O amor não conhece despedidas


Outro dia parei naquela cafeteria perto do trabalho, como de costume. Os funcionários já sabiam que meus dias mais estressantes passariam por ali sempre no fim da tarde. O desgaste mental dessa vez não era por motivo do emprego. Acontece que meu avô estava internado, quadro preocupante. Tentando disfarçar meu nervosismo, pedi o café expresso…


Outro dia parei naquela cafeteria perto do trabalho, como de costume. Os funcionários já sabiam que meus dias mais estressantes passariam por ali sempre no fim da tarde. O desgaste mental dessa vez não era por motivo do emprego. Acontece que meu avô estava internado, quadro preocupante. Tentando disfarçar meu nervosismo, pedi o café expresso habitual. Também habitual para mim era observar sem grandes pretensões as conversas ao meu redor enquanto aguardava o pedido. Desta vez, voltei minha atenção para um jovem casal. Os olhares trocados, os sorrisos de canto e o tremular de pernas não deixavam dúvidas: aquele era o dia de seu término.

A conclusão poderia ser outra totalmente diferente pelos sinais. Muitos diriam que era, na verdade, o primeiro encontro de ambos. Aquele momento em que nos permitimos aos poucos nos fazer vulneráveis, ao passo que nos encantamos irresistivelmente pela vulnerabilidade do outro. No entanto, pude ter a certeza de que era o fim de um ciclo justamente por me identificar com um momento do meu passado. Os pensamentos estavam começando a ir mais longe quando fui interrompido pela chegada do meu café. Antes que pudesse encostar meus lábios na bebida, senti meu bolso vibrar. Era uma ligação já esperada do meu pai, certamente para me atualizar da situação do meu avô. Fui para a varanda da cafeteria.

A voz trêmula do outro lado do telefone não indicava coisa boa. O tumor havia feito metástase. Desanimados mas nem tão surpresos, eu e meu pai tentamos mudar o rumo da conversa. Nosso contato já não era mais frequente então era um bom momento para nos atualizarmos um do outro. Entre política, futebol e a própria família, tivemos uma boa conversa e até conseguimos sorrir um pouco. Ao final, quando estávamos discutindo música, acabamos retornando ao meu avô. Era inevitável lembrar dele com esse assunto em pauta. Fora músico de relativo sucesso no interior quando jovem e moldou os ouvidos de filho e neto para a arte. Ali, percebemos que era hora de encerrar o papo.

– Então tá, meu filho. A gente vai se falando, ok? – disse meu pai

– Tudo bem, pai.

– Beijo, filho. Te amo.

– Também te amo, pai. Beijo.

Mesmo sem darmos tchau, encerramos a ligação e voltei para minha mesa. O primeiro gole do café foi também o último. Frio, terrível! Restava voltar ao jovem casal. Dessa vez, meus olhos os encontraram já na porta principal do lugar, onde se abraçavam fortemente. Envolvidos por lágrimas, pude ver que ali ainda existia amor, muito amor. A
gente cresce e percebe que essas coisas não são tão simples. Mesmo quando um casal acaba, os sentimentos não costumam acompanhar a decisão. Era a impressão que eu tinha ali, vendo os dois jovens se afastando enquanto o peso de tantos momentos vividos juntos insistia em permanecer, tão eterno quanto um abraço apertado.

No caminho para casa, seguia refletindo sobre o episódio. Algo me intrigava muito naquela situação. Em meio aos pensamentos, lembrei da música mais popular do meu avô, que sempre embalou as festas da família. Era uma melodia de declaração, feita para a mulher que viria a ser minha avó. A canção era simples, mas minha atenção estava voltada para um verso em específico: “O amor não conhece despedidas”. Acho que pelo costume de escutar desde pequeno, nunca havia reparado ou pensado propriamente naquela letra. Mas depois daquela tarde, depois daquela ligação, daquele casal e daquele café frio, um novo entendimento havia despertado em mim.

Acredito que quando meu avô dizia que o amor não conhece despedidas ele não estava falando sobre relações duradouras, tampouco negando as frustrações amorosas. A única resposta que me parece plausível diz respeito às diferentes fases de um amor. O amor pode ser visto tal qual um elemento. Pense na água, por exemplo: seja líquida, sólida ou gasosa, a água jamais deixa de ser água. Os diferentes estados físicos da matéria se diferenciam de acordo com a organização e agitação das moléculas. Da mesma maneira, cada etapa de um relacionamento é definida pela forma como manifestamos o afeto. Em maior ou menor intensidade, nos gestos convencionais ou em hábitos particulares, o amor é múltiplo, volátil, incerto, mas está sempre ali.

Passei, então, a pensar em situações do cotidiano nas quais amamos através de gestos, ações, palavras. Enquanto fazia isso, ponderava também sobre as despedidas. Cheguei à conclusão de que, de fato, o amor não conhece despedidas. Despedida é fim. Amor é meio. Sempre. Mesmo no caso de um velório, em que temos a última chance de estar fisicamente juntos de um ente querido, não estamos dando adeus. Trata-se apenas de mais uma transformação do amor. Aquele carinho presente nos aniversários, nas conversas e nos abraços se transforma num amor de luto, saudade, memória, legado daquela passagem que segue vivo em nós.

Percebi, inclusive, que não me despedia nas ligações com meus pais e meu irmão. Eles também não se despediam jamais. Era sempre um “te amo” ou “beijos”, nunca um “tchau” ou “até mais”. Passei a levar esse costume aonde quer que eu fosse, não só nas chamadas telefônicas. A empolgação foi tamanha que alguns dias depois estava novamente na cafeteria onde tudo começou, dessa vez compartilhando a reflexão com um amigo próximo.

Dali a pouco ele teve de ir embora. Eu estava quase a ponto de sair também quando uma mulher que estava na mesa ao lado me abordou. Ela confessou que não conseguiu evitar de ouvir minha conversa e queria debater um pouco sobre o assunto. Não tinha outros planos então aceitei prontamente. Com certeza foi uma das minhas melhores decisões. O papo fluiu como um riacho, ora calmo, ora voraz, e o ritmo de meu coração parecia a mais imprevisível das melodias. Conversamos sobre tudo e mal acreditamos quando a cafeteria começou a fechar. De repente, o celular toca. Era meu pai, lembrando que era minha vez de passar a noite com vovô no hospital. Precisaria deixar o resto da conversa para depois.

– Preciso sair agora – avisei constrangido -. Olha, me desculpa! De verdade,
eu…

– Não se preocupa! Você avisou do seu avô. Melhoras pra ele, viu?

– Obrigado! Vou indo, então… – e caminhei em direção à saída acenando

– Tchau!

Já estava de costas quando escutei. “Tchau”. A tal da palavra das despedidas. Quando ouvi aquilo, meu corpo congelou por um instante. Tinha algo de errado. Algo de muito errado. Antes que tivesse a chance de pensar no que fosse, meu corpo agiu por instinto: dei meia-volta, apressei meus passos em direção a ela e, naquele segundo tão efêmero e tão infinito em que estávamos cara a cara, o ato de renúncia às despedidas: beijei-a com toda a convicção de meu ser firmada em meus lábios. Ela retribuiu o gesto e só então pude sair dali, sem que trocássemos mais qualquer palavra. Antes, ela rabiscou seu número num guardanapo, nós dois em total silêncio. Peguei o papel e fui em direção ao hospital.

Chegando no leito do meu avô, precisava contar as recentes descobertas para ele. Não que ele não já soubesse de tudo aquilo. Muitos e muitos anos antes ele não só havia compreendido o amor, como o traduziu em música, poesia, declaração que deu raiz à nossa família. Ainda assim, queria conversar com ele. Mas decidi começar contando uma história:

– Vovô, lembra daquela sua música que a gente sempre canta nos aniversários?

– Lembro, sim. O que tem ela?

– É só que eu amo essa música. E amo o senhor, também! Hoje eu conheci uma
pessoa muito legal e descobri uma coisa: o amor não tem despedidas, mas com
certeza tem começos…

Por: Leonardo Alves

Uma resposta para “O amor não conhece despedidas”.

  1. Avatar de William Moraes Corrêa
    William Moraes Corrêa

    Gente, que obra-prima! Simplesmente mágico e fantástico. E veio na hora certa. Muito obrigado!

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