Causos de Botequim


Inspirado em bebedeiras reais e em estórias nem sempre tão verdadeiras.


A Sociedade do Copo já teve um quadro de causos, o “Curtinhas”, idealizado por Leonardo. Circunstâncias (batíamos em todo mundo, e era desgastante lidar com o troco) nos fizeram mudar as prioridades. Eu, entretanto, continuo muito atento às estórias fantasiosas, engraçadas, mentirosas e, em último caso, verdadeiras, contadas e vividas nos botequins. Aqui, algumas das últimas.

DOIS REAIS
Um rapaz chega ao Butiquim do Carlos e é atendido gentilmente, conforme a praxe do dono. Ele pergunta, sem a mesma sutileza:
– O que dá pra beber aqui com dois reais?
– Bem… não dá pra beber nada.
– Não dá pra comprar nada?
– Pra comprar dá. Dá pra comprar um cigarro.
O rapaz, impositivamente, joga os dois reais no balcão e finaliza: pode ficar com o troco.


AMIZADE
Que o cachorro é o melhor amigo do homem todo mundo já sabe, Vinicius de Moraes alertou. E disse ainda: “O cachorro é o whisky engarrafado”. Mas a tia de um colega elevou a tríade bebida, cachorro e amizade a outro patamar. Sempre que é derrubada pela cachaça, ela se encosta na cadeira, deixa os braços caídos e espera o fiel companheiro se achegar, sorrateiro, para beber do copo dela.


“UM DÓ”
Também no Butiquim do Carlos, o histórico sanfoneiro maranhense Eliésio chega e se depara com uma mesa repleta de músicos. Depois da canja, ele me pergunta:
– Tu não vai tocar?
Respondo que não sou músico, ao que ele insiste:
– Sabe fazer um dó?
– Sei!
– Então já dá pra enganar!


COMPOSITOR CHATO
Cesar Teixeira fala sempre com admiração de um compositor alcunhado de “Chato”, já falecido. Intrigado para saber mais sobre o autor, pergunto a Leonildo, dono do Bar do Léo:
– Seu Léo, o senhor já ouviu falar de um compositor conhecido como Chato?
Me arrependi da construção da frase um segundo depois. Bola erguida para o arremate de Léo: apelidado de Chato não, mas já conheci um monte que é bastante.


MANTRA
Embriagado, sem grana para pagar a conta e recém-solteiro, Marcos afirma repetidamente a máxima: homem só presta bêbado, liso e apaixonado.


DINHEIRO PARA O VELÓRIO
Passados seis meses desde a última ida ao bar habitual, o malandro retorna. Entre os abraços calorosos, um camarada, atônito, pergunta:
– Tu não tinha morrido? Teu irmão me ligou chorando e pedindo ajuda!
– Que isso, rapaz…
– Me disse que precisava de 1.500 reais para o velório.
Um terceiro, já gargalhando, pergunta:
– E tu deu o dinheiro?
– Eu mandei 2.000 reais!


ANIVERSÁRIO
14 de outubro, aniversário do mitológico compositor paulista Eduardo Gudin. Aciono alguns amigos e ajudo a mobilizar uma comemoração no Bar do Léo – mais desculpa para reunir a turma do que qualquer outra coisa.
Mesmo sem divulgação – apelidamos o evento de “terça clandestina’’ – houve acolhimento do bar e do público.
Uma figura um pouco distraída se aproxima e pergunta: qual é a motivação para a apresentação?
Digo: é aniversário do Eduardo Gudin.
-Quem?
-Eduardo Gudin, compositor paulista.
Meio desconfiado, ele arrisca:
-E ele já chegou?

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