
2025: a promessa e o espanto de meu texto anterior na constatação de que nos aproximávamos, àquela altura, da metade da década finalmente se cumpriu. E, se a cumprimos, chegando até esta hora de dezembro, parece-me que a travessia se perfez razoavelmente bem-sucedida. Primeiro, porque saímos do velho novo ano para o novo ano velho; segundo, por sabermo-nos, agora, testemunhas da transfiguração do novo ano velho na terra fecunda donde já exercitamos os votos – pessoais e coletivos – de maiores e incontáveis sortes no novo ano novo. 2026.
Foi como se as coisas não chegassem, ou mal saíssem. Desencontro contínuo, sem eixo que lhe produzisse ordenamento. Só distrações, atiçadas pelo desalinho seguinte, antes que sequer nos déssemos conta do essencial. Desgostei de quase tudo o que vi e ouvi. Assistindo a Jorge Aragão e testemunhando o elã do seu samba romântico e irreparável, os ais! em mim de amor e música. Outras Palavras.
Porque todas as respostas parecem estar no Carnaval. Meu coração é outro na carne da Madre Deus, onde as coisas aparecem ainda mais nítidas. Devo a Juan Terra o meu reencontro, já adulto, com o bairro cuja história representa o fundamental de São Luís. Próximo ao bar Ponto de Fuga – que saudade de Cristina Buarque, morta em abril, aos 74 anos – o movimento da dança imprecisa dos meninos e meninas; o estardalhaço, os Fuzileiros da Fuzarca. Amo as caixinhas com a imagem de São Jorge, do lado de lá. Amo os caminhos que levam ao Bar Psica, de meu conhecimento por obra de Terra. O bar Cosme e Damião, nababos; beleza que Jansen disse a todos nós em forma de texto.
Mas eu me referia ao Carnaval. O show do BaianaSystem talvez tenha sido um esboço de uma resposta que se poderia dar à subordinação e à dependência quase geral de nossas atuais estruturas de poder. Fazer rodas de capoeira, falar em caboclos, corpos em êxtase, contestação do capital e a importância de não se dar anistia aos criminosos tanto revigora como nos estimula o pensamento. Russo Passapusso é o arquiduque amável e feroz; o luar tão cândido sobre a turba ensandecida.
Nem euforias, nem noites. Muitas noites sem euforia. Diferentemente do ano passado, não me vi desvairado de emoções. Tenho dito, intimamente, que sou um racional. Mesmo entorpecido, açodado por prazerias num ritmo manso. A isto, deve-se chamar, suponho, de fase adulta. Gosto como está e capto a contenção de agora como um dos poucos ganhos dos últimos meses. Embora, serenidade à parte, eu não resista aos telefonemas. Que elas me perdoem.
As contorções do mundo seguem nos atemorizando. O desfecho da crise diplomática entre os EUA e o Brasil representa uma saída menos temerária ao cenário de riscos desenhados, com razão, nos principais jornais brasileiros. O clima inspira cuidados. Nem Donald Trump atribui durabilidade às próprias colocações.
No engenho de dentro, neste canto, o Maranhão, não se avizinham grandes notícias. Orleans Brandão está como jamais à vontade para pleitear a cadeira, a caneta e o mau gosto de seu tio. Que os encantados, Clara Madeira, Rasylla, Paulão, Nicole, Núbia e as noites no Léo e no Carlos sejam, mesmo e ainda, o lado estelar deste mau tempo.
Tenho gostado ainda mais do que sempre amei; é tempo de reafirmação: Guinga, Tavito, Dusek e Gilberto Braga, por quem sigo apaixonado em dobro desde a leitura da biografia escrita por Artur Xexéo e Maurício Stycer. Suspirei em cada acorde de Saiba Rapaz. Sérgio Habibe disse-me tudo de imaginação e sonho em Dia de Será, Panaquatira e Cavalo Cansado. Introspecção. Saudade. Junho é quase e só alegria. O TCC foi defendido; rei morto, rei posto. Mais amigos que nunca: Caio, Terra, Leo Viana. Só voltei à música por conta de Caiozito. A casa dos meus avós ainda é cheia de amor, e eles nem estão mais lá.
Sigo ansioso pelo novo álbum dos Tropix. o melhor show da cidade. Ari Sousa faz bem a qualquer um que lhe ouça. Brági é maravilha que não cessa. Os Quatro Cantos vêm aí. O Lúdico, os lampiões e as ruas cheias de luz. O Agente Secreto, sim. Lux, sim, com ressalvas. Sei, no íntimo, que é preciso experimentar uma nova forma de viver tudo o que sei, para descobrir o que eu não sei. Externo à Kury, do lado de lá, mais raios de sol. Contra a patética Vale Tudo (2025), só Vale Tudo (1988). Eu ainda estou triste por não ter conseguido.
Não que fosse otimista a minha espera para o ano que passou. O encarei ao menos como uma etapa branda, depois de muitos sentimentos experienciados em 2024. De certo modo, até esta hora em que escrevo, intento cumprido. Marasmo redobrado. No porvir, sempre a desautorização de quaisquer certezas.
Ela sabe que somos dois meninos descobrindo o céu. Os bilros ainda seguem rolando. A teimosia é o precioso princípio, até que o coração se prostre.
Saudade do Lô Borges.
Um abraço em Leozinho.
Feliz.




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