
Aniversário de criança é sempre um festival para a garotada. Tem corrida para cima e para baixo, pulo, grito, um entusiasmo coletivo quase irrefreável. Ontem, na Vila Belmiro, em Santos, houve o aniversário de um homem feito, 33 anos, mas que teve efeito similar ao de um menino nas arquibancadas e na maior parte do país.
Depois de quase doze anos, Neymar voltou a vestir a camisa do alvinegro praiano e disputar uma partida pelo clube que o revelou. A festa começou ainda na semana passada, com a reapresentação do atacante. Shows de Mano Brown, Supla e outros santistas notáveis deram o tom do reencontro de Neymar com a torcida que o viu em primeira mão flutuando pelos gramados, antes do alavanque como maior nome da geração no futebol brasileiro.
Pessoalmente, nunca fui um grande entusiasta da figura de Neymar. Acho que isso diz mais sobre a minha relação com o futebol do que sobre qualquer outra coisa, mas, neste texto, prefiro me ater ao cenário majoritário com o qual convivi no passar dos anos. Ao fim da minha infância e no começo da adolescência, praticamente todo fã de futebol de faixa etária próxima tinha fascínio pelo exímio driblador que era Neymar. Claro, os golaços e passes impressionantes estavam lá, mas o que saltava aos olhos mesmo eram os lances “mágicos” vistos tanto em rodadas do campeonato paulista quanto nos confrontos decisivos da Libertadores.
Partia muito dessa ousadia – e alegria, como se popularizou até em música do amigo Thiaguinho – carregada por Neymar a admiração de toda uma geração. Arriscando um palpite que risca a coisa enquanto fenômeno social e histórico, faz sentido que o futebol de Neymar tenha encantado especialmente quem tinha algo entre 8 e 16 anos de idade na época em que o craque despontou. Para garotos em fase de formação de gostos, aversões, opiniões e personalidade, poucas coisas poderiam ser tão contagiantes quanto um garoto esguio de moicano que parecia não reconhecer qualquer limite dentro das quatro linhas.
Some a isso a escassez de maiores expoentes do “futebol arte” em solo brasileiro e fica fácil entender não só esse apreço dos mais novos, como também a resistência dos torcedores mais velhos. Ainda com a memória fresca da Copa do Mundo de 2002, regada a grandes lances de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e companhia no caminho até o título, o torcedor mais experiente não se impressionaria com tanta facilidade. Uma parcela ainda um pouco mais tarimbada viu também Romário voando baixo nos Estados Unidos com a Amarelinha e se acostumou com o personagem marcante, marrento e excessivamente confiante em si mesmo.
Trato de Romário com o termo personagem porque ficou no imaginário uma imagem folclórica, à qual não se ousa questionar. Ele é o que é e dessa forma foi aceito. Neymar, por sua vez, também mostrou muita presença e destemia nos campos, mas quase sempre gerando, no mínimo, um certo ranço. A antipatia cresceu à medida que a carreira de Neymar avançou sem que se convertesse naquilo que era projetado inicialmente. Apesar do inédito ouro olímpico em 2016, nunca veio o sonhado hexa mundial, muito menos uma conquista de melhor jogador do mundo, ainda que em certo ponto fosse Neymar o candidato favorito para suceder o reinado dividido entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.
À certa altura, aquele garoto irreverente no campo e fora dele deu lugar a um homem hesitante, que talvez não tenha compreendido o próprio tamanho, a própria carreira, quem sabe até mesmo a própria vida. Passaram a ser menos frequentes os lances de gênio e mais comuns as passagens em páginas de fofoca, nas propagandas de casas de apostas, ou mesmo no noticiário político com apoios simplesmente reprováveis a candidatos da ascendente extrema-direita brasileira.
Na torcida, os perfis se intensificavam: fanáticos saíam em defesa do ídolo, muitas vezes ainda presos a uma idealização do passado que não condizia mais com o momento; opositores eram cada vez mais descrentes e menos tolerantes ao jogador, muitos destes, inclusive, ex-fãs desapontados. Em meio a essa disputa, o que prevalecia era a imagem desgastada do atleta e o acúmulo de lesões, polêmicas e decepções de Paris à Riade, da Rússia ao Catar.
Em números, não há dúvidas de que Neymar foi exitoso. Não faltam títulos, gols e assistências por Santos, Barcelona e PSG, bem como conquistas individuais como o significativo posto de maior artilheiro da seleção brasileira na história. Mas o futebol, veja só, não se resume às estatísticas. O aspecto lúdico, criativo, fantástico da coisa fala muito mais alto, o que se atesta pelas valências mais destacadas de Neymar ao longo da carreira, sempre em torno do “algo diferente” que poderia acontecer a qualquer tempo com ele em campo. Nesse aspecto, é inquestionável que ele já não é mais o mesmo.
Em 2025, o retorno ao Santos é visto pelos pragmáticos como um movimento desesperado de quem não tem mais facilidade para encontrar portas abertas nos grandes holofotes; pelos românticos, como a volta para casa de um filho que busca se reencontrar; e por Neymar, bom, deixo as próprias palavras ditas por ele na festa de apresentação:
“Se depender de mim, se depender do amor e carinho que eu tenho por esse clube, não vai faltar força, garra, determinação, fé e, obviamente, muita ousadia”
Note, na escolha de palavras, o destaque para os sentimento e para o ímpeto da vitória, características tão simples, quase que… infantis. Talvez, no fim das contas, o que realmente esteve e ainda está em falta para Neymar é o abraço completo ao que melhor poderia ser aproveitado do tal “menino Ney”: a vontade de crescer, física e mentalmente, com o amadurecimento inerente ao avançar do tempo, mas sem jamais abrir mão do sonho, da aventura e do brilho do sorriso de uma criança cujos únicos limites são as quatro linhas demarcadas pela cal.





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