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Entrevista com Eduardo Freitas (Preá): “o botequim está ligado a uma perspectiva de classe”


Pouco expansivo e habitualmente reservado. Eduardo Freitas, 43, o Preá, opta por uma apreciação silenciosa, de tempo e espaço, em cada botequim que decide entrar. Justo assim, lhe acorrem pensamentos sobre a cidade, seus hábitos e suas dinâmicas. Parte da reflexão se cristaliza em fotos. Preá se esmera em registros fotográficos de bares populares há…


Eduardo Freitas, o Preá. Foto: reprodução.

Pouco expansivo e habitualmente reservado. Eduardo Freitas, 43, o Preá, opta por uma apreciação silenciosa, de tempo e espaço, em cada botequim que decide entrar. Justo assim, lhe acorrem pensamentos sobre a cidade, seus hábitos e suas dinâmicas. Parte da reflexão se cristaliza em fotos.

Preá se esmera em registros fotográficos de bares populares há quase uma década. Seu perfil no Instagram _preah, armazena uma galeria suntuosa, colorida, em cujo destaque está o botequim, pessoalizado como transversal do cotidiano dos milhares sem rosto.

Mas não façamos confusão: a fotografia é apenas centelha para outras discussões propostas por nosso entrevistado. Preá, o distinto botafoguense, de barba vigorosa, é sociólogo de formação e servidor público.

Afeiçoado aos botequins, analisa-os e, de cara, esclarece que o normativo acadêmico não faz parte de suas pretensões. Seu desejo é a troca de ideias; o livre pensamento acerca do botequim como espaço de análise da vida urbana e suas desarmonias tristemente em curso.

Neste Enchendo o Copo, Preá, muito espirituoso, nos empresta a graça de seu pensamento em colocações sobre assuntos variados. O botequim, claro, no centro de todos os ensejos.

Leonardo Alves: Por ocasião do período pós-pandemia, naquele fim de ano, em 2022, a thread sobre os botequins no bairro de Copacabana fez um enorme sucesso. Como foi maturar essa ideia? Quais processos envolvem a gestação deste seu movimento?

Preá: A validação social das coisas as tornam maior ou menor do que a coisa em si, né? Isso é importante até pra gente pensar na perspectiva do botequim. Eu fiz a parada [thread sobre botequins no bairro de Copacabana, na rede social X] mais no campo da preocupação com o comércio pós-pandemia, a partir de um recorte de botequins, bares populares e tradicionais, que geralmente são tocados por uma faixa-etária mais avançada. 

Se a gente pegar a média etária dos donos de botequins, bodegas e baiucas aí pelo país, deve ser uns 50+, 60+, facilmente. 

Então, eu fiquei preocupado tanto pelo cenário comercial quanto pela saúde da população. E, nessa época, Copacabana era o bairro onde eu estava residindo. E eu sempre vou estar mais ligado ao território onde eu ando. Tem muito a ver com a questão do caminhar, de ir a pé pela cidade…isso me interessa. Nesse cenário, eu quis saber se os bares e os botequins que eu visitava estavam vivos. Depois minha companheira me disse: “cara, você tem que publicar isso no dia do aniversário de Copacabana.’’

Metodologicamente, não tem rigor de nada. Tem uma folha de papel, anotação e, ao final, eu peguei todas as ruas de Copacabana e fui batendo, tipo: “ah, essa rua tem [botequim], essa não tem, deixa eu ver se eu já passei por essa rua…’’

Não sei se vocês conhecem aqui [Copacabana], é um bairro famoso, só que não é muito grande. Ele fica entre a montanha e a praia, então é como se fosse um grande retângulo de três quilômetros. Não é diminuto, mas dá para ir de uma ponta a outra a pé em uns 40 minutos.

Na reta final eu comecei a sistematizar nesse sentido de ver o que tava aberto ou não, sempre nessa perspectiva do botequim, do bar da camada popular. 

Depois eu percebi que tem uma coisa que eu acho que é um fetiche de quem produz, pode ser um fetiche do leitor: é que sempre acham que por trás disso está uma perspectiva sociológica, metodológica, por conta da minha formação. Mas assim, é uma caneta e um papel dizendo “tá aberto ou tá fechado’’. Mas, evidentemente, eu sabia que era um número substantivo. Então quando você vê, pensa: “caraca! Em Copacabana só desses botequins mais do submundo são 75!” Hoje, são 72. Salvo engano, três já fecharam. 

E tem o território. Todo mundo quer falar sobre si em Copacabana. “Minha tia tinha uma casa”; “eu fui no Reveillon de 2008’’; ‘’eu fui’’, ‘’eu quero ir’’…tudo isso ajuda na atração do conteúdo.

Leonardo Alves: O que te despertou o interesse pela gastronomia, em especial no contexto dos botequins e bares populares?

Preá: Esses lugares têm uma vivência muito subjetiva. Cada um retira o que quer e significa como quer cada um desses territórios. Mas, evidentemente tem algumas variáveis mais objetivas, e acho que esse lance do rango é uma delas. É um rango sempre farto, que é barato pra quem produz, barato pra quem consome. 

Mas eu tento não seguir essa linha [conteúdo sobre gastronomia] que tem uma galera que faz muito bem ou faz de qualquer jeito. Não tem nenhuma postagem minha que dá dica. “Venha terça-feira comer a rabada do seu Tião..’’ A minha lógica é outra, mas tem uma galera que faz e eu acho foda. Se eu conseguisse realizar o meu desejo de conhecer São Luís do Maranhão, eu ia procurar saber quais são os bares mais antigos e populares que abrem de manhã e ia procurar o que eu posso comer, o que eu não posso deixar de comer. 

O meu interesse pela comida está subjugado ao interesse pelo local. Muita gente me diz “Ah, cara, tem um lugar que eu acho que você vai gostar, mas não tem nada pra comer’’. Isso realmente não tira nem dá ponto, no meu caso. Se você quiser ter esse controle todo, você fica em casa. “Ah, não tem nada pra comer…’’ Pô, come antes! 

Pro meu trabalho, tudo no local me interessa em conjunto. A história, a gordura no azulejo, o chão…tudo que compõe me interessa mais em conjunto do que isoladamente. Eu vejo a comida como um componente que tem ali, mas posso ir tranquilamente em um lugar que vende só torcida e amendoim.

LA: Em algumas das suas colocações, em outras entrevistas, você menciona o botequim, na configuração dos bairros, como o espaço onde os trabalhadores se congregam. Nas suas observações, isso se mantém ou está sob mudança?  

Préa: Sim para as duas. Se mantém e está mudando. Eu vejo numa perspectiva muito finita. Talvez a gente seja a última ou a penúltima geração que vai pegar essa galera de porta aberta. Por exemplo, vocês aí vão num bar que tem 45 anos [referência ao Bar do Léo, citado antes da entrevista por Leonardo] , mas se procurar deve ter coisa que tá aberta desde a década de 40, 50. Daqui a 20, 30 anos, não está mais. O dono morre, a família pega, tem um sobrinho que acha que entende e vai pegar, vai meter um X-burguer, daqui a pouco pinta tudo, bota porcelanato, luz pra piscar, fecha e depois abre uma franquia da Cacau Show. A tendência é essa. E assim, sem nenhum fetiche sobre nada, mas é porque o nosso modo de consumo mudou. Eu lembro do meu pai tendo que sair de casa com um engradado pra trocar a cerveja vazia pela gelada. Então ele tinha que ir no botequim, a minha mãe pedia pra comprar cigarro no botequim. Hoje, enquanto você tá no banheiro, no celular, você já pediu tudo. Você saiu do banho, a cerveja já tá gelada na tua porta, mais gelada e por um preço melhor. A lógica contemporânea do capital nos empurra para esse tipo de consumo. Então tem uma finitude desse tipo de território [o botequim]

O meu esforço quando eu tento encampar algum projeto, é porque eu acho que a gente tem uma janela de possibilidades de registros desses lugares que daqui a pouco não vão mais existir. Tem um camarada de Recife que também falou “comecei a ver sua página, negócio de Copacabana…’’ e aí ele fez o Guia Boêmio. 

Qualquer tipo de registro, é importante, porque diz sobre muita coisa, a memória da cidade, a tradição, a história oral…e joga luz em um comércio que é muito longínquo. Se você pensar que tem lugar que tá aberto há 60, 70 anos…cara, ou é botequim, ou é loja de alguém muito rico que mantém a loja sem precisar que ela esteja no azul.

Eu acho que ainda tem botequim e por conta do que eu defendo: botequim não é território do Rio, não é território do subúrbio do Rio. Ele pode ter sido criado, pode ter uma adaptação maior ou menor ao resto da cidade, pode ser incorporado à cultura da cidade de forma mais suave ou mais brusca, mas, pra mim, o território botequim, bar popular, tem a ver com recorte de classes. Onde tiver classe trabalhadora que vai precisar desse lugar pra sua serventia – seja na perspectiva do álcool para alienar sobre trabalho, seja na perspectiva da sociabilidade entre os seus, seja na perspectiva da busca pelo rango barato, seja pra se reconhecer num lugar dentro do bairro que ele não se reconhece – pra mim, onde tiver peão, classe trabalhadora, gente trabalhando, a chance de ter um botequim é enorme.

LA: Podemos presumir que o botequim é algo a mais em relação aos outros bares, pelo tipo de vínculo que se estabelece entre aqueles que o frequentam, mas, especialmente, em relação à clientela e ao dono do estabelecimento, uma figura central na maioria dos botequins. O que você observa e destaca, em termos de socialização? 

Preá: Sempre vem a questão da definição, do que não pode faltar no botequim, o que faz um botequim ser diferente. Sempre quando eu ouço, me coloco pra pensar no que eu acho sobre isso. E eu estou convencido de que são as pessoas que se reconhecem entre os seus, são os pares que subjetivamente se encontram naquele lugar e reconhecem e constroem aquele espaço como seu, que fazem aquele lugar ser o que é – numa perspectiva poética, carregada de uma série de coisas que me colocam o seguinte: se junta eu, você, Juliano e mais dois amigos aí, a minha perspectiva é que a gente não constrói um botequim no dia 23 de outubro [data da entrevista]. Pode trazer o dinheiro de quem for que não consegue. Porque isso requer tempo, reconhecimento de quem faz o botequim, de quem vai consumir. Não sou eu que digo que aquilo é um botequim, é a clientela, é a validação social, é essa perspectiva de pertencimento e de construção de sentido que vai fazer aquilo ali ser o que é, pode ser um bar popular, um grande botequim, uma birosca…

Pra mim tá tudo bem, acho que cada um consome o que quiser, mas no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, eu sei que já chegou uma onda de uma galera que tem muita grana e que faz coisas lindas, mas que simulam um botequim. É um piso muito bonito, um azulejo hidráulico muito bonito, você faz uma parede com azulejo português antigo, bota um balcão de mármore lindíssimo…tudo muito fabricado pra aquilo ali passar um tipo de experiência.

Botequim é aquela música do Aldir Blanc com o João Bosco, Rancho da Goiabada, que eles falam: domingo, o bar, onde tantos iguais se reúnem contando mentiras pra poder suportar. Pra mim, é isso: onde tantos iguais se reúnem. E os iguais só se reúnem voluntariamente. 

Eu tenho uma teoria de que – claro que tem a ver com preço, mas não é só isso – se tu botar um litrão de Brahma a seis conto num bar da playboyzada, o peão que bebe no seu Benedito não tem o mínimo interesse em ir lá, de conhecer outro lugar. Porque aquilo ali diz muito mais do que o preço que ele paga na cerveja. Isso importa também, mas tem uma outra noção de reconhecimento, de pertencimento.

Essa relação se dá numa série de variáveis: do dia que você chega, quem trombou pela primeira vez, qual era o som que tava rolando, o papo que tava rolando, como tu foi pela segunda vez..

Eu sou um cara com uma outra cultura, diferente de uma outra rapaziada. Eu tô muito mais ligado com a questão do silêncio, da introspecção, da pausa, da melancolia, da calma…em contraposição a galera que vê bar como sinônimo de euforia, falação, muita gente. Eu consumo o meu lugar subjetivamente de uma outra forma. Eu, nas minhas andanças, vou me ligar ao que me acolhe nas minhas subjetividades. E nesse lugar provavelmente vão estar os meus pares.

Mas tem gente que, sei lá, o cara sai de uma obra na Zona Sul e ele tem que parar no botequim porque se ele for pra casa seis horas da tarde, o trem está cheio demais, é ruim pra ele. Ele já para, toma um álcool, fala com os dele, fala mal do patrão…então, o povo busca coisas distintas em meio a esse território tão diverso.

LA: Qual a principal diferença que você percebe na atmosfera de um botequim e de um bar? Como esses ambientes transmitem diferentes sensações e expectativas aos clientes, na sua visão

É uma crise mais minha, mas eu acho que a gente tá num nível de consumo e de informação que todo mundo fala muita coisa e aí cria muita regra. Eu evito. Até nas minhas coisas lá de “etiqueta de botequim’’, é sempre muito sarcástico. 

Tudo que eu vou falar agora é, de fato, muito subjetivo. Aquilo que eu consumo não repousa sobre o certo ou o errado. Pra mim, ponto número um: o botequim tá ligado a uma perspectiva de classe, serve a camada popular, o proletariado, a população de rua, o cara que juntou as moedas e colou no balcão pra tomar uma dose de conhaque às 8 horas da manhã porque a vida dele é uma merda, ele ta com fome e a embriaguez se tornou um problema pra vida dele.

E aí eu não to fazendo nenhum romantismo sobre o alcoolismo e todas as suas derivações de problema, mas, ali, pra ele, é uma muleta para suportar a vida do capital, pra qual ele não serve. 

Desde esse cara até o cara da classe trabalhadora, o porteiro que fugiu, foi jogar o lixo fora e vai escondidinho lá atrás tomar uma dose de pinga pra voltar pro trabalho. Esse cara dificilmente tá no bar. Primeiro que, eu não sei aí, mas o Rio tem uma perspectiva de bares e botequins abrirem de 7 da manhã às 11 da noite. Todo mundo abre cedo. E eu sei que outros lugares não são assim. Por exemplo, eu conheço Belém com uma certa regularidade e lá, pra tu achar um lugar pra beber antes de duas da tarde, tu tem que dar uma caminhada boa. São outros hábitos. 

E, pra mim, ta ligado mais a uma parada do sossego, da melancolia, do reparar o sofrimento, de pensar na vida, do desassossego…tem uma porrada de botequim no Rio de Janeiro que não tem mesa. É pra tu ficar no balcão sozinho. O cara que vai com cinco amigos pro balcão tá subvertendo a ordem. Eu brinco que o cara que fez a mesa pra quatro lugares já tinha ciência que esse é o limite. Essa coisa de juntar a mesa tá errado. São quatro pessoas pra sentar ali, conversar, falar baixo…é saber chegar, saber sair, é entender que tu não é amigo do Ribamar que te serviu cinco vezes e na sexta vez tu acha que é amigão dele. Ribamar tá de saco cheio de você, mas ele tem que ser gentil. Tu não é amigo dele, tu nunca chamou ele pra ir na tua casa, não vai lembrar dele na Missa de Natal no final do ano. Mas tem uma galera que tem esse fetiche da “democracia do bar’’, de achar que ta todo mundo junto.

Eu acho até que pode estar todo mundo junto, mas, nesse lugar, vai estar todo mundo separado.

Se eu tiver que colocar num esquema, se tiver que colocar no Power Point do Dallagnol, pra mim é isso, botequim tá ligado a isso: solidão, melancolia, silêncio, alienação, acolhimento. E o bar tá ligado a outra coisa: euforia, falação, música, brindes efusivos. “Ah, mas eu não gosto…’’ Cara, você pode fazer o que você quiser. E com certeza tem uma porrada de botequim que foi forjado assim, pra uma outra galera se reunir e tal.Mas assim, nas minhas andanças, os que eu mais gosto, os que eu brinco dizendo que são os mais xexelentão, é cada um na sua, galera falando baixo, meio quieta. 

Agora, repito: botequim prioritariamente, tem a ver com essa perspectiva do recorte de classe.

LA: Não raramente, botequins são encarados com um certo fascínio pelo exótico por um determinado público. Costuma ser comum, também, que alguns barem tentem emular uma pretensa “essência’’ de botequim. Isso te incomoda? 

Preá: Incomodo pra mim é o que Israel faz em Gaza. 

Cada um faz o que quiser. Eu não sou desses caras que fica dizendo “Ah, é um absurdo’’. Eu fico mais injuriado quando jornalista, por exemplo, que vai fazer matéria sobre os bares de Botafogo e escolhe, voluntariamente, falar só sobre os bares modernos. Aí isso me dá uma chateação, porque é uma escolha de quem produz informação. Agora, o dono do bar, quem consome lá…pra mim, tá tudo bem.

Eu não sei se São Luís tem o Comida de Boteco [festival], mas é uma parada que de fato revolucionou, fez gente de botequim fazer muito dinheiro, porque você bota a cidade em circuito com a parada, mas que, invariavelmente, não tem nada nem de boteco e nem de comida do boteco. “Ah, o Bar do Léo fez um jiló flambado no conhaque que serve com Amstel gelada’’. Show, cara, pra mim tá tudo ótimo e pode ser um rango foda, agora, cara, isso não tem nada a ver com a cultura da comida de botequim. “Ah, quem ta falando é o Preá’’. Não, cara, é só tu rodar cinco botequins aí que tu vai ver.

Isso me deixa mais injuriado. Quando a circulação de informação ajuda na apropriação do capital. E o movimento do capital pra se aproximar de símbolos existe desde que o mundo é mundo. Pegou o futebol e transformou no que fez. Pegou a música e fez o que fez. É uma das contradições que a gente vive.

Agora, sobre esse lance da fetichização, tem isso muito na galera até que me consome regularmente. Uma galera que fala “caralho, o Preá é incrível’’, ‘’caralho, maneiraço’’. E eu sei que é o cara que não vai nem passar perto do botequim, porque de fato tem essas variáveis não controláveis que de repente são muito desconfortáveis pra quem quer consumir. Sei lá, o bar tem um funcionário só; ninguém vai sair do balcão pra ir na tua mesa saber o que tu vai comer. O cara ali não teve tempo de passar o paninho com álcool em todas as mesas, ele não tem uma equipe de quatro pessoas, o banheiro não vai ser limpo…evidente que eu prefiro o banheiro limpo do que sujo, agora, o meu consumo naquele lugar tem mais interesse do que esses marcadores do tipo: assepsia total do banheiro. Cara, beleza, já fui em lugar aí muito bom, muito chique, pagando caro e o banheiro é um lixo. Então, nesses territórios [botequins], eu busco outros tipos de consumo.

E acho que a gente tá numa janela de fetichização e comparação do que é popular, do que é raiz, essa coisa do que é raiz e o que é nutella…esses dias eu li um texto que dizia que cerveja de garrafa de 600 é que é raiz porque tem cara que só bebe long neck e aí eu fiquei ‘’ah, tá…não sabia que era raiz não…’’[risos].

LA: Como nota a presença feminina nos botequins? 

Préa: Ambiente escroto do início ao fim, majoritariamente conservador, misógino, transfóbico, homofóbico até a unha, invariavelmente defensor de violência policial. É Datena, Balanço Geral…quanto a isso, eu sempre apontei mesmo. Talvez por isso a minha conduta nesses lugares seja ficar mais quieto mesmo. Mas assim, cara, não é  nem caô: é muito ruim para as mulheres. Tenho várias amigas que atravessam a rua porque não é nem que “ah eu não vou lá tomar uma cerveja’’ é de não passar na frente, porque é isso: onde junta muito homens vão ter as “homices“. Isso é potencializado por duas coisas: o sentimento de grupo e o álcool, a falta de trava e de controle social. Ou até sobre uma coisa que nós falamos anteriormente e que não é necessariamente é, que é o cara se sentir no lugar que é dele, ter a sensação de pertencimento, ele fica mais “livre’’ para falar o que ele acha que é aceito.

Mas assim: não sei como é São Luís, mas em Minas e Rio, que eu conheço mais, você tem uma porrada de botequim que é tocado diariamente por mulher. É a mulher que tá ali, ela tem a ordem dela, o código dela…“Ah, botequim é bagunça’’. Cara, pra mim o que é bagunça é bar. “Nêgo” chega com bolo da padaria, acende vela, grita, bota a música que tem na caixinha. No botequim você não faz isso nunca, se não você nunca mais volta. Se não você toma um esporro. O cara te pergunta “Da onde é esse bolo? Aqui não vende bolo’’. 

Acho que em alguns bares específicos que são tocados por mulheres, de repente tem algum outro código ali outro mais suave. Mas é muito ruim. Inóspito mesmo. Eu às vezes falo sobre botequim e sempre tem essas paradas “Ah, você tá falando isso porque você não é mulher”, “Eu tenho vontade de ir num lugar desses e não tenho condição’’. E é isso mesmo. E o nosso papel como sempre é ouvir, se constranger enquanto coletivo do patriarcado, reconhecer os privilégios que a gente goza desse sistema e tentar ser um pouquinho menos bosta do que a gente é cotidianamente. 

LA: Qual a reação das pessoas aos seus posts? Há sugestões com dicas de novos lugares? O público costuma compartilhar contigo as impressões sobre alguns dos estabelecimentos que aparecem no perfil?

Eu tenho meu tipão mais low-profile. Eu não gravo vídeo, não falo, não dou dicas…eu acho que a galera acaba que saca. Minha pira tá mais na parada do registro fotográfico. Eu falo que o meu objetivo maior não é você Leonardo vir no Atalaia, que é botequim que eu postei foto na quinta-feira. Tô cagando se você vem ou não. Eu quero é que você passe na esquina da sua casa, olhe pro bar do Tião e diga “caraca, aqui é maneiro mesmo’’. Essa é a minha pira maior, tentar dizer que esses lugares estão muito vivos e tem muita coisa pra ser consumida para além da bebida, além da comida, além dos fetiches. Dito tudo isso, eu tô querendo dizer de uma forma mais suave que eu não tenho muita troquinha, muito “e ai, o que você acha?’’, “dá uma dica aqui pra mim’’. Eu nunca fui nem nunca vou ser grosseiro com ninguém, mas eu não tenho muito essa parada de “e ai, galera, e ai rapaziada’’. 

Vira e mexe um cara diz “Preá, to aqui em Copacabana, o que você sugere?’’. 90% das vezes eu não falo nada. E aí quando eu tô mais assim eu digo “cara, depende do que você quer, dá uma olhada aí na página…’’. Ou quando o cara chega com uma parada mais prontinha tipo “tô na rua tal, onde eu tomo uma cerveja?’’ aí beleza, posso falar. Mas assim: não vou ser guia de ninguém não. Isso é mó caído.

LA: Então você não se considera um guia de botequim?

Preá: Pelo amor de Deus, não faz isso comigo não.

LA: Tem algum projeto pro futuro do perfil? Existem planos pra expandir o alcance do seu trabalho?

Preá: Tem! Olha só: a minha maior vontade no momento é trabalhar com essa perspectiva do “botequins são territórios locais, longínquos na cidade e que vão acabar’’. E pra quem gosta, ou finge que gosta, ou quer ganhar dinheiro falando que gosta, tem uma forma muito honesta de ajudar: contribuir com todos os projetos que fazem registro fotográfico, oral, audiovisual, porque isso vai acabar. Eu to na pira de no ano que vem ver alguns editais, de fazer projetos ligados à memória, à sociabilidade. 

Com certeza tem uma São Luís que é contada a partir dos botequins. O que o botequim ainda tem, o que ele faz, por que o cara tá ali há 60 anos…

Para além dos posts da rede, eu fui chamado pra um festival de cinema em BH pra fazer umas fotos lá em uns botequins, fui pra lá em setembro, vai ter uma exposição no festival em novembro; o festival chama Matula Film Festival. 

Estou com um projeto pra sair no início do ano que vem em São Paulo que é de fotografar bares tradicionais e populares, porque tem esse falso senso-comum de que São Paulo não tem botequim, que é uma coisa do Rio. Essa coisa tola de terceira série Rio versus São Paulo…

Marcas, parceiros, gente com dinheiro no bolso: vamos fazer projetos, vamos apoiar a galera do blog, a galera que ta fazendo projeto sobre botequim. Daqui a 20, 30 anos, não vai ter mais a gente vai ficar procurando a foto antiga do [Google] Street View, sabe?

Meu projeto é isso se tornar isso sustentável. Eu to com uma parada aí chamada TRAPO – Registros de Bares Tradicionais e Populares. Trapo é Tradicional e Popular. 

Se eu tivesse condições financeiras, investidores, meu objetivo seria fazer um grande mapeamento, com uma porrada de parceiros. Não só eu, porque quem sabe em São Luís não sou eu, mas é chegar junto com uma galera que gosta e que conhece e tentar fazer isso ser uma parada capilarizada no país. Isso hoje tá numa perspectiva de fantasia. Projeto é esse, se vai rolar ou não…Tô tentando dar uma envergadura de maiores possibilidades. To nesse pique da seriedade que o assunto merece.

LA: Nós temos uma ideia parecida aqui com um projeto chamado Botequins da lha…

Preá: Tem que parar com essa balela de “ah, é só no Rio’’. Isso tem a ver com a petulância do carioca. O cara de SP é petulante de gel e o do Rio é petulante de chinelo. Tu vai pra Minas, tu fica doido com a quantidade de botequim.

Acho que a gente tem que batalhar. Chegar pro cara que tem uma cafeteria com diz “desde não sei quando’’ e falar: tu não é uma marca que se apropria da cidade? Não fala que tá aqui desde o início? Então, apoia o projeto que conta a história da cidade. Apoia o projeto do blog aí que conta a história dos botequins, da cidade a partir dos botequins…

LA: Um recado para quem não conhece o perfil ainda.

Préa: Para os amantes de botequins: vamos aprender a entrar mudo, sair calado, falar menos e ouvir mais.

Juliano Amorim: eu reparo que você tá sempre com uma Brahma ou uma Antártica. São suas cervejas prediletas mesmo?

Preá: Bar que eu já vou, que eu já frequento, eu peço Brahma, porque cerveja na rua tá ficando muito cara.Uma Becks, uma Spaten, tá 15 pratas já. Uma Heineken tá 18, 19 pratas.

Agora assim: cheguei em São Luís amanhã, tô bebendo num bar do lado da rodoviária: a primeira coisa que eu vou fazer é ver qual cerveja o dono tá tomando. Vou pedir essa pra não ter erro. Se o cara tá tomando Cristal, vou pedir uma Cristal pra mim.

LA: Qualquer coisa que você indique.

Preá: Indico os livros do quadrinista estadunidense Joe Sacco sobre a Palestina. Ele tem uma série bem legal que ajuda a compreender, ter uma visão que ajuda a gente entender a gravidade da situação.

LA: Qualquer coisa que você contraindique.

Preá
: Contraindico consumo de canais que abreviam as suas impressões, tipo o cara que vai filmar o lugar que você vai pra viajar, onde você chega, como é o banheiro, como é a mesa. Aí você chega no lugar e não tá vendo nada de novo, você só tá tendo a grande experiência de estar num lugar que você já viu tudo pela internet. E a gente muito devagar ta consumindo esse tipo de conteúdo. 

As nossas impressões, surpresas, frustrações, descobertas, elas são fundamentais pra gente construir o que a gente gosta ou não gosta.

Por exemplo: diz aí uma comida muita associada à São Luís. [Juliano responde caranguejo]

Eu não acho sinceramente que eu tenho que ir pra São Luis comer caranguejo, não tenho que ir na Dona Irene onde 11 horas da manhã já tem fila pra comer o melhor caranguejo. Eu posso estar aí na rua, quarta-feira à noite, ver o lugar, sentir e perguntar: quanto tá um caranguejo aí? e talvez vá ser foda pra mim. Enfim, acho que a gente tem que investir nas nossas impressões

A gente tem que se atentar muito pra quem tá em negócio de rede, de produzir conteúdo…a gente muitas vezes é intermediado pelo celular. Eu tô numa prática que eu chego no lugar e só depois de uma hora eu tiro o celular do bolso. Pra não chegar e ser intermediado: eu, o lugar e uma tela.

Uma resposta para “Entrevista com Eduardo Freitas (Preá): “o botequim está ligado a uma perspectiva de classe””.

  1. Belo trabalho, belas ideias

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