
Clara Madeira: musicista, cantora, compositora, multi-instrumentista, professora. Nadadora por prazer; desportista quando a saúde envia os seus recados. Odeia imprevistos, coisa que me certifiquei tão logo – e, por nossa amizade, já intuía – para que fosse possível torná-la a primeira entrevistada da Sociedade do Copo. Uma questão de honra, digo, pela admiração que todos os escribas, cá destas bandas, têm por seu canto, e não só.
A artista é musa, de exatos 1,69. Porte absoluto, cabelos acastanhados, quase louros, cacheados, além de um par de olhos muito expressivos. Veste-se tranquilamente, despojada. Não disfarça eventuais incômodos: estes lhe sobressaltam a face, imediatamente. Sua voz é quente e segura. Precisa sê-lo, para fazer Ana Clara, a moça de gosto pelo singelo, em Clara Madeira, a senhora de um dos trabalhos mais luminosos em música, nesta geração.
Decididamente estelar. Ah, ela também odeia dar entrevistas.
Quero começar fazendo perguntas triviais: qual foi o seu último café da manhã?
CM: Não tenho tomado café da manhã nos últimos dias, mas acho que o universo sabia que eu receberia essa pergunta hoje, então, por algum motivo cósmico, eu tomei café da manhã hoje. Foi o café preto com açúcar, e um pão com requeijão e queijo mussarela, um clássico.
Como vai o Zed (cão de estimação da cantora)?
CM: Cada dia mais dengoso. Ele tá ficando velho também, o que tá me preocupando… Tá com uma barbinha branca já, mas a energia caótica continua a mesma. Somos muito apegados, ele é minha companhia ideal: não sabe falar, mas fica muito feliz quando me vê e eu entendo tudo o que ele quer.
No perfil, ficou demonstrado que você tem um lado desportista. Sei também que contato com a natureza te interessa. Qual a sua relação, então, com esses elementos naturais?
CM: Eu me cobro muito pra manter a rotina de exercícios, mas se dá certo ou não isso já é uma outra história. Na verdade, eu sou apaixonada por natação. Comecei a praticar em 2018, quando descobri um problema de coluna e tô até hoje praticando firme e forte porque comecei a amar, e adoro também a sensação de estar debaixo da água várias vezes seguidas, me sinto num “céu” diferente. Natação trabalha respiração, o que me auxilia bastante na parte do canto e ansiedade. Esse ano também comecei a fazer academia por conta de alguns problemas de saúde. O esporte protagoniza minha vida quando a saúde se mostra meio complexa, sempre foi assim. Acho que tá sendo assim pra maioria das pessoas que conheço.
Comparação é uma coisa que te incomoda? Como você lida, caso se sinta mal com isso?
CM: Eu acho que comparações são normais, então acho que eu lido bem. Não me sinto mal, porque nunca me compararam a algo ou alguém que não gostei. Um dia me compraram com a Gal Costa, como não vou gostar?! Mas brincadeiras à parte, eu me inspiro em várias cantoras e personalidades, então acho que tá tudo bem, e que comparações não tiram o mérito da minha singularidade como pessoa, e como artista.
Como você lida com as críticas?
CM: Só dou importância pra críticas de quem me conhece ou de quem entende do que tá falando. O resto serve pra gente dar umas risadas mesmo.
RELACIONAMENTO
Já vivenciou um amor que contrastava com sua personalidade artística? Como essa diferença influenciou o relacionamento?
CM: Acho que não. Tudo o que vivi até hoje foi compatível com minha personalidade artística. Essas relações influenciam diretamente meu olhar artístico. Eu me considero uma pessoa muito inspirada. Se eu estiver apaixonada, escrevo uma música inteira sobre o jeito que a pessoa respira. Acontece.
Como você lida com a espontaneidade e os imprevistos em um relacionamento? Acredita que a música pode ajudar a superar desafios amorosos?
CM: Confesso que tenho muita dificuldade de lidar com imprevistos, mesmo quando pareço estar “de boa”, nesse tipo de situação não sou tão prática. Eu penso muito em tudo, eu deposito muitos significados em cada detalhe das ações que pratico e que recebo, então, quando algo não sai como eu esperava, acabo me frustrando sim. Tento lidar da melhor forma, mas não posso negar que não sou assim. Gosto de estabilidade, rotina me agrada, sou a favor da espontaneidade e de viver em paz. Sou uma pessoa simples. Mas sobre a música… Eu não acho que ela tenha tanto poder de ajudar desafios amorosos dentro de um relacionamento, mas dentro de mim, dentro de nós que a consumimos. Quando escrevo sobre algo que me atinge, a obra me faz enxergar melhor o que eu tô sentindo e isso me ajuda a tomar decisões a respeito dos próximos passos que preciso trilhar. Tem também músicas que escuto e penso “cara, eu queria muito ter escrito essa música!”.
E o amor, hoje? Como você está encarando? Amigos de sociedade do copo têm uma admiração enorme por você
CM: Estou amando. Encarando o amor como nunca encarei: calma, tranquila e sem medo de me entregar. E estou escrevendo muito sobre isso. Posso dizer que, no momento, as belezas em mim que antes estavam adormecidas se acenderam, de um jeito que nem eu consigo lidar, então só vivo mesmo e vou sentindo. Um dia, quando eu me reunir no botequim com a sociedade do copo, eu posso puxar o violão e me debruçar sobre o assunto com vocês.

Foto: Gabriel Jansen.
MÚSICA
Qual a música mais estranha que você já compôs ou cantou?
CM: Sei que com essa resposta vou atingir um pessoal que não queria, mas “Lenha” do [Zeca] Baleiro é uma das músicas mais estranhas que já pediram pra eu cantar. Desculpa Zeca e Lenha lovers.
Tem alguma indicação de artista que esteja fazendo a tua cabeça no momento?
CM: Tô ouvindo muito a Clarissa, todas as músicas, álbuns, EP’s… não sabia que poderia ficar tão viciada assim. Sempre estou viciada na Carol Biazin. Viciei também em algumas do “The Tortured Poets Department” da Taylor. Cada vez meu gosto musical tem assumido mais a “mulherzinha” que eu sou. I’m just a girl.
Gostou do Batidão Tropical 2 (álbum mais recente da cantora Pabllo Vittar)?
CM: Eu amei! E por sorte pude assistir algumas faixas cantadas ao vivo no São João. Sou muito fã da Pabllo.
Se você pudesse não ser um artista, qual seria?
CM: Luisa Sonza. Eu adoro ela, mas a garota sofre demais. Sempre penso que não aguentaria metade do hate que ela leva.
Qual a música que você mais gosta de cantar no karaokê?
CM: “Me adora”, da Pitty.
Como você vislumbra o seu som nos próximos anos?
CM: Espero que esteja bem diversificado. Quero poder lançar todo tipo de música, já que componho todos os estilos musicais. Mas, no todo, espero ter conseguido contar minha história.
Faria a trilha sonora de algum filme? Se sim, qual?
CM: Barbie, que lançou ano passado. Adoraria poder escolher as músicas desse filme.
Como você começou a cantar e compor?
CM: Eu não lembro de um dia que não estive cantando na minha vida, então não sei como começou. Desde criança, cantava no meu microfone de brinquedo bem mais do que brincava de boneca. Mas a primeira música que eu compus foi quando eu tinha 14 anos, se chamava “Tradução”, e eu usei os primeiros acordes que aprendi: D, Em e A. Depois disso não parei mais, última vez que listei já tava dando 240 músicas por aí.
Você acha que seu estilo musical mudou ao longo do tempo? Quais foram as principais influências para essa evolução?
CM: Eu tenho a impressão de que só fui criando uma pilha de estéticas musicais dentro de mim, não que mudou, sabe?! Mas, no começo eu tinha uma ânsia maior de impressionar, então, meu repertório passeava mais ali pela Bossa, Tropicália, Sambas, essas coisas, apesar do fone de ouvido estar tocando Demi Lovato, Miley Cyrus, Anitta, etc. Mas teve uma hora que cansei de negar que eu gosto de tudo. Se você parar pra observar tudo é muito interessante sim. Tudo o que eu gosto me influencia.
Hoje as minhas músicas assumem uma roupagem mais livre, sem querer mais impressionar tanto como antes, mas busco me satisfazer com minhas criações e acho que isso torna as minhas músicas muito mais sinceras e compatíveis com as pessoas e seus sentimentos. Não quero só parecer que entendo muito de música, ou que posso dominar muitos aspectos musicais (antes meio que era assim), eu quero mesmo é ser feliz com minha música e espero que as pessoas possam se identificar quando eu estiver transmitindo isso pra elas.
Você adora ser multi-instrumentista. Toparia a empreitada de, um dia, fazer um single ou disco tocando todos os instrumentos? Te agrada essa ideia?
CM: Eu faria, mas tenho certeza que acharia chatinho. Acho que a graça está justamente em realizar as coisas em conjunto com os outros. Gosto de ouvir a opinião de quem entende mais de Bateria do que eu, por exemplo. Fico fascinada em poder juntar meu arcabouço criativo com o de outra pessoa, ou outras pessoas e observar no que isso pode dar, e geralmente resulta em coisa boa, e certas coisas não seriam tão boas se eu assumisse tudo sozinha sempre.
Clara Madeira quer estar onde, artisticamente, daqui a 10 anos?
CM: Espero que eu tenha lançado alguns álbuns, colaborado com artistas que admiro, que eu tenha feito alguns bons shows, mas o que mais quero é ser valorizada como compositora, moral e financeiramente. Então, daqui uns anos espero estar nesse lugar.
PROVOCAÇÕES
Um recado pra quem não paga o couvert
CM: Meu pix é madeiraclara5@gmail.com, ainda dá tempo de mandar, viu?! Não quero brigar, só quero dinheiro pra comprar meu creme de cabelo que acabou essa semana… olha que coincidência.
Mas, falando sério, se você não for pagar o couvert, não faz pedido de nenhuma música, ô abençoado!!!!! Geralmente essas malas que atrapalham minhas apresentações, chamam atenção e passam vergonha. São as mesmas malas que não pagam aqueles 10 reais.
Um recado para quem dá calote em artista
CM: Espero que um dia você não esteja se afogando e eu seja a única pessoa do mundo que esteja por perto. Eu sei nadar, mas não vou te socorrer… Brincadeira! Mas me paga aí, vai! Ou, então, para de discursar que tu apoia a arte e o artista, porque é mentira, fuleirx.
Algo que você contraindique, seja lá o que for
CM: Poligamia, não-monogamia, relacionamento aberto e qualquer coisa que se pareça com essas atrocidades.
INDICO/CONTRAINDICO
INDICO: BUTIQUIM DO CARLOS
CONTRAINDICO: CACHAÇARIA PUNGADA
Por: Juliano Amorim





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