
Não sei dizer com precisão a que altura de minha vida passei a ter um estranho sentimento sobre o Dia Internacional da Mulher, celebrado neste 8 de março. A questão a que me refiro pode ser traduzida mais brevemente em alguns questionamentos: afinal, como devemos fazer os cumprimentos nesta data? Há que se parabenizar as mulheres por serem mulheres? Minhas amigas, colegas de trabalho e familiares aguardam de mim e de outros homens um “feliz Dia da Mulher”?
Talvez sejam inquietações que vêm de um pouco mais distante, mas penso estarem se intensificando nos últimos anos. Consigo pensar, inclusive, em rápidos diálogos travados justamente em torno dessas premissas, fosse com outros homens ou com as próprias mulheres. Entre respostas e ideias distintas, enxergo como denominador comum o compartilhamento dessa sensação de que… bom, admito não ter conclusão, e parece ser mesmo esse o fim da trilha.
É muito diferente de outras datas, a exemplo do Dia das Mães, dos Pais, das Crianças, Natal, Páscoa. Há uma naturalidade bem maior e um itinerário muito mais consolidado do que dizer, do que fazer, de como se portar nesses outros contextos. Claro, temos as famigeradas rosas, chocolates, entre outros presentes que parecem ter se saturado enquanto demonstrações isoladas de afeto em um tempo no qual predomina a intimidação, o medo e a opressão sistêmica a mulheres.
São esses alguns dos elementos que se entrelaçam no raciocínio desencadeado a partir de meus estranhamentos – e das questões levantadas no início do texto. Além da data em si, contribuiu para a vontade de compartilhar esse fluxo de dúvidas e conjecturas a verdadeira onda de violência contra a mulher que vem tomando conta do país. Como uma sombra projetada com firmeza, é simplesmente impossível não tratar dessa problemática com o holofote que o 8 de março lança sobre a posição das mulheres em nossa sociedade.
Ao contrário do que minha profissão de jornalista possa sugerir, a ideia aqui é menos o rigor da apuração e da seleção de fontes típicas de uma reportagem, e mais o convite ao diálogo e a colocação de impressões pessoais associados mais a uma espécie de ensaio. O ofício, no entanto, é primordial para que eu tenha o contato frequente com informações de toda sorte, de tal forma que carrego com absoluta convicção a seguinte opinião: não há no Brasil de hoje uma questão mais alarmante que a crescente da violência de gênero. Ser mulher neste país é um verdadeiro fator de risco e esse é o maior problema com o qual deveríamos nos preocupar enquanto nação.
Violência quantificada
A quem eventualmente possa discordar da afirmação, é preciso contrariar também as estatísticas, o que torna a missão bastante árdua para aqueles compromissados com a honestidade intelectual e o debate sério. Em 2025, foram registradas no país 6.904 vítimas de casos consumados ou tentativas de feminicídio – 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando uma média de quase seis (5,89) mulheres mortas por dia no Brasil. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL).
O levantamento supera em 38,8% (mais de 600 casos a mais) os números divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), que tem como referência os dados informados pelos estados. A Lesfem afirma que a discrepância se deve a um índice de subnotificação, que ocorre tanto pela falta de denúncias quanto pela falta de tipificação dos crimes no momento do registro.
Ainda segundo o relatório, há predominância de feminicídios praticados no ambiente íntimo (75%), que são os casos em que o agressor faz ou fez parte de seu círculo de intimidade, como companheiros, ex-companheiros ou a pessoa com quem a vítima tem filhos. Além disso, a maioria das mulheres foi morta ou agredida na própria casa (38%) ou na residência do casal (21%).
Muito antes do crime
Não se trata de uma novidade a opressão generalizada às mulheres. Violência psicológica, traições e mesmo agressões físicas, infelizmente, sempre existiram nos lares e no cotidiano, ainda que muitas vezes de forma mais velada, sob pretextos falidos como de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.
O que parece ser algo inédito, no entanto, é essa onda reacionária que tem feito os casos de feminicídio e estupro, que são cada vez mais brutais, dominarem os noticiários. No mesmo compasso, as redes sociais são bombardeadas com trends e influenciadores de discursos que reforçam estereótipos e exaltam posturas misóginas, muitas vezes, inclusive, sob uma lógica de se portarem como verdadeiros guias masculinos e masculinizantes de uma juventude cada vez mais odiosa. É o caso, por exemplo, do movimento Red Pill, que reforça entre adolescentes e homens o ciclo de violência e de antagonismo para com a figura feminina.
Temos aí um ponto central da discussão. Muito antes de o feminicida ser o homem que mata uma mulher, é ele o sujeito que não se preocupa em ter amigas – porque não lhe servirão para o sexo -, ou em admirar figuras femininas, ou de ler, escutar e assistir obras de autoras mulheres.
É ele também o cara que não se indigna com discursos machistas vindo dos amigos, que direciona à parceira todas as responsabilidades domésticas e eventualmente do cuidado com filhos, que se apega e reverbera narrativas masculinocentrantes, a exemplo dos criadores de conteúdo que falam sobre homens e mulheres “de valor”, num discurso que sempre retorna a tradicionalismos que desprezam a independência, autonomia e desejo femininos, enquanto o macho exaltado é justamente aquele que não pensa duas vezes em se colocar sempre em primeiro plano, mesmo em detrimento de pessoas que ousa dizer amar.
Penso que este imaginário que antagoniza o feminino vem se perpetuando também entre mulheres. Se tornou frequente a viralização de vídeos e outras postagens jocosas como “quem casou, casou” e “homens da última safra boa”, em referência a comportamentos respectivamente tidos como desinteressantes e esperados em homens enquanto parceiros afetivos. Acontece que é possível observar nisso uma tendência a ideais de repulsa à sensibilidade ou feminilidade e reforço do homem cuja masculinidade é aferida no comportamento turrão, fechado, que não se propõe a pensar e elaborar as próprias emoções, anseios, desejos. Em muitos casos, inclusive, há uma pujante naturalização da homofobia, mas esta é uma outra conversa.
Levantar esses pontos de modo algum tem por interesse imputar qualquer responsabilização às mulheres pelos cenários trágicos contra elas impostos, ao contrário do que pensam muitas pessoas com questionamentos a respeito da escolha de parceiros, ambientes ou vestimentas. Pelo contrário, a intenção é apenas a de evidenciar a força desse terrível inimigo que é a misoginia, perpetuada de geração em geração por uma concepção patriarcal de sociedade, a ponto de se infiltrar até mesmo no pensamento de quem é vítima desse sistema.
Enquanto meninas são ensinadas e estimuladas a aprenderem tarefas de casa e a evitarem certos modos de se sentarem, andarem ou olharem para homens, os garotos se preocupam tão somente em brincar e reprimir o choro, porque “é coisa de menina”. São padrões de criação que para elas lega o papel de submissão e conformidade com um mundo que as vê como objetos de satisfação, enquanto que para os homens, em menor grau de prejuízo, criam adultos disfuncionais, e em última instância dão origem a assassinos crueis.
O debate de gênero no Brasil
Possivelmente, um dos pontos mais preocupantes nesse grande contexto seja o atraso no debate. Isso se deve, provavelmente, ao desconhecimento das questões de gênero como um todo, o que se pode aferir por exemplo nos constantes ataques a pessoas trans, muitas vezes pautados a partir de premissas falsas e estigmas que não condizem com a realidade.
A própria definição do crime de feminicídio ainda não está muito bem evidenciada para o grande público, e isso abrange a população de forma generalizada, independentemente de recortes de raça, classe, origem, etc. Para muitos, o feminicídio é o homicídio de uma mulher, e não o assasinato de mulheres exatamente por motivações de violência de gênero – muito embora quase sempre seja justamente esse o contexto dos casos.
Às vezes podemos até nos deparar com uma breve explicação de que o assassino “matou por ser mulher”, mas a mim parece uma rasa nota de rodapé para uma questão de tamanha complexidade. Matou porque não aceitou o término, matou porque teve ciúmes, matou porque não pode lidar com a “desonra” de ter sido traído, matou porque ela “fazia a cabeça dos filhos”, matou porque foi rejeitado. O elemento comum a todas essas situações e outras tantas é um crime motivado pela recusa ao direito de uma mulher dizer não, de seguir sua vida, de ter sua autonomia, de se expressar como queira, de existir de maneira independente, e não orbitando ao redor do homem.
Acredito que estejamos em um momento crucial para o avanço da luta que até então tem sido praticamente exclusividade das mulheres, embora sejam justamente os homens os causadores do problema. Penso ainda que podemos nos inspirar no debate racial como um norte para alcançar o progresso. Digo isso porque, mesmo que o racismo ainda represente uma estrutura central na constituição e desenvolvimento do nosso país e se perpetue até hoje, me parece haver um pouco mais de luminosidade sobre o tema e principalmente intolerância às práticas racistas. Muitas vezes uma piada de menosprezo à mulher passará despercebida em um grupo de homens, mas alguém que ache divertido comparar pessoas pretas a macacos provavelmente será condenado na maioria dos círculos sociais.
Vejo bom retrato disto também no ambiente do futebol, no qual estou inserido desde bem novo e penso ser bom espelho da realidade nacional, haja vista seu caráter massificado e masculino, exatamente aquele questionado ao longo deste texto. O brasileiro não aceita e não se cala diante das injúrias raciais sofridas por jogadores e torcedores em países vizinhos na América do Sul, muito menos na Europa, onde temos um exemplo cristalino com os casos vivenciados por Vini Jr. No entanto, outros episódios como o machismo e a homofobia serão não somente relevados como também se tornarão motivo de piada, provocação, chiste.
Até é possível notar alguns tímidos avanços no esporte. Vem crescendo a presença de árbitras e jornalistas mulheres no futebol, mesmo diante de todos os desestímulos a essas carreiras. Recentemente, uma fala machista do zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, contra a árbitra Daiane Muniz no jogo em que seu time foi eliminado no Campeonato Paulista (em entrevista após o jogo, ele disse: “primeiramente, eu quero falar da arbitragem porque não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians e colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”) rendeu ao jogador suspensão por 12 partidas e multa de R$ 30 mil.
Apesar disso, ainda é muito pouco e cada passo à frente é respondido com empurrões por aqueles que se recusam a encarar uma nova possibilidade de sociedade, com protagonismo feminino e equidade de direitos. Foi e é assim no direito ao voto, na licença-maternidade, no aborto legal, na igualdade salarial, e em qualquer movimento que ponha em cheque a existência medíocre e reacionária de homens minúsculos de espírito.
Um caminho a ser construído
Definitivamente, não é um momento fácil e não promete ser nos próximos tempos. Apesar disso, não podemos nos desapegar da ideia e das ações que podem pavimentar um futuro mais digno e seguro para meninas e mulheres.
Existe uma sede punitivista e eu mesmo muitas vezes compartilho desses desejos. Aliás, estranho seria não sentir indignação e raiva extremas a cada nova brutalidade que vem à tona. Contudo, não é justo que as medidas sejam pensadas em contextos onde o crime já se concretizou e a vítima já não voltará mais, mesmo nas vezes em que permanece viva.
Pensar que o aumento de penas pode intimidar os homens a cometerem tais violências, mais do que ignorar que essa premissa é pouco efetiva para crimes de qualquer natureza, é fechar os olhos para o fato de que muitos desses homens não obedecem à lógica, uma vez que são movidos pelo mais puro ódio, a ponto de muitos se matarem logo após consumado o assassinato, além de que outros tantos chegam a ser presos ou já possuem medidas protetivas em seu desfavor e, ainda assim, não são impedidos de matar ou abusar de mulheres.
Nos últimos anos, já houve o endurecimento de penas, inclusive com a tipificação do feminicídio como crime próprio e não mais como uma modalidade do homicídio qualificado. Isso não significa que não tenhamos de exigir mais rigor da lei, inclusive com o questionamento da validação institucional da violência, a exemplo do recente caso envolvendo a menina de 12 anos vítima de estupro de vulnerável de seu, entre um bilhão de aspas, “marido” de 35 anos, cujo crime foi endossado por desembargadores do TJ-MG. Esta é, no entanto, somente uma das pontas da questão.
É preciso, portanto, pensar em uma lógica de ataque às raízes do problema. Colocar em cheque a perpetuação de modelos familiares que ensinam garotos que eles são reis do mundo e que dizem às meninas que elas devem estar prontas para servi-los. Exigir na Educação o estímulo ao respeito e à escuta de mulheres, bem como a valorização de mulheres nas obras e nas contextualizações históricas e científicas. Enfrentar a onda de propagação de influenciadores e conteúdos misóginos nas redes sociais, com as devidas regularizações e responsabilizações criminais de quem as desrespeitar. Demandar, acima de tudo, que homens passem a sair da zona de conforto e atacar o problema, mesmo que isso signifique abrir mão do trono que lhes foi prometido desde cedo e construído sobre vidas inteiras de mulheres.
Mais que desejar um feliz Dia Internacional da Mulher, expresso minha solidariedade e meu desejo de participar na construção de uma outra realidade que, sim, é possível. Por meninas e mulheres vivas, livres, sonhadoras, respeitadas, valorizadas, seguras e cada vez mais possibilitadas de serem exatamente quem são.




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