O último som do sargento


Muitos anos depois, diante das homenagens aos patriarcas alheios, eu havia de recordar aquela tarde remota em que meu pai me levou à praia do Calhau. Era janeiro de 2010 e, se bem me lembro, foi a última vez que saímos juntos. Estávamos apenas nós dois. Minha mãe costuma dizer que, de alguma forma, ele…


Muitos anos depois, diante das homenagens aos patriarcas alheios, eu havia de recordar aquela tarde remota em que meu pai me levou à praia do Calhau.

Era janeiro de 2010 e, se bem me lembro, foi a última vez que saímos juntos. Estávamos apenas nós dois. Minha mãe costuma dizer que, de alguma forma, ele sabia de sua sentença, portanto reservou uma despedida particular para cada um dos filhos, mas prefiro acreditar na casualidade da ocasião.

Turvas são as lembranças, mas sei que os ventos marinhos bagunçavam meus cabelos e a areia residia entre os dedos dos pés. Estávamos igualmente próximos dos bares e das ondas, pois a maré estava alta. São as sensações e as locações que ocupam a maior parte das memórias. Caminhávamos calmamente à beira do oceano e os sons dos conselhos proferidos por ele rasgavam-se com o soprar dos zéfiros que entoava em meus ouvidos pequeninos. Escolho crer nisso por doer menos que admitir que esqueci o que me foi dito, mesmo que tais palavras já não mais me sirvam.

Por mais que eu falhe em preencher as lacunas do inconsciente, sempre retorno a um momento deste dia. O passeio seguia e meu pai continuava a contar – e ocultar – os causos de sua vida conturbada quando avistei um ser quase transparente encalhado na areia. Sempre fui curioso, às vezes até demais, então cessei meu andar e me aproximei da criatura para observá-la com atenção. Ele percebeu, parou também e pôs-se a admirar o animal da mesma forma.

– É uma água-viva – disse.
– Não, filho. É uma caravela.

São esses os únicos sons que me restam dele. Essa condição chegou a me desesperar por alguns anos, mas hoje aceito e contenho-me. Na volta para casa, o aparelho de som de nosso antigo Chevrolet Classic alternava entre “Melô de São Francisco” de Well Marx, um reggae que só um maranhense seria capaz de criar, e “Time” do Pink Floyd, a primeira banda de rock que escutei na vida. Agradeço por conseguir lembrar quais foram as canções, pois são elas as grandes escapatórias.

Não escrevo isso como uma forma de saudá-lo ou santificá-lo. Ele era falho, conservador e propagava quase todos os ideais que você encontraria no estereótipo de um militar, mas também era a única referência de um menino que havia recém descoberto a própria existência. A pessoa que sou hoje se define por sua ausência, o que me soa agridoce, mas acredito que viver com ele causaria um desconforto a mais que somente lembrá-lo. Não tenho vergonha de admitir.

Ouvir certas histórias produzem imagens mentais de situações que não gostaria de reviver, portanto me restrinjo aos sons. A música é o acalanto, então me bastam “Melô do São Francisco” e “Time” no Classic, assim como “Dilemma” do Nelly com a Kelly Rowland e “Candy Shop” do 50 Cent no CD pirata comprado na feira do São Francisco. Vez ou outra, me basta aquela volta da igreja em que, ironicamente, ouvíamos “Vida Loka, pt. 1” do Racionais. “Obsessão” de Forró Sacode ou “Que Tontos, Que Loucos” de Aviões do Forró em qualquer momento de descontração na sala de estar do nosso apartamento. “Locutor” de Léo Magalhães. Um louvor qualquer.

O tempo passou, a música acabou e eu pensei que teria algo mais a dizer. No fim, esses sons me bastam.

Por: Gabriel Jansen

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