
Tinha tudo para dar errado e deu mesmo. Eu já estava de saco cheio de peregrinar pela Praia Grande tentando emplacar conversas que nitidamente não a interessavam. Vislumbrei uma salvação quando recebi o chamado de um amigo para o Bar do Léo.
-Você conhece o lugar?
-Não…
Sem problema. Talvez, chegando ao bar, se surpreendesse com aquele mundo de objetos e com aquela atmosfera incomparável. No fim das contas, acredito que as pessoas podem ser divididas entre as que se encantam ao conhecer o Bar do Léo e as que se mostram indiferentes. Logo percebi que a minha convidada fazia parte da segunda categoria. Mas aí já era tarde. Sentada à mesa, portava-se de maneira protocolar, conversando como quem espera o tempo passar.
Na tentativa de reanimá-la, propus um passeio pelo bar. Durante a caminhada, descrevi objetos, contei causos, apontei curiosidades. O silêncio persistia. Ao chegar ao final do corredor, onde estão concentradas algumas matérias emolduradas, apontei e disse que, para mim, aquele texto do meu amigo Bruno Batista era o melhor já escrito sobre o Bar do Léo e que precisava ser lido.
Não sei por que diabos menti. Digo, eu realmente considero que a reportagem do compositor para O Imparcial é a melhor já feita sobre o bar, ou ao menos a que mais me chamou a atenção. A mentira ficou restrita à intimidade proclamada. Bruno não é exatamente meu amigo. Nos topamos duas vezes, trocamos cumprimentos e só.
Fui punido pelo abuso. Estranhamente animada, veio a pergunta sobre a suposta amizade. Fiquei mais angustiado que um goleiro na hora do gol e, um pouco constrangido, confirmei em voz baixa que sim. Sem hesitar, ela se aproximou do quadro ali mesmo, no corredor, e começou a ler em voz alta.
É bonita a forma como Bruno narra o primeiro encontro com o bar. Conta que o pai usava as idas ao barbeiro ou à feira do Vinhais como desculpa para frequentar o lugar. Numa dessas incursões, ainda criança, Bruno surpreendeu Léo ao reconhecer a música que tocava. Era Dalva de Oliveira.
Diante da citação, o rosto se voltou na minha direção com um meio sorriso e veio a pergunta que selaria de vez o destino da noite: essa Dalva de Oliveira também é sua amiga?
Já sem energia para inventar outra mentira e finalmente convencido de que aquela história não teria mesmo um bom final, limitei-me a repetir, quase como quem pede desculpa, que sim. Era.





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