
Por Leonardo Alves
O acirramento das tensões geopolíticas em todo o planeta provoca fenômenos que protagonizam os principais debates sociais do século. Entre os temas mais em voga na contemporaneidade podemos colocar a crise migratória, questão cada vez mais central em meio a crises generalizadas que forçam populações a abandonarem suas terras de origem em busca de vidas melhores, ao passo que, em boa parte dos casos, os destinos são cada vez mais fechados e opressivos com o ingresso de forasteiros.
Outra situação comum aos tempos difíceis é a perturbação do sujeito, seja pensando nessa subjetividade enquanto característica individual ou de uma coletividade. Fato é que comum a ambos os casos está a provocação à reflexão, à busca por conhecimento e à construção de estratégias para se lidar com a realidade.
Nesse contexto, mora na filosofia o principal instrumento de Yúnuss Jalilo, jovem moçambicano que mora sozinho no Brasil há pouco mais de um ano. Em São Paulo, o estudante de Biomedicina esperava cumprir com os compromissos acadêmicos para concretizar um desejo antigo. Discreto, não é de agitações ou grandes movimentos que não os de rotina, mas dentro da própria casa acabou construindo algo grandioso. Com apenas 19 anos, chama a atenção de milhares de pessoas nas redes sociais com vídeos que abordam assuntos, no mínimo, distintos da natureza de sua área de estudo.
Filosofia, Política e Sociologia são algumas das searas nas quais os vídeos de nosso convidado se debruçam, em uma combinação de vasto conhecimento teórico e olhar atento para as principais discussões da atualidade. Nesta entrevista, exploramos o processo de adaptação ao novo país, as responsabilidades diante do tamanho adquirido na internet, as comparações entre Brasil e Moçambique e muito mais da vida do nobre Yúnuss Jalilo.
Leonardo Alves:
Yúnuss, começando do começo, você é de Moçambique e atualmente estuda Biomedicina em São Paulo. Eu queria entender como foi esse processo de migração para o Brasil. Desde o desejo de vir para cá, morar aqui e estudar, até a chegada e essa adaptação inicial a um país novo. Como é que foi para ti isso?
Yúnuss Jalilo:
Bom, eu nasci em Moçambique, tenho 19 anos, e o meu desejo de vir ao Brasil começou primeiro com a vontade de fazer Neurociência. Na verdade, eu sempre quis fazer Neurociência, sempre foi o meu desejo, desde criança, desde a adolescência, desde o ensino médio, até porque eu acompanhava muitos conteúdos de neurocientistas brasileiros.
Tem, por exemplo, o Pedro Calabrez, que foi a minha maior inspiração nessa área de Neurociência. E aí eu fui estudar isso, acho que em 2022, 2023… Em 2023 foi quando eu terminei o ensino médio, aos 17 anos, e depois, em 2024, eu fiz ali um curso, cheguei a fazer faculdade de Medicina Geral. No entanto, tive que parar, porque, enquanto fazia a faculdade de Medicina Geral em 2024, eu também estava procurando bolsa de estudo para estudar aqui no Brasil, porque existe uma relação educacional entre o Brasil e Moçambique e alguns outros países também lusófonos, ou seja, países que falam português. E nessa relação existem algumas instituições ou programas que dão bolsas para alunos bem-sucedidos no ensino médio africano, ou de outros países lusófonos dentro da África.
Então foi nisso que eu encontrei um programa chamado PEC-G, o Programa de Estudantes-Convênio de Graduação. Me candidatei. Como eu tinha me esquecido — não sei como eu me esqueci — acabei não colocando na candidatura que queria fazer Neurociência. Coloquei Biomedicina. Mas enfim, foi isso, coloquei Biomedicina e fui aprovado para a bolsa, isso ainda em 2024.
No dia 24 de janeiro de 2025 eu vim para cá, para fazer o meu curso, a minha graduação em Biomedicina no Centro Universitário São Camilo. E foi assim.
Leonardo Alves:
E sobre esse interesse, inclusive, são duas áreas da saúde, né? Apesar disso, os teus vídeos geralmente têm uma abordagem mais histórica, filosófica e sociológica. E eu queria entender por que esse interesse particular pela Biomedicina, ou pela Neurociência, como você diz, e se não existia o mesmo desejo, por exemplo, de cursar algo da área de Humanas, talvez algo para ser professor, algo nesse sentido.
Yúnuss Jalilo:
Eu nunca tive interesse em cursar Ciências Humanas, Ciências Sociais, Filosofia, História, algo do gênero, nunca tive. Mas são áreas pelas quais eu sempre tive apreço, sempre gostei, sempre achei interessante estudar. Só que nunca me passou pela mente cursar para trabalhar com isso, nunca.
Agora é que eu estou pensando nisso, porque eu não sabia que teria essa explosão que hoje eu tenho com Filosofia, História, Sociologia e por aí vai, que são ciências que eu uso nas minhas redes. Eu não sabia que isso ia acontecer. E agora é que estou pensando em consolidar-me nessa área, ter um pouco mais de autoridade, porque, querendo ou não, o diploma acaba nos dando essa autoridade para podermos falar e também trabalharmos.
No entanto, nunca me passou pela mente fazer um curso de Ciências Sociais ou algo do gênero. Sempre foi mesmo Biologia ou algo relacionado à Biologia.
Leonardo Alves:
Entrando um pouco nos vídeos que você mencionou agora há pouco. A maior parte do teu público e conteúdo a que tu reages é brasileira. Eu queria saber se isso te faz sentir, de algum modo, “menos estrangeiro” por aqui. E qual seria a sua maior dificuldade enquanto moçambicano vivendo no Brasil? Como é essa tua adaptação desde a tua chegada até agora?
Yúnuss Jalilo:
A minha adaptação está sendo boa, até porque eu não sou muito de sair de casa. Então, provavelmente, a minha análise pode ser um pouco equivocada ou precipitada, porque eu não conheço bastante de São Paulo, do Brasil, muito na questão social, experimental. Ou seja, não tenho experiência empírica, de fato, para dizer como é que é a sociedade brasileira, porque eu não sou muito de sair de casa. Eu somente vou para a faculdade e volto, faço meus vídeos, leio e coisas do gênero.
A adaptação tem sido boa. Contudo, existem alguns tipos de intempéries que eu acabo encontrando, ou que encontrei ao longo dessa minha trajetória, a exemplo do racismo. Você vê, por exemplo, pessoas te estranhando na rua por ser preto. Hoje, por exemplo, como eu moro aqui num condomínio, eu fiz uma encomenda pela Amazon. Só que, como eu não estava em casa, a encomenda foi entregue a um vizinho. E eu fui à casa de uma vizinha, toquei a campainha e tudo mais.
Quando ela veio me atender, eu perguntei se conhecia alguém chamado José, porque na informação dizia que José tinha recebido a minha encomenda. E ela, antes de me responder, perguntou como é que eu tinha entrado lá no condomínio. Cara, eu moro bem aqui. A minha casa está aqui, em frente à casa dela. E ela simplesmente perguntou isso: como é que você veio parar aqui nesse condomínio? Mas eu fiquei relaxado, respondi normalmente, fiz como se não tivesse percebido que aquilo é apenas um traço mesmo do racismo.
Mas deixei, porque eu não me preocupo muito. No entanto, a experiência tem sido boa, até porque não é toda gente que acaba tendo esse preconceito ou que me odeia. Na verdade, tem muita gente que me ama. Por vezes sou reconhecido nas ruas, as pessoas me cumprimentam e tudo mais. E a experiência tem sido essa: interessante, curiosa, com algumas coisas não tão agradáveis, mas que culminam numa vivência que vai agregar algo na minha vida.
Leonardo Alves:
Inclusive isso entra um pouco na próxima pergunta, que é sobre essas diferenças que tu sentes, sobretudo nessa vivência cotidiana, entre os dois países, entre Moçambique e Brasil. Porque a gente sabe que existem muitas proximidades, mas, além do idioma, que outras proximidades significativas há entre os países? E quais as diferenças que você enxerga e sente mais predominantemente também?

Yúnuss Jalilo:
Nas proximidades eu toco muito na questão cultural, mas melhor especificando, seria na cultura mais nordestina e do Norte do Brasil, com Moçambique. Ou seja, há bastante música, há bastante poesia, há bastante rap dentro da música, da arte musical, há dança… Então, nessas semelhanças que existem entre Moçambique e o Brasil, foca-se muito na questão musical, dança, poesia, religiosidade, que também há muito dessa religiosidade, por exemplo, aqui no Brasil, das religiões africanas. Existe muito essa proximidade.
E a outra seria também histórica, porque é aquilo que Frantz Fanon diria no seu livro Os Condenados da Terra: que possuímos uma história patológica. Ou seja, Brasil e Moçambique foram colonizados pelo mesmo país, que acabou influenciando não somente na nossa cultura, mas também na nossa subjetividade, na forma como nós pensamos, na forma como nós olhamos o mundo e na forma como nós interpretamos o mundo. Então, a semelhança seria exatamente nesses dois aspectos: histórico e cultural.
Bom, as diferenças são na questão, digamos, política, institucional e um pouco social.
Por quê? Na questão da sociedade e institucional, em Moçambique não existe racismo estrutural. No Brasil, é aquilo que falam o Silvio Almeida e o Darcy Ribeiro, quando dizem que o Brasil produz riqueza, mas não produz igualdade social para todos. É uma crítica que ele faz, uma crítica muito boa. Então, na questão institucional e social, existe esse racismo estrutural aqui no Brasil que, infelizmente, acaba desprivilegiando aquela sociedade ou aquele povo que já foi oprimido durante anos, que passou pela colonização. Falo aqui do povo negro.
E em Moçambique existe algo bem parecido a isso, que seriam sintomas de um colonialismo que ainda não acabou. Por exemplo, existe uma dependência econômica muito grande de países estrangeiros. Tudo nós dependemos dos outros: tecnologia dependemos da China, quanto à questão da saúde dependemos dos Estados Unidos. Por isso que, muitas vezes, quando nos posicionamos geopoliticamente, tendemos a ter uma posição neutra, muitas vezes para não desagradar um lado ou outro, o que é muito ruim.
Existe também uma ditadura interna. Não dá somente para culpar o imperialismo dos Estados Unidos ou a colonização que ainda acontece pela Europa. Também existe um problema muito grande dentro da política interna. Em Moçambique existe um partido que está a governar desde a independência, desde que Moçambique se tornou independente da colonização portuguesa, em 1975. Até hoje é o mesmo partido político no poder. Nunca houve outro que chegou a governar, nem a cogitar governar, porque todas as vezes em que se manifestavam, infelizmente acabavam usando recursos bárbaros para oprimir o povo, como uma forma de silenciar essa voz. Então, infelizmente, existe isso.
Institucional também, na questão educacional, eu acho que até pode existir uma certa semelhança. As escolas públicas de Moçambique são extremamente ruins. Aqui no Brasil também já vi alguns casos, no entanto não são todos, mas existem sim situações em que as infraestruturas estão muito precárias, muito degradadas, totalmente decaídas, o mesmo que acontece em Moçambique. Professores que também não são bem assalariados, não recebem muito, isso existe tanto em Moçambique quanto aqui no Brasil.
Existe também, na questão da sociedade, nesse âmbito mais social, não apenas na questão do racismo, muita misoginia, muito machismo. Em Moçambique acho que se compartilha muito disso. Brasil e Moçambique são dois países sustentados por um sistema patriarcal que infelizmente acaba oprimindo as mulheres.
Só que, pelo menos no Brasil, existem algumas leis. Nesse âmbito há um progresso, não tão grande como gostaríamos, mas existem instrumentos como a Lei Maria da Penha, que em Moçambique não tem e provavelmente nunca terá uma lei voltada especificamente para proteger uma mulher que foi violentada ou algo do gênero. Infelizmente, não há.
E basicamente isso. Há também violência em Moçambique, no entanto eu acho que não se compara com aqui no Brasil. Alguns dados que eu tinha visto, posso estar equivocado, mas geravam que o índice de homicídio aqui no Brasil era de 19 a cada 100 mil habitantes. Estou tocando nessa questão mais proporcional porque, se não fizermos uma estatística proporcional, iremos ser falaciosos. No Brasil são mais de 200 milhões de habitantes, acho que 214 agora, enquanto em Moçambique são cerca de 36 milhões.
Então, proporcionalmente, a cada 100 mil habitantes, 19 pessoas morrem no Brasil, enquanto em Moçambique acho que são cerca de 4. No entanto, também é importante deixar claro que existem algumas nuances, porque não existem instituições realmente muito capacitadas para averiguar essa questão da violência em Moçambique. Ou seja, existe uma crise nessa área de estudo, de estatística. Ainda é muito precário. Por isso não dá para concluir com exatidão.
Leonardo Alves:
Yunuss, eu lembro de ter visto recentemente, dando uma estudada no teu perfil, no teu conteúdo, você dizer que o motivo para morar no Brasil estava ligado principalmente ao estudo. Com esse crescimento exponencial que o teu perfil teve rapidamente, em um período bem curto, isso mudou os planos de alguma forma? Mudou as perspectivas e objetivos? E, dado esse crescimento e o alcance dos vídeos que você faz hoje, queria saber se tu te sentes confortável com o rótulo de influenciador. Como é que você sente essa mudança a partir do crescimento do perfil?
Yúnuss Jalilo:
Eu acho que realmente já sou influenciador, porque, querendo ou não, toda pessoa que acaba se colocando diante das câmeras, faz vídeo e depois começa a crescer na internet, acaba se tornando influenciador, porque influencia um monte de pessoas. Por isso que existe esse cuidado sempre antes de abrirmos as câmeras e falarmos qualquer coisa.
É muito importante que policiemos as nossas falas. Portanto, eu acho que sim, já sou influenciador. Também porque muita gente acaba sempre vindo até mim dizendo que agora faz Filosofia por causa dos meus conteúdos, que mudou a forma de pensar por causa dos meus conteúdos. Então, de alguma forma, pode ser sutil ou não, direta ou indiretamente, acabo influenciando as pessoas.
Bom, realmente eu vim cá somente por causa da faculdade, não tinha nada em mente para além disso. No entanto, agora já tenho outro pensamento. Eu acho que permanecerei no Brasil, porque já estou construindo praticamente, embora isso pareça muito absurdo, praticamente um império. Não no sentido de ser o melhor ou ser o maior, não, mas no sentido de que já estou construindo a minha carreira aqui, de trabalho e tudo mais.
Já estou construindo um monte de pessoas que me seguem, que me acompanham, que também estão sendo meus amigos, meus companheiros nas minhas lutas, nos meus desafios e também nos meus bons momentos. Então, estou criando ali uma aldeia — acho que essa palavra fica melhor — uma aldeia muito boa com o meu pessoal. Então eu penso mesmo em ficar por cá.
Leonardo Alves:
Entrando agora em algumas perguntas mais direcionadas a pensamentos teus que eu gostaria de ouvir elaborações a respeito. Recentemente, muito por conta dessa ascensão do Bad Bunny, daquele show que teve no Super Bowl, tem sido comum ver vários brasileiros proclamando uma unidade identitária latino-americana. No entanto, não parece haver esse mesmo empenho, essa mesma força, numa identificação Brasil-África, por mais que essa talvez seja mais presente na nossa cultura, como você inclusive percebe no seu dia a dia. Como é que tu enxergas essa questão, tanto sendo um imigrante vindo de Moçambique quanto alguém que reside no Brasil e tem visto esse fenômeno?
Yúnuss Jalilo:
Realmente esse ponto é muito interessante, curioso e muito importante, porque, de fato, infelizmente, muitos brasileiros — não todos, é importante não generalizarmos nem homogeneizarmos uma sociedade inteira, que é complexa e vasta — acabam não conhecendo os países africanos.
E, quando eu falo de países africanos, não me refiro a todos, porque realmente não é necessário que você entenda todos os países africanos. Nem o próprio africano é obrigado a entender todos os países africanos. Mas existem países africanos que tiveram uma relação histórica muito forte com o Brasil, como Angola, Moçambique, Cabo Verde. Tem também a República Democrática do Congo. Esses países são muito interessantes e, digamos assim, principais para que o povo brasileiro pudesse estudar mais sobre eles.
E isso não acontece porque é aquilo que Boaventura de Sousa Santos chamaria de epistemicídio, que seria o apagamento de conhecimentos não hegemônicos. Aqui podemos falar também do conhecimento indígena. Muitos brasileiros não conhecem muito da história indígena, dos povos originários do Brasil. Não conhecem também esses povos africanos que eu já mencionei. E isso é muito ruim.
Hoje existe esse evento, essa questão da identidade latino-americana, que eu acho também muito boa. É importante, sim, que haja essa união contra o imperialismo estadunidense — e digo estadunidense, não norte-americano, porque no norte da América temos também o Canadá; os Estados Unidos não são os únicos. Então é importante, sim, que se lute contra essa hegemonia. Mas que não se esqueça também das relações históricas, sociais e culturais com a África, que infelizmente foram muito perdidas.
Leonardo Alves:
Aproveitando que a gente está falando sobre os Estados Unidos, a outra pergunta que eu tenho é sobre uma crise recente que tem acontecido, com várias notícias saindo de lá em relação aos abusos do ICE (agência imigratória dos EUA). Essa pauta migratória tem sido uma das mais debatidas neste século, já há um bom tempo. A partir disso, eu queria saber de ti, enquanto imigrante, se esse tipo de acontecimento te gera preocupações ou se você pensa que esse ódio ao estrangeiro não é uma realidade aqui no Brasil, que inclusive costuma ser descrito como um país receptivo para todas as pessoas, todos os povos, todos os países. Como é que você enxerga isso? Acha que essa ojeriza se aplica aqui ou não é algo que nos diz respeito?
Yúnuss Jalilo:
Bom, realmente hoje existe uma crise migratória nos Estados Unidos, derivada de uma política de direita, de uma direita mais extrema — que nem seria praticamente direita, é mais gente autoritária, gente que se acha melhor, de raça pura, e que agora não quer apenas oprimir os outros.
Só que agora querem oprimir um povo que fez parte do processo histórico do próprio país. Os Estados Unidos não evoluíram sozinhos, não se desenvolveram sozinhos. Houve ali mão de obra barata, houve mão de obra de muitos povos. Falo de toda a América e também de africanos. E hoje eles querem expulsar esse povo que ajudou a construir o país. Enfim.
Bom, no Brasil, quanto a essa questão de migração, por enquanto eu acho que até está boa. Mas, infelizmente, agora, como muitos brasileiros de direita — melhor dizendo, bolsonaristas, porque nem são políticas de direita de fato — acabam se identificando muito com políticas estadunidenses, há uma reprodução desse discurso.
Por isso que hoje tem muita gente, principalmente no Sul do Brasil, que acaba cometendo atos xenofóbicos contra estrangeiros e até contra os próprios brasileiros. Existe muita xenofobia entre sulistas contra nordestinos, o que é algo muito ruim. Então, infelizmente, hoje existe essa adesão a essa política trumpista aqui no Brasil, de desumanização dos outros povos e de desprezo pelos outros, o que eu acho muito ruim.
Leonardo Alves:
Eu venho acompanhando recentemente que tu fazes algumas publicações de textos e és bastante enfático em avisar que não há inteligência artificial, que não há uso dela nos teus textos. Eu queria entender tua posição: existe uma posição mais demarcada tua sobre a inteligência artificial? Isso é, de alguma forma, uma maneira de proteger a tua propriedade intelectual, digamos? E se tu notas, por exemplo, pessoas subestimando tua capacidade de elaboração, acreditando que é IA ou coisa do tipo. Qual é tua visão sobre a inteligência artificial e sobre essa necessidade ou desejo de demarcar que tu não faz uso dela?
Yúnuss Jalilo:
Bom, eu coloco isso não por preconceito à inteligência artificial em si, mas porque, infelizmente, hoje eu recebo muitos comentários de pessoas insinuando que eu uso inteligência artificial. Alguns até pensam que eu sou inteligência artificial, que sou um avatar gerado por uma inteligência artificial.
Então eu coloco mais por causa disso. Isso seria também, como você próprio mencionou, uma forma de proteger a minha própria autoridade intelectual, a minha pessoa intelectual que está ali nos vídeos.
Eu acho que a inteligência artificial é boa, porque, primeiro, ela não se resume apenas a um grupo seleto, que seria o das inteligências artificiais generativas, como no caso do ChatGPT, do Gemini. Não. A inteligência artificial é muito vasta. Hoje ela é usada em várias áreas do conhecimento humano, muitas vezes para aprofundar o nosso conhecimento. Até porque as inteligências artificiais conseguem desenvolver, por exemplo, em questões físicas, matemáticas, um monte de variáveis ao mesmo tempo, algo que seria impossível para um ser humano ou para um grupo de pessoas.
Por isso que, por vezes, acabam sendo muito importantes para nós. Por exemplo, em 2022, o Prêmio Nobel de Química foi ganho com a ajuda de uma inteligência artificial desenvolvida pela DeepMind, uma startup do Google, que contribuiu para o entendimento de síntese proteica.
Então, a inteligência artificial em si não é o problema. O problema que eu acho que, infelizmente, vai acontecer bastante — e que já está acontecendo — é a abnegação do pensamento crítico. Ou seja, as pessoas agora deixam que a inteligência artificial pense por elas, e não o contrário.
A inteligência artificial não deve ser… como posso dizer… ela deve ser usada como um mecanismo, como uma lente através da qual nós olhamos e estudamos o mundo, como se fosse um instrumento filosófico.
Ou seja, as pessoas, ao invés de recorrerem a um livro, a uma enciclopédia, por exemplo, para estudar, ler ali, passar os olhos — pelo menos até passar os olhos — não fazem isso. Esperam que a inteligência artificial faça tudo e produza tudo por elas.
Aí seria aquilo que Hannah Arendt chamaria de banalidade do mal. A banalidade do mal surge quando o povo para de pensar criticamente e vive no mero automático. Basicamente isso. Não há uma crítica à inteligência artificial em si, mas ao uso da inteligência artificial.
Tem até um livro muito bom — está aqui comigo — de um pensador brasileiro que publicou recentemente, chamado Seremos Dados, do Marcus Bruzzo. Ele aborda justamente essa questão da inteligência artificial acabar roubando o nosso espaço de trabalho, o nosso espaço também de intelectualidade. Então, o maior perigo da inteligência artificial seria esse: ela pensar por nós.
Leonardo Alves:
Estamos em um ano de eleições presidenciais aqui no Brasil e, sobre isso, eu queria saber se você se vê inserido e interessado nos debates políticos do país. Você sente que, de alguma forma, deve participar dessas discussões, considerando principalmente os temas abordados nos seus vídeos, que muitas vezes reagem a políticos? Como é que você se vê inserido nesse cenário?
Yúnuss Jalilo:
Na verdade, eu não tenho nenhum plano de participação política, seja partidária, seja de estar lá num partido ou me candidatar a algo do gênero. Muito menos também para debates políticos. Eu sempre deixei claro que jamais debateria, nem política, nem filosofia, coisas do gênero. Não, jamais debateria.
Eu gosto mais, por exemplo, de ir a um podcast ou ter uma conversa aqui com vocês. Acho isso muito mais interessante, essa interação, do que debates em si. Para mim, quem realmente deve fazer debates são aqueles que vão se candidatar. Eu acho que, sim, nesse caso o debate é necessário, para quem vai disputar algum cargo político ou pensa em migrar para a política de fato.
Mas eu, como não tenho esse objetivo, a minha forma de disseminação de informação seria mais por intermédio mesmo de aulas, palestras, podcasts e algo do gênero, e não necessariamente debates. Porque o debate simplesmente gera engajamento, mas não gera informação. Gera likes, mas não gera pensamento crítico nas pessoas.
As pessoas vão mais para assistir, para ver o que o Yúnuss vai dizer. “Como é que será a briga? Será que o Yúnuss vai esculachar o outro? Será que vai ganhar o debate?” As pessoas querem muito mais esse espetáculo do que o ganho de conhecimento em si. Infelizmente, hoje se tem perdido isso. As pessoas gostam mais do debate do que de ler um livro. Então, acho que a sociedade precisa mais de leitura do que de debate.
Leonardo Alves:
Verifiquei que seu interesse pela Filosofia começou aos 15 anos. Desde então, eu queria entender quais linhas de pensamento, quais linhas de estudo mais te interessaram e como você aplica esses conhecimentos na tua vida fora dos vídeos. Como é que é a Filosofia no teu dia a dia?
Yúnuss Jalilo:
Bom, cara, eu acho que a Filosofia no meu dia a dia é a mesma que funciona nos meus vídeos: analisando a realidade, questionando a sociedade e percebendo quais mecanismos de poder acabam estando, de forma sutil, na nossa sociedade, e como buscar soluções para desconstruir exatamente esses micromecanismos de poder, de normalização da dominação.
Buscando termos que acabam estando presentes na nossa sociedade e que é importante que sejam desconstruídos, que sejam quebrados. Então eu uso mais a Filosofia nesse hábito, e também como uma forma de conscientizar as pessoas.
Nas minhas conversas fora das câmeras, com os meus amigos, eu sempre busco conscientizá-los por meio da Filosofia, porque muitos deles também acabam sendo machistas, e eu gosto muito de usar ali a filosofia feminista, muitas das vezes, para acabar acordando-os para a realidade, despertá-los para o mundo real e fazê-los perceber que eles estão apenas reproduzindo atos de uma sociedade, e não necessariamente pensamentos autorais, autônomos. Então eu uso mais a Filosofia nesse sentido, como uma forma de olhar o mundo, entender o mundo e buscar melhores formas de tornar a sociedade melhor.
Leonardo Alves:
Queria saber um pouco mais da tua rotina em relação a hobbies. Porque eu também vi que você pratica vários esportes, além de ser cantor e compositor. E aí eu queria saber dos teus gostos aqui no Brasil, tanto na música quanto nos esportes. Quais são as tuas preferências por aqui? O que você gosta de assistir e o que você gosta de escutar na sua vivência no Brasil?
Yúnuss Jalilo:
Eu, aqui no Brasil, o que mais gosto acho que é o futebol. O futebol. De tudo, tudo mesmo, até comparado com Filosofia, intelectuais, eu acho que gosto muito de futebol. Assim, antes mesmo de eu começar a estudar, antes de eu começar a ter interesse pelos estudos, eu jogava muito futebol.
E até hoje eu jogo… quer dizer, infelizmente acho que já estou há mais de um ano sem jogar, porque tenho preguiça de sair de casa. Mas eu tenho que voltar a jogar, preciso praticar os esportes de que mais gosto, que nesse caso são futebol, basquetebol, handebol, vôlei. E aqui no Brasil eu gosto muito do futebol.
Já na questão mais artística e musical, eu gosto de pagode, gosto de alguns sertanejos, principalmente da Marília Mendonça, gosto bastante. Gosto de funk também. Muita gente até fica: “Não sei como é que você gosta de funk”. O pessoal pensa que eu tenho cara de MPB. Mas acho que, na questão de música, sou bastante… assim, trivial, digamos. Não ouço muito pela letra. Eu gosto mais da melodia, da harmonia, do ritmo, do que da letra em si.
Leonardo Alves:
Você torce para algum time aqui no Brasil? Se torce, acompanha?
Yúnuss Jalilo:
Não. E nenhum do mundo. Aí entra numa questão mais filosófica. E também naquela outra questão de como é que eu uso a filosofia na realidade. Eu antes apoiava times, não somente no Brasil, mas fora também, na La Liga, a liga espanhola, Premier League, liga inglesa, na liga portuguesa… apoiava times porque acompanhava muito futebol.
Mas percebi que, muitas das vezes, eu apenas estava entrando meio que numa briga das massas desnecessária. O pessoal hoje se mata pelo futebol, por time que não faz praticamente nada por nós. Eles estão lá só para nos entreter, que bom, é um dos pontos que eles fazem para nós. No entanto, acho que não agrega muita coisa, mas posso estar errado.
Outro ponto seria que, muitas vezes, nós apoiamos times que já são apoiados pela maioria. E não só. Times que provavelmente são da cidade onde nós nascemos, ou seja, influência social, influência familiar. Tendemos muitas vezes a apoiar times que os nossos pais apoiam, que os nossos familiares apoiam. Obviamente existem exceções, pessoas que vão apoiar quem gostaram, algo do gênero.
Mas acho que perdi um pouco o encanto por isso de apoiar. No entanto, não tenho crítica por quem apoia. Acho que as pessoas podem fazer aquilo que quiserem, desde que, obviamente, não se matem por isso, não briguem por isso, que não deixem de se socializar, de se relacionar por causa dessas questões que não são tão importantes assim para a sociedade.
Leonardo Alves:
Então você assiste aos jogos sem ter uma torcida ou você gosta mais de jogar, praticar os esportes, do que assistir?
Yúnuss Jalilo:
Prefiro praticar. Mas assistir eu acho que não consigo, porque nem filme eu assisto, nem séries eu assisto. Então futebol também seria outra coisa. Porque uma hora e trinta minutos… eu acho que tenho muita preguiça de assistir coisas muito longas.
Leonardo Alves:
A gente sempre encerra as nossas entrevistas com duas perguntas que fazemos basicamente a todos os convidados. Pedimos uma indicação e uma contraindicação em relação a qualquer coisa do mundo. Você pode indicar um hábito, um livro, um artista, um autor, enfim, qualquer coisa. Algo que você indica e algo que você contraindica, por favor.
Yúnuss Jalilo:
O que eu indico é que se estude filosofia. Independentemente do que você vai fazer na faculdade ou de qual carreira educacional você queira seguir, eu acho que a filosofia é essencial para toda a gente.
Ela é importante para entendermos não apenas o mundo, a sociedade, mas também a nós mesmos. Porque, ao longo da vida, toda a gente acaba se deparando com o absurdo da vida, acaba se deparando com o desespero, que é um dos lados mais abismais dos sentimentos humanos. Então, eu acho que a filosofia é muito interessante para toda a gente, todo tipo de pessoa, todo tipo de classe, todo tipo de raça, de gênero. Ela é muito fulcral para todos nós.
Já uma contraindicação… Não assistir conteúdo de Red Pills.





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