Botequins da Ilha #2 – Bambu Bar


A resistência das tradições populares se mantém fortificada mesmo com entraves e óbices impostos por um sistema que, quando não destrói, busca esterilizar. Caminhar pelos bairros ludovicenses é presenciar a tenacidade dessas práticas e ambientes altamente comunitários que, sim, lutam diariamente por sua sobrevivência, mas que principalmente revigoram e humanizam locais que poderiam estar loteados…


Espaço interno do Bambu Bar. Foto: Paulo Vinícius Coelho.

A resistência das tradições populares se mantém fortificada mesmo com entraves e óbices impostos por um sistema que, quando não destrói, busca esterilizar. Caminhar pelos bairros ludovicenses é presenciar a tenacidade dessas práticas e ambientes altamente comunitários que, sim, lutam diariamente por sua sobrevivência, mas que principalmente revigoram e humanizam locais que poderiam estar loteados somente pelo concreto e o mormaço.

Grandes exemplos disso são os botequins. Os dicionários on-line definem: “estabelecimento comercial popular onde servem bebidas, lanches, tira-gostos e, eventualmente, alguns pratos simples; bar, boteco”. Por aqui, defino como espaço democrático em que moradores e andarilhos podem exercer e perpetuar sem julgamentos, em boa parte dos casos, sua coletividade ou solidão, ora por escapismo, ora por alguma busca.

O que se pode decretar – de forma quase absoluta – a respeito dos botequins é que todos possuem mais história que nossas palavras se atrevem a contar. Quando não por lá vividas, as tragédias por lá são sofridas, assim como gozam-se as bonanças, sejam elas dos frequentadores ou dos proprietários destes espaços.

Bambu: uma história

É com isso em mente que o projeto Botequins da Ilha existe. A ideia é simples: reunir um memorial dos bares e das pessoas que compõem a boêmia ludovicense. Desta vez, visitamos o espaço favorito dos estudantes da Universidade Federal do Maranhão, palco de intermináveis contos da juventude.

Houve muitas dúvidas até que a mãe do Erisvaldo, o “Valtinho”, decidisse o nome do bar que montara na avenida principal do Sá Viana, em 1990. Pode-se dizer, até, que a alcunha do botequim se impôs, sem gesto definitivo para batizá-lo. Os bambus, como adereço da cenografia, naqueles idos, não poderiam ser mais sugestivos: Bambu bar, o nome. Adesão imediata.

O assentimento entusiasmado foi o mesmo entre os estudantes, a poucos metros de distância, na Cidade Universitária, o campus da UFMA. Esta relação – hoje, indissociável no imaginário e na cultura universitária – foi gestada de modo inusitado: Valtinho, então, aos 24 anos, sabia-se já o responsável pela taberna. Atendia à freguesia próxima e, eventualmente, ajudava a organizar serestas, para aumentar o público.

Despretensiosamente, ele precipitou o gesto que faria do Bambu Bar a disciplina apócrifa sobre a qual estudantes, há mais de 30 anos, se debruçam em entusiasmo sem páreo. Bastou escolher uma fita K7 com canções de Mercedes Sosa, Pablo Milanés, Chico Buarque e outros bambas, para que dois estudantes – os únicos clientes daquele dia – desanuviando, entre uma cerveja e outra, voltassem os sentidos à trilha sonora. Não tardaram, pois, a chamar mais companhias. E companhias, e mais companhias. Até que o Bambu viesse a ser a estância daquela primeira geração de universitários.

Se o local, em sua origem, se afinava à MPB de então – recebendo, em seus primeiros anos, pequenos shows de nomes proeminentes da música maranhense, como Roberto Ricci e Beto Pereira – as coisas, em seu percurso lógico, mudaram, já na metade dos anos 1990.

“A primeira calourada que teve, em 1995, foi com trio [elétrico} e a banda Ilha. Eu tomei de conta. A partir dessa calourada, eu já tive a ideia de começar a mudar. Foi na época que entrou Cidade Negra, e foi começando a chegar a axé music”, relembra Valtinho, ao mencionar a primeira mudança de preferências musicais entre os universitários. Muitas outras viriam, acompanhando cada novo interesse da juventude. Do pagode romântico ao sertanejo; do brega funk à pisadinha e o neopop.

As transições, no Bambu, acompanharam também as dinâmicas em curso na UFMA. Valtinho, por vezes, alinhou-se, enquanto comerciante, ao eventos internos do campus – como ponches e confrarias -, quando estes ainda eram possíveis. “Começou a ter briga, assim, e a segurança que tinha era pouca, ali na Vivência. Comecei a ver o seguinte: chegava 22h, tinha roubo. E o estudante começou a não ir mais”, exclama.

Parte deste processo de decadência se deve, ainda, à pandemia da Covid-19, cujos efeitos, em matéria de sociabilidade, ainda repercutem. Se antes, diz ele, a presença estudantil, no Bambu, era diária, hoje ela ocorre prioritariamente às quartas-feiras, por ocasião do evento conhecido como “Quarta das Atléticas”, organizado por cada uma das graduações. Mais uma etapa geracional.

Para manter o bar em plena atividade, uma leva de outros projetos vêm sendo esboçados. Uma das preocupações do Valtinho, inclusive, é manter, junto aos filhos, a longevidade do estabelecimento, como sua mãe fizera, um dia.

Este cuidado não se restringe à mera atividade comercial, posto que o Bambu exerce ações em caráter solidário, como a arrecadação anual de alimentos, todo fim de ano. O “Natal sem Fome”, organizado pelos funcionários, é uma forma de reafirmar a assistência, o amparo e o respeito à comunidade do Sá Viana. Respeito este que se estende à própria liturgia do Bambu. Indagado sobre o estabelecimento funcionar só até às 20h, Valtinho não tardou a responder: – é para que cada morador possa assistir, em sossego, o seu futebol e o Jornal Nacional.

Por: Gabriel Jansen e Juliano Amorim

Uma resposta a “Botequins da Ilha #2 – Bambu Bar”

  1. […] aresta da empolgação propiciada pelo Bambu Bar, cuja atividade se encerra às 20h, o Bar da Keila acolhe o after. O rendimento nos dias seguintes, […]

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