
Os traços são inconfundíveis. O humor e a fina ironia, também. Laerte Coutinho é a centelha primeira do pensamento, caso estejamos a falar de sutileza e contundência; argúcia e síntese. Cartunista, desenhista, escritora e uma das figuras mais mais proeminentes em nossa cultura, Laerte nos fascina e estimula, em sua produção artística, a pensarmos a crítica social e a profundidade da existência humana como artifícios para o exame de nossas consciências.
Sua atividade profissional, iniciada nos anos 1960, acompanhou as matizes do Brasil: do verde-oliva dos militares – na Ditadura, quando a envergadura do trabalho de Laerte e seus pares ganhou projeção – e sua versão mambembe, não menos violenta, nos anos Bolsonaro; passando pelo antracite, na esteira do caos que nos aturdia, nos anos 1980, com a hiperinflação e a estagnação econômica. Sem, claro, abrir mão do vislumbre de outras cores, num tempo de amenidades e esperanças. As coisas migram, e ela serve de farol.
Nesta entrevista, a Sociedade do Copo e Laerte Coutinho conversam sobre sua história, seus trabalhos, arte, música, questões de gênero e o Brasil. Confira:
Gabriel Jansen
Laerte, em um entrevista sua, no meio dos anos 1980, você menciona como uma das suas primeiras influências o diretor e artista plástico Naum Alves de Sousa, com quem você privou contato logo no início da carreira. Gostaríamos que você nos contasse como foi essa fase; as descobertas referentes à arte, neste período, e quais influências, além dele, ajudaram a formar o seu estilo e o seu gosto.
Laerte Coutinho
Bom, o Naum foi um grande diretor e dramaturgo brasileiro. E, nessa época, no final dos anos 60, ele orientava um grupo de adolescentes do qual eu fazia parte na Fundação Armando Alvares Penteado. Era um curso livre de desenho e pintura para adolescentes.
E também havia uma parte que era opcional, mas todo mundo fazia, porque era maravilhoso, que era o teatro; uma atividade muito prática, a gente já saía montando peças. Quer dizer, o trabalho de teatro era basicamente montar uma peça. Escolher, discutir, conversar e montar uma peça.
E a gente fez vários trabalhos, inclusive de textos que já existiam. O Naum trazia coisas muito interessantes para a gente. Ele trouxe, por exemplo, um texto sobre a peste na Idade Média, do Michel de Ghelderode. Mas a gente montou também umas versões livres da Paixão de Cristo e também montamos uma versão musical da história do Fausto.A gente tinha uma liberdade muito grande. Era uma época também em que determinadas linguagens estavam se propondo na sociedade, como o tropicalismo.
A gente se identificou muito com esse clima. Era um clima de liberdade, busca, experimentação. A gente não trabalhou com músicas do tropicalismo, mas a gente conhecia o pessoal e se identificava muito.
Gabriel Jansen
Isso foi fundamental para a sua formação? Você falou muito do teatro. Foi o teatro que te introduziu na arte, de certa forma?
Laerte Coutinho
Olha, eu tendo a achar que sim, mas a parte de desenho e pintura também foi muito importante. A gente tinha aulas e atividades com gente muito competente. Eu lembro da Sônia, a Sônia Maria Paula Silva, que era uma artista plástica e também uma professora. E para mim foi muito importante também. Mas o teatro se sobrepôs pelo momento, a força de trabalhar em equipe também, o grupo de pessoas criando uma coisa.
E quando a gente embalava num projeto, como esses que mencionei aqui, aquilo virava tudo. A gente passava a fazer desenhos e pinturas e pôsteres e bótons e bonecos…A gente fazia todas as linguagens possíveis dentro de uma proposta ficcional e estética. Então, o teatro era o leme da coisa. Sem aquele momento de criação teatral, a história teria sido outra.
Gabriel Jansen
A Sociedade do Copo, podemos dizer com toda a segurança, é uma iniciativa que, dentre muitas razões, privilegia a intenção de furar a rigidez dos veículos de comunicação locais, com uma proposta mais livre de estímulo à ideia. Nos anos 1970, você esteve diretamente envolvida com publicações de cunho underground, alternativo, até pelo contexto da ditadura à época. Publicações como a revista Balão, neste caso, ilustram bem isso. Pode nos contar sobre a experiência com a revista Balão e outras publicações alternativas da época?
Laerte Coutinho
Olha, o Balão, que você menciona, foi parecido com o trabalho no grupo de teatro, porque era um coletivo produzindo, todo mundo mais ou menos no mesmo patamar de possibilidade, interesse e envolvimento.
Então, o Balão e o grupo de teatro do Naum para mim foram momentos bem parecidos, bem aparentados. Um pouco mais para frente, por exemplo, participei de um projeto, aliás, dirigido por um maranhense, pelo Fortuna, Reginaldo José de Azevedo Fortuna. Grande cartunista e também um orientador, um mestre que orientava, pensava e discutia. Aí já foi um pouco diferente, porque já foi mais aparentado com trabalhar para um veículo. A revista O Bicho, que era esse veículo, era razoavelmente um underground e coletivo, mas tinha já uma direção do Fortuna, uma linha editorial…o que aproximava já da linguagem do Pasquim, por exemplo, de uma publicação tradicional, entre aspas [risos].
Agora, essa experiência de trabalhar em veículos de grande imprensa é bem diferente. O Bicho foi um momento muito legal, muito produtivo, muito…fecundo(achei a palavra!). Mas eu estava, como se diz…cortejando a imprensa profissional, porque era isso que a gente queria fazer também; participar enquanto profissionais nas editoras e nos veículos da grande imprensa.
Gabriel Jansen
Eu queria saber como é que você enxerga a importância da liberdade de expressão e da experimentação tanto na imprensa tradicional, que às vezes pode brecar um pouco isso, quanto na comunicação mais alternativa. Como é que você tem olhado essa questão da liberdade de expressão na imprensa e na sociedade hoje em dia?
Laerte Coutinho
A primeira descoberta que fiz quando comecei a publicar em órgãos como a Folha, o Estadão, as revistas, foi que não era underground [risos]. Foi a primeira constatação que fiz. Aquela porra louquice toda que a gente conseguia fazer no Balão, na Revista O Bicho, não era a mesma coisa, não dava, não era possível.
Mais tarde, nos anos 80, eu participei da Editora Circo, na revista do Angeli (Chiclete com Banana). Depois eu tive uma revista também, que era o Piratas do Tietê. Tinha o Glauco com o Geraldão [personagem] e tudo. E ali a gente, de novo, saboreava esse ambiente de porra louquice solta.Para mim, sempre foi uma coisa tranquila de entender que não dava para fazer no Estadão aquilo que a gente fazia na Vila Madalena [risos].
Para mim, a liberdade de expressão, a liberdade de linguagem, tem degraus e tem momentos de relatividade. Quando eu estou publicando uma revista de uma grande empresa, é evidente que o papo é outro. Eu não posso botar a bunda de fora com toda a liberdade que eu faço isso nas minhas revistas [risos].
Gabriel Jansen
O seu trabalho é marcado pela graça, pelo humor, pela ironia, por esses elementos que despertam reflexões que são importantes, necessárias. Como é que você descreveria a relação entre o humor, a crítica social e o impacto que você busca causar nos seus leitores? Como é que essas coisas se direcionam no seu trabalho?
Laerte Coutinho
Eu não sei…eu parto da ideia de que esses momentos são relativos.
Quando eu falo de liberdade de expressão para publicar uma história na Folha, é uma coisa. Quando eu falo de liberdade de expressão para publicar uma coisa na revista do Angeli, é outra. Quando eu falo em publicar na rede, na internet, é outra ainda.
Nós temos vivido, nos últimos anos, o desenvolvimento de uma linguagem que é diferente de tudo. O modo como se experimenta uma opção cultural, um cartum, uma história em quadrinho na internet, ele é diferente do que se faz nos jornais e revistas e também é diferente do que se fazia na imprensa alternativa.
Como é que vocês veem isso? Eu tenho achado tudo muito estranho…
Gabriel Jansen
Ultimamente tem havido essa questão sobre a compreensão do seu trabalho. Em algum momento você não se sentiu compreendida sobre o que você fazia ali nas suas charges, nos seus cartuns? Além da piada “ah, Laerte, eu não entendi” mas uma coisa mesmo sobre a compreensão da mensagem que você queria passar. Isso em algum momento te incomodou?
Laerte Coutinho
Eu sempre trabalhei com a possibilidade de leituras multifacetadas. Eu nunca achei que havia uma coisa só a ser entendida de uma história minha, a não ser com cartuns ou charges que, evidentemente, tinham um sentido mais dirigido, como charge política e coisas desse tipo. Aí não tem muita margem de interpretar. Não é para ter muita margem de interpretação. Você está expondo opiniões e questões que são pra ser mesmo meio claras. Quando você está lidando com charge política, é assim. Eu acho que existe também margem para interpretações e para jogos possíveis, mas é menor.
Quando estou trabalhando com as tiras, como faço na Ilustrada [Folha de São Paulo], a margem para mim é muito grande. Ela se aproxima do que eu fazia no tempo do curso livre da FAAP [Fundação Armando Alvares Penteado]. O que eu desenhava naquela época, a minha intenção com o desenho e com o que eu produzia, era de uma amplidão muito grande.
Então, até certo ponto, quanto mais fosse amplo esse leque de possibilidades, melhor. É evidente que é preciso que haja uma linha, um traço, uma coisa que caracteriza a vontade do autor. Mas a possibilidade de leitura, pelo menos no meu entendimento, devia ser a mais ampla possível, devia ser muito grande. Isso faz sentido com o tipo de arte e de manifestação que a gente cultuava naquela época.
Eu voltei a esse tipo de abordagem por volta de 2005, por uma série de motivos. Por achar também que o tipo de história em quadrinho que eu vinha fazendo antes era muito codificado. Personagem com narigão, olhão e tudo. Então, as caricaturas todas giravam em torno desse tipo de representação que era bastante limitada.
Os personagens, cada um deles tem também o seu leque de possibilidades, de probabilidades, de características. E trabalhar com personagens e com piadas necessariamente construídas é muito limitante.
Por volta de 2005, eu aposentei todos os meus personagens e também o modo de construir roteiros humorísticos. E eu passei a adotar roteiros mais livres, mais próximos de uma poética que eu tinha quando eu estava lá no FAAP, quando eu tinha uns 20 anos de idade, ou menos.
Isso não quer dizer que eu tenha rejuvenescido, mas quer dizer que eu estava cortejando uma ideia de liberdade que me fazia muito sentido. E eu acho que existe uma dificuldade. Eu não sei se é geral ou se não é geral.
Às vezes, eu sinto que muitas pessoas que vêm à minha tira hoje ficam felizes com essa amplidão, gostam dessa ideia de mil possibilidades. Outras tentam fechar em significados necessariamente precisos. “Isto quer dizer aquilo”, “esse que quer dizer aquele outro’’ e fazem uma interpretação, um exegese de cada história, que me surpreende muitas vezes.
Isso me lembra, inclusive, o tempo da ditadura em que a gente tentava justamente passar recados cifrados. Era tudo em código. Para falar de militares, a gente falava de reis, nobres, coisas do gênero. Era tudo com cifras e códigos. E eu acho que esse tempo passou.
E o que me interessa hoje são as possibilidades poéticas de cada história, de cada tira. Eu me surpreendo muito com a dificuldade que algumas pessoas têm com as minhas tiras e continua me surpreendendo que elas estejam me seguindo e lendo as minhas histórias, mesmo achando que não estão entendendo. O que eu acho é que talvez elas não entendam ainda que estão entendendo.
Leonardo Alves
Minha intervenção é pegando um pouco do que você falou agora nessa última resposta. Porque você fala sobre essas diferenciações das reações do público ao mesmo tempo que você enxerga uma continuidade do seu trabalho.
A minha pergunta considera a longevidade do seu trabalho, que atravessa diferentes fases do Brasil e da nossa sociedade como um todo. Como você enxerga a transformação ao longo dos anos do público, da relação do público com a arte?
Laerte Coutinho
Eu não estou à altura de responder essa pergunta. Não sei se é uma questão de altura, mas eu não me sinto em condições de responder essa pergunta. Porque muito do que eu tenho percebido é surpreendente para mim também. A primeira grande surpresa é: por que ainda estão lendo o que eu faço?
Eu estou há cinquenta e tantos anos publicando, de certa forma, coisas diferentes. Quem está me seguindo? Quem é esse grupo que me segue? Eu cheguei à conclusão que não é um grupo só [risos]. São vários. Eu não sei se estou em condições de reconhecer quem são. Tem alguns que eu identifico muito facilmente, que são pessoas mais da minha idade, ou próximas da minha idade. Tiveram experiências sociais e políticas mais ou menos parecidas com as minhas. Mas tem um grupo de pessoas que eu não sei direito. Às vezes eu acho que não tenho como fazer essa análise com muita precisão.
Eu tenho 500 mil pessoas, 540 mil pessoas que me seguem no antigo Twitter. Eu não sei quem são [risos]. Eu sei que começou a diminuir, o número de seguidores começou a diminuir depois da proibição do X, daquele episódio em que o Moraes bloqueou as contas do X.
Daí quando reabriu o X, os meus seguidores começaram a diminuir. Eu perdi uns 10 mil. E acho que continua perdendo. Aí as pessoas falam que boa parte disso era robô. Não era gente. Bom, isso não me deixa muito mais tranquilo [risos]. O que quer dizer? E os robôs que continuam me seguindo? No Blue Sky as coisas estão um pouco mais simples.
Então ali eu tenho 117 mil seguidores e vai subindo aos poucos. Mas mesmo assim, eu nunca vendi 110 mil revistas. No tempo das revistas de banca e tal e tudo, eu acho que as minhas grandes tiragens eram 20 mil e olha lá.
Está certo que seguir alguém numa mídia, numa rede social, não custa nada. É absolutamente gratuito. E ir até a banca e comprar uma revista custava o preço da revista. Então são coisas diferentes.
O que eu quero te dizer, Leonardo, é que eu não me sinto em condições de avaliar o que isso quer dizer em termos de um desenho do que é o público brasileiro hoje. Do que gostam, do que não gostam. Eu não sei, porque o meu gosto, o meu modo de apreciar a arte, música, desenho, filmes e tal e tudo também mudou, mudou muito.
Eu não ouço música mais, por exemplo. Logo música, que é uma coisa que no Brasil tem uma grande, grande audição, uma gigantesca audição. As pessoas ouvem muita música e eu não. Eu ouço muito silêncio.
Paulo Vinicius Coelho
Laerte, eu gostei muito de ouvir falar sobre a tua relação com as redes sociais. É você mesmo quem fica atualizando as redes, você lê os comentários. Como funciona?
Laerte Coutinho
Eu não consigo mexer, nem publicar, nem gerenciar o Instagram. O Instagram pra mim é uma terra de misticismo [risos]. Eu não consigo, eu não consigo entender como é que funciona o Instagram e eu tenho amigos e amigas que governam o meu perfil lá.
Com o meu entendimento, claro. Não é autonomia total. Agora, o X e o Blue Sky eu mesmo faço e eu acho simples fazer. Não é muito difícil.
Paulo Vinicius Coelho
E você fica acompanhando os comentários, a repercussão?
Laerte Coutinho
Fico, fico. Eu gosto bastante, porque ler os comentários nos anos 80 e 90 eram cartas que chegavam à redação e a gente tinha que abrir a carta, desdobrar o papel, ler aquele texto que era escrito à mão. E chegavam uma quantidade muito pequena. Por mais que chegassem cartas de leitores, não se compara com nem dois minutos de internet.
Paulo Vinicius Coelho
Laerte, e a nova geração de cartunistas e chargistas, você tem acompanhado, gosta de alguém, consegue mencionar alguém que você acompanha com mais frequência?
Laerte Coutinho
Ah, sim, eu tenho. Eu tenho acompanhado. Eu já nem sei quem é a nova geração ou quantas novas gerações… Tem camadas de novas gerações já, né? Por exemplo, pessoas como o [André] Dahmer não são mais nova geração.
O Dahmer é um menino pra mim [risos], mas é um menino que tem, sei lá…não sei qual é a idade do Dahmer. O [Fernando] Gonsales não, o Gonsales é da minha idade, já tá na minha faixa. Mas a Estela May e a Fabiane [Langona], por exemplo, são mais jovens, entendeu? O Galvão Bertazzi também. Quem que eu pulei aí? O Caco [Galhardo], o Caco também tá nessa faixa do Dahmer.
Eu tenho acompanhado da maneira possível todas as novas criaturas que aparecem no mercado e com muito agrado. Eu acho que são pessoas altamente talentosas. E muito melhores que eu.
Paulo Vinicius Coelho
Elas certamente te procuram, né? Pra dizer, “Ah, Laerte, você é minha referência”, Laerte, eu te amo!” [risos]. Ou não tem tanta badalação?
Laerte Coutinho
Pouco… Não é tanta badalação assim, Paulo…Porque não existe um local físico onde a gente se encontra pra fazer esse oba-oba. Antigamente havia muitos desses lugares, eventos, festas, lançamentos e tal.
Era uma coisa muito comum e a gente se encontrava e ia trocando figurinhas e tudo. Atualmente já não é tanto assim. As pessoas fazem lançamentos e coisas, mas eu também não tenho saído muito, sabe? Eu tenho tido uma vida bem recolhida. Isso é uma coisa chata, mas tá acontecendo.
Gabriel Jansen
Como é que você se relaciona com a política e com o que acontece no Brasil, considerando que você tem uma história muito extensa? Às vezes não tem um certo cansaço, um pensamento de “lá vamos nós de novo enfrentar esse problema…”?
Laerte Coutinho
Olha, eu continuo mais ou menos na mesma região política que me formou. Eu vim pela esquerda.
Lá nos meus vinte e poucos anos, eu fiz parte do Partido Comunista. Depois saí do Partido Comunista, mas fiquei ali pela esquerda, sabe? O Antônio Prata tem uma expressão muito boa, que é falando de um bar onde as pessoas se reuniam e falavam que ali era todo mundo mais ou menos intelectual e mais ou menos de esquerda.
Meio intelectual, meio de esquerda. Por quê? Porque o rigor das acepções…nossa! Eu não me sinto à vontade para dizer que eu sou intelectual ou sou de esquerda. Eu sou meio os dois, tanto porque eu sou muito desinformada e as minhas construções teóricas são super frágeis. Eu leio de uma forma desordenada.
Eu leio, gosto muito de ler. Mas eu leio de forma desordenada, sem método, esqueço muita coisa, não aplico essas coisas à medida que leio. Então a minha intelectualidade também é uma coisa altamente discutível. E de esquerda, porque as posições de esquerda e direita andam mesmo confusas. Eu acho que já houve época em que falar que determinadas coisas eram propostas da esquerda e outras propostas da direita eram mais claras.
Não que isso tenha acabado, mas já foi uma coisa mais clara. Nessa última [Revista] Piauí tem alguém que propôs a ideia de obscurantismo. Ou seja, atualmente a gente não está mais falando de esquerda e direita, a gente está falando de obscurantismo e não obscurantismo.
Essa é mais uma das ideias que me confundem. O que é esquerda hoje e o que não é esquerda? Para começar, eu não quero ter posições por princípio que são da esquerda. O que eu acho é que normalmente, sim, as posições com as quais eu concordo vêm da esquerda e são trabalhadas e organizadas por pessoas de esquerda.
O Lula é de esquerda? Eu não sei se é de esquerda, mas é uma pessoa com quem eu me identifico. Eu voto nele. Já votei em outras pessoas também no primeiro turno [risos].
Leonardo Alves
Laerte, ainda sobre ativismo político e até sobre essa questão que você menciona de obscurantismo e não obscurantismo, a gente notou nas suas entrevistas que, mesmo 12 anos depois da sua transição, essa é uma pergunta que sempre surge em algum momento nas entrevistas.
Existe uma certa insistência nesse assunto e eu queria primeiro saber se essa frequência das perguntas sobre sua transição é algo que te incomoda e como você enxerga essa questão cenário político brasileiro atual, porque a gente vê, por exemplo, em São Paulo, o vereador que teve mais votos no ano passado [Lucas Pavanato] tem pautas abertamente anti pessoas trans.
Ao mesmo tempo que a gente também tem uma Erika Hilton no Congresso Nacional. Então eu queria saber primeiro se as perguntas sobre transição te incomodam, a frequência delas, e também a sua visão sobre essa questão no cenário macro brasileiro.
Laerte Coutinho
Não me incomoda a pergunta não. Agora, a segunda parte é isso, a minha visão sobre esse assunto é que deveria ser para mim absolutamente ponto pacífico, porque é uma questão de liberdade de escolha, é uma questão de direito, é uma questão de identidade, é uma questão de tantas coisas basilares.
Mas isso mesmo também não está muito claro para mim hoje. Existem algumas visões que dizem que as buscas, que nem as da transgeneridade, que são buscas identitárias, atrapalham a luta democrática. Já tem gente dizendo que o Trump se elegeu por causa das travestis. Não é verdade. “Ah, mas foi por causa das pautas identitárias, isso aí atrapalhou e a classe operária ficou puta.” ou “ah, essa pauta é elitista, não sei o quê”. Tem gente que também fala que essas ideias e esses pontos de luta são coisas de riquinhos, riquinhos que querem mudar o mundo.
Não é riquinho. A Erika Hilton não é riquinha. A população trans no Brasil não é uma população de riquinhos. É uma população de gente que é massacrada mesmo. O Brasil continua sendo, apesar de conseguirmos eleger a Erika Hilton, a Duda Salabert, a Amanda Pascoal, apesar dessas pessoas todas estarem eleitas e estarem levando a luta para o nível parlamentar também, o Brasil ainda é um país que assassina travestis e trans de noite, nas ruas, nas periferias.
É uma piração isso. Então, eu hoje estou também com outro olhar sobre a questão trans. O que eu faço? Para onde vamos? Faz sentido a gente brigar, por exemplo, por cotas para pessoas trans em escolas, em faculdades?
Eu não sei, eu tenho dúvidas sobre isso. Não é um ponto tranquilo para mim, entendeu? Agora, faz sentido brigar por segurança, por segurança nas ruas, por respeito à população trans, por uso livre de banheiros que a pessoa considere adequado. Eu continuo achando que isso é importante e é verdadeiro.
E pessoas como esse vereador de São Paulo, cujo ponto principal da pauta dele era proibir banheiro para trans. Eu continuo achando que gente desse tipo é estúpida, é imbecil. Espero que o tempo venha a comprovar.

Juliano Amorim
Apesar de você ter dito que quase não tem mais ouvido música, eu fiquei tentado a te perguntar se você teria discos que te influenciaram, que foram importantes para você em determinado momento e que você quisesse compartilhar conosco e com os nossos leitores.
Laerte Coutinho
Tem sim. Tem. Eu atualmente não tenho mais…Não sei, passou-se uma coisa estranha. Eu acho que os meus neuroreceptores pararam de registrar a linguagem musical como algo prazeroso. Então, eu escuto música meio como uma curiosidade, porque a música fez parte da minha vida em larga escala.
Eu sempre tive vitrola ou algum sistema de reprodução. Eu tenho um piano, eu tocava mais ou menos. Aliás, tocava mal, mas tocava. Eu fiz parte de grupos musicais. Eu gostei muito da Tropicália. A Tropicália foi um momento muito importante pra mim. Muito importante.
Agora, o que fez parte da minha formação musical mesmo foi o que se chama de música erudita. Beethoven, Mozart, Tchaikovsky, sabe? Eu sempre escutei muita música erudita. E as minhas tentativas de produzir música também foram mais ou menos envolvendo isso.
Quando eu entrei na faculdade, eu me inscrevi em cinema. Eu queria me inscrever em cinema ou teatro, porque eu queria fazer música pra cinema ou teatro. Aí eu tomei pau no primeiro ano da faculdade e entrou uma cadeira de música, justamente música. E eu resolvi fazer essa cadeira, cursar música na faculdade de comunicações [Escola de Comunicações e Artes da USP]. E eu fui até certo ponto, mas aí eu estava me dando tão melhor dentro da linguagem de desenhar, sabe? Um professor meu, Willy Corrêa , me aconselhou a trancar a matrícula e trabalhar com desenho. E eu fiz isso. Foi um conselho muito bom [risos].
Mas eu continuei ouvindo música pela vida. Até mais ou menos recentemente, quando aconteceu alguma coisa que, pra mim, interrompeu. Porque ouvir música não é só lidar com informação. É uma coisa que bate com as emoções também, né? E eu parei com isso. De alguma forma, criou-se um bloqueio aí.
Não sei porquê. Não tenho muita explicação pra isso.
Paulo Vinicius Coelho
Laerte, você já veio a São Luís?
[O microfone é interrompido no meio da fala, dificultando a compreensão]
Laerte Coutinho
Se eu já dei o quê?!
Paulo Vinicius Coelho
Não, Laerte! Se você já veio a São Luís? [risos]
Laerte Coutinho
Ah…[risos]. Não, eu não fui. Fiquei devendo.
Eu fui até Fortaleza, mas… São Luís eu não fui. Infelizmente, faltou isso. E atualmente também, além dessa dificuldade de ouvir música, eu tenho tido dificuldade de me afastar de São Paulo. Eu fico ansiosa e não consigo.
Então… Dificilmente nesta vida eu vou ainda viajar até São Luís. É uma pena. Dizem que é muito bonita.
Paulo Vinicius Coelho
Nós faremos questão de convidá-la.
Laerte Coutinho
Muito obrigado. Se eu conseguir lidar com as minhas ansiedades, eu vou sim.
Leonardo Alves
Laerte, a gente sempre finaliza as entrevistas pedindo uma indicação e uma contraindicação para os nossos convidados. Qualquer coisa no mundo. Laerte Coutinho, o que você indica e contraindica?
Laerte Coutinho
Puxa, você deveriam ter me avisado...[risos]
Leonardo Alves
Não tem ordem de preferência. Pode ser primeiro uma contraindicação, se for mais fácil.
Laerte Coutinho
Pois é, gente. A verdade é que eu não ando numa fase muito indicativa.
Posso ficar devendo?
Fim da entrevista.
Roteiro por Juliano Amorim
Entrevista por Gabriel Jansen, Leonardo Alves, Paulo Vinicius Coelho e Juliano Amorim
Produção, transcrição e revisão por Paulo Vinicius Coelho
Edição e divulgação nas redes sociais por Gabriel Jansen





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