
Eu me lembro que a soma do quadrado dos catetos é o quadrado da hipotenusa. E que depois do agito, dos olhos úmidos e do esganiçar da garganta – entre o entusiástico brado de indignação ou um pedido para ficar – vem esse momento de se sentir estranho e impotente diante do término.
Miudezas, tantas, de uma intimidade acalentada nos detalhes. Da piada infame ao prato predileto; dos segredos da infância ao desprezo só confessado ali, no papo-furado sob a cama, pelo colega de trabalho. Num gesto qualquer, então, tudo se vai. Como surpresa, e não só. Pôr fim a um relacionamento também costuma ser tragédia anunciada.
Espernear, não medir consequências, fazer promessas, autoindulgência…o leque de reações ao fim do amor, vale dizer, é um tanto previsível. Enumerá-las aqui é postergar a menção à companheira mais comum – e bem-vinda – nessas horas: a música.
Que sejamos aqui, na Sociedade do Copo, muito românticos, não chega a ser bem segredo. De término, entendemos. Noutro dia, colocando o assunto na pauta da mesa do bar, decidimos que valeria a pena listar algumas canções para a hora do adeus. Ei-las, então:
Legião Urbana – Vento no Litoral
Legião Urbana anda fora de moda, é verdade. Eu já não sei dizer se a figura do violeiro amador que aprendeu quantidade o suficiente de acordes para tocar quase todas as canções do grupo ainda existe, mas foi um hit entre a minha geração. Não execraria o nobre conjunto de rock brasiliense por essas razões, evidentemente.
O fato de eu ter ressalvas à banda também não vem ao caso. Importa que todo o lirismo do Renato Russo encontra nesta faixa o seu melhor acabamento. “Vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo…” é a expressão maior do meu pensamento quando alguém especial se vai. É lindo.
Marina Lima – Não Sei Dançar
A letra não dá tanta margem para supor que esta seja uma canção explícita de término. No entanto, durante o fim de um caso com uma promissora ficante, esta, na voz de Marina Lima, foi a trilha sonora, e eu sofri muito naquela ocasião.
Me parecia justo dizer que não saberia conduzir a nossa dança. Ou melhor, o nosso descompasso. Eu, apaixonado; ela, numa outra. Restou ouvir essa e pedir a saideira.
Caetano Veloso – Eu Sei que Vou te Amar
Adianto ao leitor que ouça a versão do Caetano, sempre bem-sucedido reinventar, à sua maneira, as músicas que regrava. Aqui é fossa, jura de amor eterno; todos os superlativos indispensáveis ao autor da letra. Vinícius de Moraes. Ouso dizer que se trata da minha canção de amor favorita.
Simples. Rápida. Fulminante.
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver à espera de viver ao lado teu por toda a minha vida.
Eu sinto exatamente isso quando termino.
Angela Maria – Vá Mas Volte
Composição de Wando eternizada pela voz de Angela Maria. Perfeita para ouvir num bom bar, no momento em que você está na antessala do término. Ou seja, está acabado e os dois sabem. “Não é preciso você dizer, eu sei, chegou a hora…’’
Gal Costa e Marco Pereira – Último Desejo
Imprescindível. Uma das maiores canções da história brasileira – e também uma das mais regravadas. Com facilidade, você encontra pelo menos dez versões incríveis da música de Noel Rosa. A minha favorita é interpretada por Gal Costa, acompanhada do violão de Marco Pereira. O solo de um minuto do violonista interrompido pela voz soberana de Gal cantando “nosso amor que eu não esqueço e que teve o seu começo numa festa de São João’’ é FA-TAL.
Chico Buarque – Eu Te Amo
Sim, é preciso falar dos clássicos. E o que seria mais clássico que uma canção composta por Tom Jobim e Chico Buarque? Acredite ou não, eu tenho a resposta: dizer o título dessa música para alguém. Reflito bastante sobre isso conforme lembro de meus romances esvanecidos: durante as finalizações de meus relacionamentos, proferir “eu te amo” seguia a fazer sentido, mesmo com a voz trêmula.
Sobre a composição, destaco os versos “como, se na desordem do armário embutido, meu paletó enlaça o teu vestido e o meu sapato ‘inda pisa no teu” e “como, se nos amamos feito dois pagãos, teu seios inda estão nas minhas mãos” por ilustrarem uma condição inerente aos amores condenados: a concretude do cotidiano tornando-se uma fantasia abstrata.
Fleetwood Mac – Silver Springs
Qualquer admirador do Fleetwood Mac sabe bem das conturbações do casal Stevie Nicks e Lindsey Buckingham. Foram justamente essas sinuosidades nos rumos dos musicistas que geraram as canções mais marcantes do magnum opus da banda, o disco ‘Rumours’ de 1977.
Eu poderia citar ‘The Chain’ ou ‘Dreams’, mas a escolhida por mim é ‘Silver Springs’, uma música que sequer chegou a integrar o álbum em sua primeira versão, mas que hoje é lembrada com a mesma intensidade da dor que seus versos carregam. Nicks, a intérprete e compositora da canção, é uma figura fortemente associada à bruxaria desde sempre, o que me faz questionar o quão figurativo o verso “time cast a spell on you, but you won’t forget me” (“o tempo te enfeitiçou, mas você não vai me esquecer” em tradução livre e desleixada) realmente é.
‘Silver Springs’ me soa como uma canção desesperada, uma lágrima que perpassa pelo rosto e se transmuta em fúria, um sentimento inominável que somente quem atravessou o luto de um amor putrefato consegue identificar.
Admito: já sofri mais do que gostaria ao som dessa!
Arrebatadora.
Dr. Dog – Where’d All The Time Go
Vulnerabilidade. Para onde foi todo o tempo? O sentimento de finitude em um término é, por vezes, implacável. Como algo tão absoluto pode, num piscar de olhos, virar uma lembrança, um borrão, uma não-coisa?
O grupo indie norte-americano Dr. Dog condensa essas contradições em uma composição crescente, com um certo quê de tragédia na melodia. Os questionamentos e transformações da visa chegam sem aviso prévio e no amor não é diferente.
De certo, jamais seremos capazes de vencer o tempo, o acaso, as reviravoltas da vida, e disso ninguém duvida. O problema é que, ainda assim, é muito fácil esquecer disso e acreditar no contrário.
La Habitación Roja – Indestructibles
Desnorteamento. Talvez a face mais cruel de um fim seja não conseguir enxergar o caminho que levou àquele destino. A música da banda espanhola versa sobre esse estado de confusão. Na busca por explicações, é inevitável lembrar dos pilares que nos faziam sentir capazes de enfrentar gigantes.
O que antes pode ter sido a força, o combustível primário do motor de uma paixão, passa a ser uma tábua de salvação, um último apego antes do desesperante ruir de fortalezas.
A melancolia é maior ainda quando existe a compreensão de que o fim está próximo, mas já não há mais como dar meia-volta. E de fato, é possível criar coisas indestrutíveis com alguém, o que não significa dizer que um dia isso não se volte contra nós.
5 Seconds of Summer – Ghost of You
Permanência. Nenhum de nós sai ileso dos encontros. Seja uma frase, um sorriso, uma noite, um presente, um beijo e até mesmo uma vida inteira: carregamos para sempre legados, marcas, cicatrizes de quem passou por nós. Quando se fala de amor, então, existe uma conexão que se transforma em espectros, rastros daquela vivência compartilhada.
A canção do grupo australiano 5 Seconds of Summer é um relato ao mesmo tempo sóbrio e lamentoso daquilo que já se foi – ou ainda está indo. Há também uma boa dose de dor, sobretudo no trecho que, traduzido, diz: “Somos muito jovens, muito estúpidos para entender de coisas como o amor.”Seguir em frente é, também, aceitar o que se transforma em passado e saber lidar com essas memórias com o devido sentimento, que, seja leveza ou mágoa, é parte de nossa história. Espero que todos nós saibamos dançar com fantasmas!
Los Hermanos – Primavera
Resignação. Viver um amor é, acima de tudo (na humilde opinião deste que vos escreve), fazer apostas. Tomar a decisão de compreender e expor suas vulnerabilidades e adentrar nas do outro; manter a crença no sentimento mesmo diante dos desafios; aceitar a volatilidade humana e se arriscar mesmo que tudo aponte na direção contrária.
A meu ver, “Primavera”, do Los Hermanos, traz consigo a história de uma paixão vivida com intensidade e que, mesmo após um final reconhecidamente fruto de erros, ainda é carregada com positividade.
Tem ainda aquele tom ora utópico ora otimista (mas nunca contornável) da esperança de num futuro resgatar o que passou, ao passo que também é, de certo modo, um aceno para que, mesmo em diferentes estações, cada parte encontre sua felicidade.
Ouça nossa playlist no Spotify com as canções listadas:
POR: Juliano Amorim, Paulo Vinícius Coelho, Gabriel Jansen e Leonardo Alves





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