
Sérgio Sampaio é, desde o princípio de sua carreira, um compositor visceral. Dizer que as letras do capixaba são autobiográficas, como geralmente se afirma, é pouco. O que há em Sérgio não são meras narrativas sobre si próprio. É mais genuíno do que isso: é o próprio ser exposto, entregue. Quem tem o azar de conhecer apenas o sucesso Eu Quero é Botar o Meu Bloco na Rua não teve a oportunidade de apreciar um dos mais distintos letristas da nossa história. Aliás, no mesmo álbum em que apresentou o hit que se tornou símbolo do carnaval, o compositor declara, em Pobre Meu Pai: “eu posso até brincar com o meu carnaval, mas o meu coração é outro.”
Esse coração e esse corpo, castigados pela pancreatite desde o início dos anos 1970 — doença que se tornaria fatal em 1994 —, parecem atingir a plena maturidade musical em Cruel, álbum póstumo de Sampaio, produzido pela Saravá Discos, gravadora de Zeca Baleiro, e lançado em 2005, treze anos após a morte de Sérgio.
Cruel apresenta 14 faixas trabalhadas a partir de demos de voz e violão espalhadas por estúdios Brasil afora e restauradas pelos engenheiros de som Walter Costa, Damien Seth e Carlos Freitas. As demos foram entregues a Baleiro pela viúva de Sérgio, Angela, e seu filho, João. A mediação foi feita pelo poeta Sérgio Natureza, parceiro de Sampaio em Roda Morta (que parece ser uma contraposição à Roda Viva, de Chico Buarque), a única canção de Cruel que conta com um segundo compositor. As gravações tiveram o apoio de alguns fiéis escudeiros de Zeca Baleiro, entre eles Rogério Delayon, Fernando Nunes e Tuco Marcondes (ficha técnica ao final do texto).
Sérgio Sampaio já havia falado de amor em Só Para o Seu Coração, faixa do álbum Sinceramente (1982), mas nada se compara à categoria alcançada na já clássica Em Nome de Deus, música que abre Cruel. Os versos iniciais “eu nunca pensei que pudesse querer alguma mulher como quero você” indicam o tom dessa que é a canção mais romântica da carreira de Sampaio. Neste álbum, as músicas desse tipo ganham mais espaço do que em todos os três trabalhos anteriores. Estão nesse grupo Magia Pura (regravada de maneira brilhante por Tiago Máci), Muito Além do Jardim (amor não concretizado, que “durou o tempo exato da agonia do Tancredo”), Real Beleza, Rosa Púrpura do Cubatão, Quero Encontrar um Amor, Uma Quase Mulher e Quem é do Amor, esta última abordando o amor de forma abrangente, sem deixar de incluir o amor romântico.
O Sampaio irreverente e provocador, tão presente no disco Tem que Acontecer (1976), em faixas como O que Pintá Pintô, O Filho do Ovo e Velho Bandido, aparece pouco, mas de maneira genial, no álbum póstumo. Em Polícia, Bandido, Cachorro e Dentista, o artista procura semelhanças entre esses quatro elementos, salientando como essas figuras podem ocasionalmente trocar de papel, sempre gerando temor.
Assim como Roda Morta, uma das letras mais duras de Sérgio em termos sociais, O Pavio do Destino faz uma análise de como a diferença de origem pode definir o futuro de dois garotos: “o bandido e o mocinho são os dois do mesmo ninho.”
A quarta faixa, Brasília, à primeira vista, pode parecer deslocada, mas tem tudo a ver com o disco. Foi composta em 1993, um ano antes da morte de Sérgio, num momento em que o compositor, depois de anos errantes, parecia ter encontrado na capital federal um lugar de conforto.
A faixa homônima, assim como Maiúsculo, a última do disco, retratam com precisão o que mencionei no início: um Sampaio orgânico, transparente, exposto. Cruel até parece uma despedida: “o amor tá quase mudo/ minha voz também/ cruel é isso tudo.” Já Maiúsculo transmite a serenidade e o desprendimento de quem já partiu. É um testamento. Certamente não por acaso, as duas músicas contêm ruídos, batidas de porta e outros detalhes das demos originais.
Maiúsculo:
Tenho meus vícios
Vivem dentro de mim esses bichos
São o pai e a mãe dos meus lixos
E às vezes me levam de mal a pior
Pergunto quem
Não sabe disso
Os momentos em que a vida não tem dó
Solto meus bichos
Pelas músicas quando me aflijo
Mas um homem sem esse feitiço
E sem um carinho a que recorrer
Pode matar
Querer morrer
Pois perdeu todo sentido de viver
Ficha técnica:
Faixas
- 1 . Em Nome De Deus
- 2 . Roda Morta
- 3 . Polícia, Bandido, Cachorro, Dentista
- 4 . Brasília
- 5 . Magia Pura
- 6 . Rosa Púrpura De Cubatão
- 7 . Muito Além Do Jardim
- 8 . Real Beleza
- 9 . Pavio Do Destino
- 10 . Quero Encontrar Um Amor
- 11 . Quem É Do Amor
- 12 . Cruel
- 13 . Uma Quase Mulher
- 14 . Maiúsculo
- Sérgio Sampaio – vocal, violão em todas as faixas
- Cláudio Faria – Trompete (nas faixas 1 e 8)
- Rogério Delayon – Violão, baixo elétrico, guitarra elétrica e violão de 12 cordas (nas faixas 1, 2, 3, 4, 6, 7, 8, 9 e 12)
- Sacha Amback – Piano (nas faixas 1, 4 e 8)
- Fernando Nunes – Violão, guitarra elétrica, baixo elétrico (nas faixas 2, 6, 7 e 12)
- Guilherme Kastrup – Bateria e percussão (nas faixas 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 12)
- Tuco Marcondes – Dobro, violão, baixo elétrico, órgão Hammond, guitarra elétrica, piano (nas faixas 2, 5, 10, 11 e 13)
- Bocato – Trombone (nas faixas 3 e 12)
- Paulo Lepetit – Baixo elétrico (na faixa 3)
- Paulo Bira – Contrabaixo (nas faixas 4 e 5)
- Milton Guedes – Gaita, flauta, vocal e assobio (nas faixas 5, 7, 9, 10, 11 e 12)
- Swami Júnior – Violão de 7 cordas (nas faixas 6 e 14)
- Lui Coimbra – Violoncelo (nas faixas 9 e 11)
- Patricia Mellodi – Vocal (nas faixas 9, 10, 11 e 12)
- Suely Mesquita – Vocal (nas faixas 9, 10, 11 e 12)
- Zezinho Pitoco – Clarinete (na faixa 14)
“Voz e violão de Sergio Sampaio em músicas inéditas, gravadas em uma demo em 1994, sendo que as gravações de Maiúsculo e Cruel são caseiras. A estas gravações foram acrescidos os acompanhamentos instrumentais, entre março de 2004 e maio de 2005. Projeto de Zeca Baleiro” (Fonte: Immub)






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