
Estive, em princípio, tomado pela dúvida entre escrever um perfil ou relatar apenas a minha relação com a obra do Caetano. A primeira opção me pareceu por demais sisuda, ao passo que a segunda alternativa incorre em acertar no estereótipo indigesto – por mim, ao menos – do alternativo fã de um Caetano Veloso cósmico.
Pode parecer mordaz a expressão acima, embora hajam razões claras para que eu a utilize. Um texto de certa projeção, publicado no início deste ano, na revista Piauí, com título que me foge à memória – e este espaço é, antes de tudo, um blog, portanto prescindirei da formalidade jornalística – sugere que, no espaço de tempo entre a reeleição de Dilma Rousseff e o os primeiros meses de mandato do infame Jair, fatia considerável de uma esquerda urbana, predominantemente de classe média alta, assumiu para si um Caetano totêmico, em cujas manifestações públicas seria possível encontrar propriedades de sabedoria quase divinas.
Tendo vivido a década passada com intensidade, posso entender: Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, nascido em 07 de agosto de 1942, perfilou gerações, desde a sua estreia na música, no fim dos anos 1960, como um prototípico singer–songwriter de seu tempo, além de um opinador venerado.
Músico, mas não só. Emissor de opiniões contundentes, também. De ação política em termos estéticos, com cabelos inusualmente compridos e vestimentas com sugestiva ambiguidade; afirmado-se, mais ainda, por meio do exercício sem tutelas da própria sexualidade e da relação desapegada, embora não indiferente, com substâncias expansoras da consciência.
Caetano, em seu início, era menos parnasiano que Chico Buarque e Edu Lobo; audaz o bastante para reconhecer desde o princípio – em meio aos comentários de desdém entre parte dos setores mais rigorosos da MPB – a grandeza de Roberto e Erasmo Carlos; e, insatisfeito, juntou-se a Gil para desinventar todas as formalizações de estilos musicais, protagonizando, pois, com o seu irmão siamês musical, a Tropicália.
Todas estas informações gabaritaram Veloso como um artista com funções além do mero canto.
A figura do intelectual público, já notória a partir dos anos 1970, se intensificou nas três décadas seguintes, de modo que este Caetano – cuja aura parece enamorar a toda esta ala à esquerda, mencionada por mim, com base no texto jornalístico a que referenciei –, é justificada, embora túrbida a ponto de causar certo constrangimento.
E o incômodo existe porque a música do Caetano, desde a última década, tem me parecido acessória. Entre menções ingênuas, e, quase exclusivamente no campo da performance, ao disco Transa, além dos covers supramencionados – e já exauridos – de Sonhos, Sozinho e Você Não me Ensinou a te Esquecer, resta escanteada uma obra interessante, provocativa e moderna.
Lembro, de cara, da entrevista do artista baiano ao Roda Viva, no fim de 2021, por ocasião do lançamento de seu último disco, Meu Coco. Em pauta, as vindouras eleições, o governo de então, as crises da última hora e vagas – para não dizer pouquíssimas – menções ao aspecto, pasmem, musical do trabalho recém-lançado. A mim me incomodou não ser conferenciado o músico de tino sabidamente brilhante, mas, sim, a efígie mítica, sem a razão que o fez sê-lo – se o é, de fato: a música.
Eu não sou fiscal dos fãs, ou não fãs, ou quase fãs do Caetano; já está, também, registrada por mim a intolerável sacralização de seu papel como pensador de ocasião.
Caetano, desde o contexto em que foi apelidado de forma maledicente pelo ensaísta e literato José Guilherme Merquior como pseudointelectual de miolo mole, não desautorizou a alcunha ácida, utilizando-a para si em diversas entrevistas, de modo a demonstrar seu relaxamento quanto às opiniões que manifestava, considerando-as expressões de um pensamento capaz de esboçar caminhos até luminosos, sem nunca chegar, no entanto, de forma eficiente, ao chão dos assuntos.
Não o levando a sério com ingênua e demasiada veneração, me deixo cativar pelo compositor dylanesco, com letras extensas e excitantes. Chamá-las por crônicas, em verdade, seria exagero, pois estas canções de Caetano a que me refiro – a saber, Oração ao Tempo, Língua e O Estrangeiro – vêm com o aspecto de sua maneira de escrever que mais gosto, permeada por colagens de frases, versos de outras músicas e, mesmo, harmonias e melodias igualmente referenciadas.
O autor das marchinhas irresistíveis, Chuva, Suor e Cerveja e A Filha da Chiquita Bacana; o poeta de O Ciúme, Trem das Cores, Lindeza e Força Estranha; dono das canções de amor graciosas, e às vezes difusas, tais como Deusa Urbana, Quando o Galo Cantou, Ciclâmen do Líbano, Minha Mulher.
E, claro, o autor de Genipapo Absoluto, música preferida de meu pai.
Para este Caetano, todas as loas.
Por: Juliano Amorim





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