Seremos?


Ânimos à flor da pele antecedem o jogo decisivo da Copa Libertadores da América.


O ex-jogador do Flamengo e atual técnico do clube, Filipe Luís, empunhando a taça de campeão da Copa Libertadores da América. Foto: Gilvan de Souza / Flamengo / Divulgação.

Me adianto, imediatamente, para que não restem dúvidas: sou Vasco da Gama. De caso pensado, é verdade, sob a estima da ligeira aurora alvinegra, pros lados de São Januário, em 2011. Tempos de Dedé, Felipe e Alecssandro, três dos nomes mais proeminentes na campanha do clube ao longo do Campeonato Brasileiro – encerrado com o Vasco vice-campeão – e da Copa do Brasil daquele ano, o último título cruzmaltino de expressão nacional.

O alarido familiar também pesou em minha escolha, muito embora eu soubesse que o horizonte de interesses de meus tios, primos e irmãos não estima ao futebol um entusiasmo comparável a outros assuntos, como política e artes. A mera escolha do meu avô – o primeiro e mais influente vascaíno dentre os nossos -, se bem me recordo, esgueirava-se nas associações do Vasco com a classe trabalhadora e com os negros brasileiros. Mais adiante, suponho, parecia-lhe sedutor o desempenho espetacular do clube nos anos 1930 e 1940.

Digressões à parte, o meu gesto de autoproclamação futebolística é ulterior ao meu interesse pelo esporte. Aqui, por exemplo, descrevo o início de minha relação com o futebol, nos anos 2000. Sagrei-me, naqueles idos, não só um alucinado pela seleção brasileira como um torcedor do Flamengo, a minha primeira paixão.

E era por causa de meu pai, como quase tudo é. Se, para os homens com quem eu cresci, o futebol parecia nada mais que um espetáculo de adesão frouxa e descompromissada, com ele o modo de se interessar pela coisa ia além. Eram os 90 minutos de Flamengo em campo o signo comum entre nós; a hora nua do seu nonchalance. Via-lhe o cenho crispado e tenso se dissipar no grito tresloucado do locutor, para que, aí, sim, nos amássemos, pai e filho, sãos e entregues, sem o silêncio habitual de quase todos os nossos instantes.

Por isso, assistirei com ardor e festa ao jogo de logo mais entre Flamengo e Palmeiras. Quero crer que seremos; nalgum grau, sou parte disso. Ou melhor, o que se poderá extrair do resultado pouco me interessa. Só espero, às 18h, repactuar a saudade do amor deste homem que conheço e não conheço, e que tantas vezes só me pareceu feliz porque havia o Flamengo. E porque há Estação Derradeira. E porque há Vale Tudo (1988). E porque eu sou. 

Por isso, ao Leonardo, eu tive que recusar o churrasco e a cerveja de logo mais.

Coisas da Psicanálise.

Coisas de pai e filho.

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