
“Vista do morro Dois Irmãos” Rio de Janeiro, RJ, c.1946
Diariamente, há pelo menos duas semanas, sempre ao levantar, recordo, uma a uma, antigas namoradas. E antes que, por algum acaso, isso possa sugerir um questionável passadismo, ou mesmo confissão que não se deva fazer de público, adianto-me em assinalar que, para mim, tudo se trata, irrecalcavelmente, de explícita ternura.
Ademais, não sou um sujeito nostálgico. Admito – relutante, às vezes – o tempo de cada coisa. Costumo pensar que pessoas, relações, espaços, histórias, tudo ocupa o seu lugar pelo momento que lhe cabe durar, e só. Meu entusiasmo pelo novo supera quase tudo à minha frente. Novidade é movimento. E qualquer movimento vem romper ciclos de retroalimentação, estes, sim, muito comuns e danosos ao meu modo sensível de estar na vida.
Tenho pensado em Irôko, o orixá do tempo. Tempo sempre me pareceu o Deus em tudo, capaz de apascentar aflições, clarificar os caminhos, selar os destinos, os pontos finais, os novos e os velhos fluxos. Envergadura e maciez.
Pela fragilidade do sagrado em minha vida, ajo com muita dificuldade diante de percepções estatutárias da experiência religiosa. Ainda não decidi qual espaço o Senhor, o Divino, ocupa no meu mundo. O mero não crer me parece frágil, senão um modo de crer com mais veemência naquilo que se diz não existir. E eu sei que há mistérios, muitos, aos quais não tenho interesse em defini-los, tampouco em circunscrevê-los, com precisão, às formas de religião que conhecemos. Estou descobrindo tudo. Falar sobre o tema já dá pistas disso.
Seguir impreciso é um facilitador diante da questão. Por esse motivo, tendo a pensar mais de uma forma politeísta. Talvez, para muitos de nós, e para os modos jamais quantificáveis de ser o ser – em sentido vulgarmente heideggeriano – um Deus só não dê conta. Inclino-me, por isso, às religiões de matriz africana. Menos pela óbvia relação de minha ascendência, e muito mais pela epistemologia da beleza em Umbanda, Candomblé, tudo. Música, corpo, literatura, filosofia, cada uma dessas coisas dispostas, para mim, tão intimamente. E que eu admito ainda não saber alcançar nem a beira. Hei de descobrir?
O certo é que o tarot e a numerologia me informaram que este é o ano da Temperança. E que meu arcano, para todo o sempre, é o Papa. Sinto-me afim às descrições do Papa (ou o Hierofante), o arquétipo da mansidão, do ensinamento, da coisa quase ancestral. Nem chego a achar pretensão minha, já que estou em um momento no qual meus amigos todos – e todos ao meu redor – parecem mais jovens. E, não, não estou à l’ouest, à guisa do meu próprio mundo. Sigo a marcha e sei que eles me veem como esse rochedo nem brusco, nem lanhoso. Vulgar e precipitadamente a “concentração de tempos” do Morro Dois Irmãos, de Chico. É cedo para tanto. Só que eu me sinto exatamente assim.
Como abri o texto dizendo, tenho sonhado muito com minhas antigas namoradas. Não posso dissociar delas o que há de mais belo no que eu pude – e, malamente, venho – ser até o momento. Para aprender a ser justo, tive de fazer injustiças. Para aprender a ser gente, tive de ser lamentavelmente imbecil. Para cuidar da casa e amar rotinas, tive de quase me casar. Para estar mais próximo do que o meu coração segreda, tive expedientes de demasiada ternura. Para gostar da minha cara, foi só ao ler os olhos dela. E dela. E dela. E dela.
Estou chegando a uma idade em que anuncia-la pesa um tanto em meus lábios. Digo, brincando, que só saberão de mim os números exatos quando eu chegar aos 50. Espero manter-me empenhado em nada dizer. Ou, talvez, quando Léo Viana fizer 30 anos, porque, aí, sim, todos nós seremos mais ou menos a mesma coisa.
Isto é para depois.
Chega de saudade.





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