Tela já se consolidou no segmento de festivais de cinema do país.

Além de idealizadora do festival, Mavi é diretora, roteirista e produtora cultural com mais de duas décadas de experiência no audiovisual. Foi apresentadora de TV e rádio, coordenou produções no Canal Futura e, em 2023, escreveu, dirigiu e apresentou a série As Minas Pira na Fashion TV. Como cineasta, dirigiu o longa Terminal Praia Grande e segue desenvolvendo projetos autorais, conciliando sua carreira de realizadora com a dedicação integral ao festival.

A trajetória do Maranhão na Tela é também uma história de resistência. Ao longo de quase duas décadas, o festival sobreviveu a períodos de instabilidade na política cultural, atravessou os anos da pandemia em formato online e retornou com força, reafirmando sua relevância para o audiovisual maranhense. Sua programação de 2025 é um exemplo dessa vitalidade: traz pré-estreias nacionais como O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho) e O Último Azul (Gabriel Mascaro), amplia seu diálogo com o cinema latino-americano com a mostra internacional Los Terroríficos e segue apostando na formação de público e na valorização da produção local.

Conversamos com Mavi na semana que antecede o início do festival para falar sobre a origem do projeto, os desafios de realizá-lo, os planos de futuro e o impacto que o Maranhão na Tela tem na cena audiovisual do estado. Confira:

Leonardo Alves:

Mavi, queria começar te perguntando sobre o início da tua carreira. Como começou essa relação com o cinema até o ponto de decidir que era isso que você queria para a vida, fosse como diretora ou produtora cultural?

Mavi Simão

Minha carreira foi uma evolução. Nunca me desviei dela, mas fui me transformando. Comecei aos 19 anos, produzindo festas e shows, porque eu ia a todas as festas da faculdade e as pessoas começaram a me ligar para saber onde seria a próxima. Eu pensei – gente, tenho que começar a ganhar dinheiro com isso [risos].

Produzindo festa, comecei a fechar pacotes de rádio para divulgar os eventos e o gerente da rádio me chamou para um teste de locução. Virei locutora, depois apresentadora de comercial e depois de TV. Aos 25 anos, criei e apresentei um programa de auditório ao vivo na TV Difusora, o Sábado Total. Aquilo foi meu batismo no audiovisual. Minha linguagem foi a TV durante muito tempo.

Depois fui para o Rio, no início dos anos 2000. Eu fazia Jornalismo, mas fiz vestibular novamente para Cinema. Além de estudar cinema, trabalhei paralelamente no Canal Futura coordenando um núcleo de produção. Cuidava da parte criativa e executiva de vários programas – realities, talk shows, séries documentais – uma experiência enorme, que eu só consegui sustentar por conta da minha carreira que tinha começado aqui, quando eu ainda era novinha.

No último ano de faculdade, minha monografia se chamava Maranhão na Tela. Comecei a mergulhar na pesquisa sobre o cinema maranhense com um olhar mais teórico e fiquei inquieta com o preconceito que existe com o Maranhão fora do estado e que nós mesmos às vezes reproduzimos em relação a outros lugares. Pensava: se o audiovisual do Maranhão fosse desenvolvido, nossa realidade seria mais conhecida, como a de Pernambuco, Bahia ou Ceará.

Depois, o meu cargo na Futura foi extinto. Quando fui demitida do Futura, o que parecia ruim virou impulso. Criei o projeto Maranhão na Tela. Desde então, nunca mais voltei para a TV, foram 20 anos dedicados ao cinema. Só em 2023 voltei para a TV com a série As Minas Pira, na Fashion TV, que eu mesma escrevi, dirigi e apresentei.

Leonardo Alves:

E desde aquela primeira edição, como foi acompanhar a evolução do festival?

Mavi Simão:

O desejo é  contínuo, permanece o mesmo, desde a primeira edição. É o que me move. Passo o ano inteiro dedicada a alguma fase do Maranhão na Tela. O festival acontece há tanto tempo porque sou muito determinada. Por isso, outras iniciativas, como o Festival Elas, não têm edições regulares. Se eu tiver que escolher entre um e outro projeto, o Maranhão na Tela será prioridade. Para mim, o Maranhão na Tela é como um filho.

Maranhão na Tela no Cine Praia Grande (Odylo Costa Filho). Foto: reprodução

Leonardo Alves:

E nesse percurso, há algum episódio marcante, um desafio que simbolize o festival para você?

Mavi Simão:

Vários. Faço o festival pensando na magia da sala de cinema, no encontro entre equipe, convidados e público. Sou eu a programadora do festival, então monto tudo como um quebra-cabeça. Cada sessão é pensada para ser especial. Penso nas palmas, no calor do público, na lembrança que as pessoas vão levar do festival.

Lembro de uma das sessões de Pureza [Renato Barbieri] com a Dira Paes, a Pureza e a filha dela presentes. Foi tão emocionante, bati tanta palma que entortei um anel de prata. É esse tipo de momento que fica para o público. Se você perguntar qual foi o momento mais especial que alguém viveu no festival, todo mundo vai ter uma história para contar.

Dira Paes, Mavi e Pureza. Foto: reprodução.

Leonardo Alves:

O festival vive um bom momento, após o período difícil da pandemia. Como foi esse processo de retomada?

Mavi Simão:

A pandemia foi uma rasteira. Ficamos 10 anos no Cine Praia Grande e só saímos porque o cinema fechou. A vinda para o Golden Shopping ocorre por isso. Mas a vinda pra cá em 2018 ocorre num momento de crescimento do festival. Em 2018 conquistamos recursos via fluxo contínuo da Ancine, o que trouxe crescimento para o festival. A edição de 2019 foi mágica, a maior da história. Depois, vieram os anos online. Em 2022 nem edição tivemos, e era o aniversário de 15 anos! Só voltamos em 2023. Agora vivemos esse bom momento, mas continuo preocupada com a sustentabilidade do festival. Maranhão na Tela e Guarnicê não deveriam nunca correr risco de não acontecer.

Beatriz Benetti

O festival sempre teve um olhar voltado para o mercado, inclusive por meio da promoção de rodadas de negócios. Como você descreveria a atuação do Maranhão na Tela no fortalecimento da cadeia produtiva do cinema maranhense?

Mavi Simão:

Desde a primeira edição, penso o festival como impulsionador de mercado. Nos primeiros anos, foquei em capacitação, inclusive trouxe vários professores da minha faculdade para dar cursos aqui.

Hoje, com a escola de cinema em funcionamento, minha angústia com a necessidade de capacitação diminuiu, agora posso focar na formação executiva e na criação de um ambiente de negócios, na promoção de atividades voltadas para gestão. Esse ano teremos um curso de 60 horas voltado para produtores e gestores, algo que considero estratégico.

Leonardo Alves:

Sobre a programação desta edição: chamou atenção este ano a mostra Los Terroríficos. Como surgiu a ideia e que impacto você espera dela?

Mavi Simão:

A mostra é um sonho antigo. Eu mesma sou terrórifica e faço filmes de gênero.Brincava que nós – Tássia Dhur, Lucas Sá, George Pedrosa e eu – éramos “terroríficos”. São Luís tem uma vocação para o realismo fantástico. É uma ilha surrealista e que tem uma representatividade forte do cinema de gênero, com muita qualidade.

No ano passado fui para a Argentina com Mônica Trigo [diretora do festival CineFantasy], referência do cinema fantástico no Brasil, e conheci muita gente da cena latino-americana. Fiquei com muita vontade de trazer todo mundo pra cá! [risos]

Com apoio do Plano Nacional Aldir Blanc, criamos a mostra e ganhamos o edital. Agora tá vindo a galera toda pra cá. Estou ansiosa para ver a conexão deles com a cidade e com os nossos realizadores.

Ah! E é importante dizer que vai ter a Festa Los Terroríficos. Não teremos festa de encerramento do festival este ano porque coincide com o show de Duda Beat e Marina Sena, mas faremos a Festa Los Terroríficos no primeiro fim de semana do festival, no Reviver Hostel, [Praia Grande], no sábado que vem (19).

Leonardo Alves:

Olhando para o futuro, Mavi, quais são seus planos para o festival?

Mavi Simão:

Tenho projetos de circulação dentro e fora do Maranhão e até um projeto aprovado na Lei Rouanet, ainda em fase de captação de recursos, para levar uma mostra a cinco capitais, com o objetivo de levar uma galera do cinema daqui para outras cidades. Quero também criar ambientes de mercado em cada cidade que visitar. Os planos são muitos, mas dependem sempre de política pública e dos patrocinadores.

Leonardo Alves:

E como você equilibra sua carreira de cineasta e a direção do festival?

Mavi Simão:

O equilíbrio vem do fato de que fazer um filme é um processo longo. Eu tenho projeto de longa que está em desenvolvimento há 11 anos e sigo trabalhando nele. Mas o festival ocupa a maior parte do meu tempo. Não atuo no mercado como diretora contratada, porque minha prioridade é fazer o Maranhão na Tela acontecer todo ano. Minha carreira autoral está num lugar de sonho e persistência.

Leonardo Alves:
Mavi, para encerrar como sempre fazemos, uma indicação e uma contraindicação.

Mavi Simão:

Indico: a condenação do Bolsonaro.
Contraindico: o condenado.

Foto: reprodução.

O Maranhão na Tela 2025

O Festival acontece de 18 a 26 de setembro, no KinoplexGolden, e contará com a realização de quatro mostras: Mostra Panorama Brasil, que apresenta uma seleção de cinco longas-metragens premiados; Mostra Maranhão de Cinema, que é competitiva e exclusiva para filmes e videoclipesmaranhenses; Mostra Antônio Saboia, o homenageado deste ano, além de uma mostra de cinema fantástico latino-americano, a Los Terroríficos, que marca a internacionalização do Festival.

A abertura da edição contará com a segunda exibição em festivais nacionais do novo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, premiado em Cannes e protagonizado por Wagner Moura, enquanto que no encerramento será exibido O Último Azul, dirigido por Gabriel Mascaro, vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Berlim.Ainda Estou Aqui, laureado com o Oscar, também está presente na programação, na Mostra Antonio Saboia, fazendo com que o Maranhão na Tela seja o único festival no mundo a exibir os longas brasileiros premiados nos três principais festivais do planeta: Cannes, Berlim e Oscar.

2 respostas para “Entrevista com Mavi Simão: “para mim, o Maranhão na Tela é como um filho””.

  1. […] exclusivas. No dia 15, a plataforma publicou uma conversa com a idealizadora do festival, Mavi Simão, na qual a cineasta falou sobre a trajetória do evento, os desafios de viabilizar recursos e as […]

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  2. […] primeira vez em que conversei com Mavi Simão coincidiu com uma importante tarefa: a entrevista que daria o pontapé inicial à cobertura do Maranhão na Tela nesta Sociedade do Copo. Era uma tarde de sábado em que eu, Beatriz Benetti e Juliano Amorim nos […]

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