
No artigo “O Grande Mentiroso’’, a historiadora Janaina Amado faz reflexões muito pontuais sobre inverdades cometidas por entrevistados em pesquisas que se valem da história oral como método de averiguação. O texto relata o caso de Fernandes, um dos camponeses integrantes do conflito de Formoso, movimento de resistência contra a grilagem no norte de Goiás nos anos 50. A professora elege o lavrador como uma das fontes prioritárias do seu trabalho devido à desenvoltura apresentada por ele ao relatar supostos episódios relacionados à mobilização.
Com o decorrer da pesquisa, a historiadora constata que as informações fornecidas por Fernandes, na verdade, constituem uma junção de fatos com narrativas ficcionais, inspiradas sobretudo em Dom Quixote, clássico do espanhol Miguel de Cervantes difundido na região. Inicialmente, a reação da pesquisadora foi de descontentamento, sentimento modificado após a observação dos valores presentes no testemunho do camponês: a autonomia da interpretação, a originalidade na forma como combinou memória e imaginação e a capacidade de aglutinar pessoas a partir da contação de histórias. Amado, então, conclui: “longe de ser um grande mentiroso, Fernandes verbalizara, em seu depoimento, eventos, imagens, símbolos, raciocínios e sentimentos profundamente enraizados na memória coletiva de sua região e grupo social de origem.”
Antes que o apressado leitor faça cara feia com essa conversa toda baseada em artigo científico, esclareço: este não é um texto acadêmico, por mais que as preocupações com o mestrado estejam colonizando a minha mente, para usar uma expressão que Rosi adora. Ocorre que, coincidentemente, a leitura da obra de Amado — feita por recomendação da minha orientadora, a professora Carolina Martins — é realizada em um momento da minha vida em que a mentira tem tido certo protagonismo.
Aliás, por ela sempre tive um pequeno fascínio e, ao contrário dos que podem enxergar nisso uma contradição com a minha profissão de jornalista, defendo: muitas vezes, mas muitas mesmo, o modo como se narra algo é tão importante e revelador quanto o conteúdo em si. Essa maravilha chamada narrativa faz com que o mesmo acontecimento seja percebido de formas distintas, de modo que verdade e mentira dificilmente podem ser vistas de maneira cartesiana. Contudo, se for para insistir na dicotomia, eu quero estar na trincheira da mentira, que é muito mais bonita e maleável do que a verdade — que se basta.
Do lado da mentira também estão a poesia, o conto, o romance. Foi Valter Hugo Mãe quem disse — em palestra realizada juntamente com o autor Ignácio de Loyola Brandão na última terça-feira (7), em São Luís — que “o escritor é um mentiroso”, para rapidamente se corrigir dizendo: “escritor não mente, escritor ficciona’’.
Sei, no entanto, que essa percepção quase romântica não goza de muita aceitação. A mentira é geralmente reprimida, tolhida, cerceada. Para a criança que diz ter visto um disco voador, logo respondemos “deixa de mentira’’. Os menos acostumados com a ficção, ao assistirem a um filme repleto de cenas explosivas, menosprezam: “isso aí é tudo mentira’’. Um bom fabulador muitas vezes já ouviu que “isso é tudo fruto da tua imaginação’’.
Por sinal, foi um desses grandes contadores de histórias um dos principais motivadores para estas mal traçadas. Conheci a figura há poucos dias e fiquei encantado com a destreza com que conta causos, piadas e acontecimentos. Os que insistem em fazer a tal distinção entre o factual e o inventado sofrem ao ouvi-lo, já que a vida do personagem é repleta de episódios espetaculares; consequentemente, quando o interlocutor ouve alguma inverdade, se põe em dúvida sobre aquilo ter de fato ocorrido. Estão na mesma cesta de relatos uma convivência factual com Luiz Gonzaga, Elza Soares e Dominguinhos e um parentesco duvidoso com um irmão que teria tido mais de 40 filhos.
Agora veja como se sustenta a minha tese de que a mentira sofre de má reputação. Ontem, ao falar com Gustavo Belan sobre essa figura, ele se recordou que, em um desses encontros etílicos, nosso personagem estava faceiro, emendando um causo no outro. Aparentemente, Belan classificou em voz alta algumas dessas histórias como mentira. Não caiu bem. Ofendida, a personalidade pede uma conversa em particular e questiona: “Belan, por que você fica dizendo que eu conto mentira?’’





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