Sobre o maestro Junerlei Dias de Moraes


Na última aula de Junerlei que estive presente, reparei bastante em seus trejeitos. Trejeitos um tanto difíceis de elencar ou descrever, por serem muitos e únicos. Lembrar disso me fez perceber o quão impossível era passar por ele – seja pelos corredores do Centro de Ciências Sociais ou nas salas de aula – sem notá-lo.…


Na última aula de Junerlei que estive presente, reparei bastante em seus trejeitos. Trejeitos um tanto difíceis de elencar ou descrever, por serem muitos e únicos. Lembrar disso me fez perceber o quão impossível era passar por ele – seja pelos corredores do Centro de Ciências Sociais ou nas salas de aula – sem notá-lo.

Meu apreço pelo professor começa justamente dessa forma, já que meus olhos brilharam assim que li no SIGAA o nome de duas das várias disciplinas que ministrou: “Estética e Mídia” e “Experiência Artística e Cultura Moderna”. À época, nos alpes mais elevados do processo pandêmico e do ensino à distância, pensava em abandonar o curso de Comunicação Social, mas fui convencido a dar mais uma chance à graduação pela curiosidade despertada por essas cadeiras. Me matriculei e dias depois acessei a sala do Google Meet. Lá estava ele, com seu “¡buenas!”, a postos para domar uma classe cheia de estudantes regidos pela apatia dos descaminhos do planeta. 

Não me recordo se a identificação foi instantânea, mas lembro de ficar imediatamente intrigado com seu nome e comportamento. Nas aulas de Estética e Mídia, foi decidido que leríamos “A Origem da Tragédia” de Nietzsche; nas aulas de Experiência Artística, debatia-se livremente sobre Marina Abramovic, Lady Gaga e Francis Ford Coppola. Cito essas figuras de forma não muito específica – Junerlei citava outras quinhentas por segundos – pois foi a partir de vários artistas que minha conexão com o mestre, a quem chamo carinhosamente de “Maestro”, surgiu. Daí em diante, conversas e mais conversas durante e após as aulas passaram a ser regra entre nós. Conversas extensas, enriquecedoras e extremamente expressivas.

Expressividade. Não há palavra que descreva-o com mais exatidão, apesar de ser um tenaz crítico das exatidões. Na verdade, Junerlei era adepto dos questionamentos, da rebeldia, da justiça social, da mudança. Não se restringia à timidez dos sussurros, sempre preferiu brados e berros. Seu termo favorito, ou o que mais punha em prática, era “disrupção”. Dentro de si, carregava um vigor inigualável, um espírito revolucionário que cativava a todos que permitiam ser atingidos. Passeava entre o grau terno das poesias e o rebuliço das cachaças, assim como tateava com fluência através de piadas infindas e reclames indignados e quase proféticos. Citava Sganzerla, Bressane e Glauber Rocha com o mesmíssimo interesse que escutava os estudantes comentarem sobre Instagram ou Tiktok. Tinha vícios e paixões antigas, sim, mas jamais se mostrou um ser-humano antiquado. Olhava sempre adiante, ou melhor, adelante.

Junerlei era um homem com visão turva, literalmente. No entanto, sua condição jamais o impediu de reconhecer cada um dos alunos que o marcava. Nítida era sua mente. Com aulas englobavam os três cursos de Comunicação Social – Jornalismo, Rádio e TV e Relações Públicas -, então, imagine você o esforço necessário para aprender o nome de cada um dos estudantes. Para ele, parecia fácil. Quando voltei à UFMA após a pandemia, admito que fiquei com receio de cumprimentá-lo. Pensei que não me reconheceria, porque, até então, eu não passava de uma mera imagem processada pela lente de uma webcam e uma voz conduzida por  um microfone de péssima qualidade. Erro meu, já que foi Junerlei quem tomou a iniciativa de me cumprimentar. Nos falamos um pouco, não lembro sobre quais assuntos, mas me recordo que aquele aperto de mãos foi o suficiente para que eu me sentisse mais seguro para passar pelos portões do CCSO.

Sempre que o encontrava, citava nominalmente algum estudante. Poderia ser eu mesmo, Gabriel. Quem sabe falasse sobre Paulo, Leonardo, Juliano, Pedro ou Priscila. Comentaria alguma coisa a respeito de Mariana, Karina, Luana, Yasmin, Theo, Marcus, Demétrio. Talvez relatasse alguma de aulas com participações de Gabriela e Luma. Vez ou outra, citaria algum de seus companheiros de docência, dando destaque a Carol, Jane e Bruno. Sempre falaria sobre sua família, sobre a paixão por sua esposa, sobre o amor pelos filhos. Nesse sentido, Junerlei era purista, pois amava sem amarras, sem espadas, sem cruzes. 

Nos últimos instantes, creio que seus olhos desembaçaram. Viu com nitidez que gostaria e acreditava: paixão, beleza e bondade. Padeceu em sala de aula, num universo encapsulado que conseguia expandir sem freios. Durante trinta anos dedicados à Universidade Federal do Maranhão, Junerlei cumpriu sua missão histórica e diária com destreza e deixou um legado que pouquíssimas pessoas são capazes de gerar. Gostaria de poder afirmar que a instituição retribuiu os serviços e empenho do professor da forma mais adequada, mas não penso que seja o caso.

Se há razões para que as entradas da Universidade ou do CCSO amanheçam fechadas, essa é uma delas. Precisamos de sensibilidade, amparo e compaixão. A desassistência aos professores e estudantes é sistêmica, é projeto e é, acima de tudo, vergonhosa. Soa ilusório, mas espero que a morte do professor Junerlei desperte a gestão falha e tecnocrata do reitor Fernando Carvalho sobre as muitas deficiências que a Universidade Federal do Maranhão possui nos campos de atendimento humanitário aos seus frequentadores. Digo, sem pestanejar, que Junerlei lutava contra isso.

Aos que acreditam, Junerlei decola rumo aos céus ou, citando Josué Montello, sobe ‘os degraus do paraíso’ com seus anéis de coco, envolto de Fernet e com uma gigantesca biblioteca.

Professor, obrigado por falar sobre Frida, Che, Mao, Darcy, Picasso, Hemingway, Drummond, Sófocles, Tarkovsky, Monet, Manet, Guimarães Rosa, Hilda Hist, Clarice e vários outros que não consegui lembrar. 

Direciono meus sentimentos aos familiares e desejo um descanso merecido, perene e sereno ao maestro.

2 respostas para “Sobre o maestro Junerlei Dias de Moraes”.

  1. Linda homenagem, belo texto. Conseguiste fazer o leitor entender uma coisa que eu sempre tive curiosidade de saber, como deveria ser, ser aluno do meu pai.

    Obrigado pelas palavras e pelo carinho. Significam muito.

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  2. Excelente texto. Percebe-se claramente que ele cumpriu com a missão de ser professor: ensinar a pensar e questionar, a instigar a desbravar o mundo, mas antes de tudo, ser humano e perceber o humano de cada um, que é único.

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