Umas


Tudo se trata, irrecalcavelmente, de explícita ternura.


Thomaz Farkas
“Vista do morro Dois Irmãos” Rio de Janeiro, RJ, c.1946

Diariamente, há pelo menos duas semanas, sempre ao levantar, recordo, uma a uma, antigas namoradas. E antes que, por algum acaso, isso possa sugerir um questionável passadismo, ou mesmo confissão que não se deva fazer de público, adianto-me em assinalar que, para mim, tudo se trata, irrecalcavelmente, de explícita ternura.

Ademais, não sou um sujeito nostálgico. Admito – relutante, às vezes  – o tempo de cada coisa. Costumo pensar que pessoas, relações, espaços, histórias, tudo ocupa o seu lugar pelo momento que lhe cabe durar, e só. Meu entusiasmo pelo novo supera quase tudo à minha frente. Novidade é movimento. E qualquer movimento vem romper ciclos de retroalimentação, estes, sim, muito comuns e danosos ao meu modo sensível de estar na vida.

Tenho pensado em Irôko, o orixá do tempo. Tempo sempre me pareceu o Deus em tudo, capaz de apascentar aflições, clarificar os caminhos, selar os destinos, os pontos finais, os novos e os velhos fluxos. Envergadura e maciez. 

Pela fragilidade do sagrado em minha vida, ajo com muita dificuldade diante de percepções estatutárias da experiência religiosa. Ainda não decidi qual espaço o Senhor, o Divino, ocupa no meu mundo. O mero não crer me parece frágil, senão um modo de crer com mais veemência naquilo que se diz não existir. E eu sei que há mistérios, muitos, aos quais não tenho interesse em defini-los, tampouco em circunscrevê-los, com precisão, às formas de religião que conhecemos. Estou descobrindo tudo. Falar sobre o tema já dá pistas disso. 

Seguir impreciso é um facilitador diante da questão. Por esse motivo, tendo a pensar mais de uma forma politeísta. Talvez, para muitos de nós, e para os modos jamais quantificáveis de ser o ser – em sentido vulgarmente heideggeriano – um Deus só não dê conta. Inclino-me, por isso, às religiões de matriz africana. Menos pela óbvia relação de minha ascendência, e muito mais pela epistemologia da beleza em Umbanda, Candomblé, tudo. Música, corpo, literatura, filosofia, cada uma dessas coisas dispostas, para mim, tão intimamente. E que eu admito ainda não saber alcançar nem a beira. Hei de descobrir?

O certo é que o tarot e a numerologia me informaram que este é o ano da Temperança. E que meu arcano, para todo o sempre, é o Papa. Sinto-me afim às descrições do Papa (ou o Hierofante), o arquétipo da mansidão, do ensinamento, da coisa quase ancestral. Nem chego a achar pretensão minha, já que estou em um momento no qual meus amigos todos – e todos ao meu redor – parecem mais jovens. E, não, não estou à l’ouest, à guisa do meu próprio mundo. Sigo a marcha e sei que eles me veem como esse rochedo nem brusco, nem lanhoso. Vulgar e precipitadamente a “concentração de tempos” do Morro Dois Irmãos, de Chico. É cedo para tanto. Só que eu me sinto exatamente assim.

Como abri o texto dizendo, tenho sonhado muito com minhas antigas namoradas. Não posso dissociar delas o que há de mais belo no que eu pude – e, malamente, venho – ser até o momento. Para aprender a ser justo, tive de fazer injustiças. Para aprender a ser gente, tive de ser lamentavelmente imbecil. Para cuidar da casa e amar rotinas, tive de quase me casar. Para estar mais próximo do que o meu coração segreda, tive expedientes de demasiada ternura. Para gostar da minha cara, foi só ao ler os olhos dela. E dela. E dela. E dela.

Estou chegando a uma idade em que anuncia-la pesa um tanto em meus lábios. Digo, brincando, que só saberão de mim os números exatos quando eu chegar aos 50. Espero manter-me empenhado em nada dizer. Ou, talvez, quando Léo Viana fizer 30 anos, porque, aí, sim, todos nós seremos mais ou menos a mesma coisa.

Isto é para depois.

Chega de saudade.

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