
Conversa despreocupada em mesa de bar. Sejamos francos: date. Papo vem, papo vai, pergunta-se sobre futuro, emprego, viagem, ex-paixões. Lá pelas tantas, eu, que não dispenso a possibilidade de eventualmente assumir o controle de alguma caixa de som cujo Bluetooth esteja disponível, lancei aqui e ali músicas que pudessem agradá-la – claro, sou cortês, embora não se tratasse única e exclusivamente de sê-lo.
Samba. Ela adora samba. E foram tantos… Optei por mesclar gestos de gentileza com coisinhas no meu repeat musical. Preciso me lançar, também. E quase incorri na hipótese – um tanto inadequada – de colocar Beatles, o que descartei, para não personalizar a ocasião que requereria de nós mutualidade de ideias. Sincronia. E… É, ele não gosta tanto de Beatles.
Mas que surpresa! O algoritmo lançou sobre nós “Paisagem da Janela”, numa hora em que víamo-nos desconcertados sob a embriaguez, incertos de avançar ou não para um beijo sem qualquer cerimônia, justo na ocasião de um encontro casual, onde todo o contexto é definitivo.
Ela cantou, eu cantei. Não resisti à possibilidade de mostrar que sabia – a partir dos primeiros segundos – de que música se tratava, emulando a frase de guitarra que dá início à faixa. Logo, só deu Clube. O disco, hoje, é a maior unanimidade da minha geração. Disclaimer: falo de um recorte de classe média cronicamente online, a fim de música brasileira.
E com todos os méritos: a capa exuberante, as faixas não óbvias, com letras que desafiam formulações reducionistas do que seja a canção pop. Cavalos marginais, o anel de Zapata, pensamentos à semelhança de cores de vestidos e bocas da noite com gosto de sol.
Não, não é nonsense. É poesia personalíssima.
Ronaldo Bastos, Márcio Borges e Fernando Brant assinam as letras das melodias de Milton e Lô, cujas referências, irmanadas, evocam bossa nova, o jazz, a música tradicional mineira e o rock britânico, como que numa festa no apartamento da família Borges, no Edifício Levy, em Belo Horizonte, onde nós, ouvintes, somos os convidados de primeira grandeza – e sorte.
Toninho Horta, o multi-instrumentista, transfigura a veia jazzística de Milton; diálogo que, por sua vez, encontra em Beto Guedes o elo entre o rock progressivo, o folk e o hard rock do Led Zeppelin, adorado por Lô. Mas não quero agora discutir termos técnicos, frases musicais superlativas, referências. Essas são informações fartamente catalogadas, disponíveis em canais de mídia diversos, comentadas por entendedores bem mais experimentados do que este a escrever aqui.
Quero falar da minha relação com o Clube da Esquina. Do espanto que tive ao descobrir, no já decenário ano da graça de 2014, que algumas das músicas esparsas ouvidas por mim no rádio, durante uma infecção por catapora, eram de um mesmo álbum. Aquilo me alucinou. E não se tratava apenas de um álbum simplório; era justo aquele com a capa que eu – àquela época – elegi a mais bonita. Hoje, discordo. Tamanho deslumbramento, porém, jamais me abandonou.
E não só a catapora me fez alheio ao convívio coletivo, por alguns dias. Há anos, sentir-se abstraído era impressão corrente, ora compreensível – dada a retração comum de um adolescente sob julgo de suas incertezas –, ora um indicativo da baixa autoestima e do preconceito responsáveis por eu não tolerar a mim mesmo naqueles idos.
Então, Clube da Esquina foi o companheiro ideal. O adolescente estranho que fui poderia orgulhar-se mais que nunca da sua estranheza, ouvindo um disco setentista, “complicado”. Sim, como quase todos os adolescentes, eu era pretensioso.
Sabê-lo de cor era dar a mim mesmo uma identidade, numa fase em que a própria identidade é espargida em solo a se avigorar. Evidente que o disco não era a afirmação – ou a reafirmação – de uma estranheza latente. Era, também, a descoberta de um jeito novo de gostar de música.
Quando do último dia de aula do primeiro ano, procurei saltar do ônibus mais cedo, maquinando uma ideia: correr até em casa ouvindo O Trem Azul. O fiz. O beatlemaníaco em mim não poderia fazê-lo sem se imaginar como na abertura de um A Hard Days Night sem cores, coisa que não resisti, exultante. Eu, com meu disco a tocar, ali, via a luz por sobre todas as coisas.
Sem digressões, voltemos ao date, caro leitor. Tudo o que disse aqui – despendendo bem menos tempo – foi contado a ela, que, imagino, gostou de saber que eu andava por aí, correndo no meio da rua, sob um sol lancinante, fingindo estar em um filme de uma banda que ela não gosta.
Emendando a conversa sobre o Clube, falamos sobre o ótimo documentário “Nada Será Como Antes”, dedicado ao movimento, a exibição deste no Cine Lume e na Estação Net Botafogo, a amiga dela que quer ir pra São Paulo, até que – ufa!- nos beijamos. Com muito contexto, dessa vez. E eu me senti como se corresse de novo ouvindo O Trem Azul.
Não me canso de voar.
POR: Juliano Amorim





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