Botequins da Ilha #5 – Bar da Keila


Na quinta edição do Botequins da Ilha, um dos principais núcleos de sociabilidade nas imediações da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).


Bar da Keila. Foto: Juan Terra.

Por Paulo Vinícius Coelho e Juliano Amorim

“Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei, jovem que desce do Norte pra cidade grande…”

Os versos de Fotografia 3×4 (Belchior) ajudam a ilustrar a minha trajetória de migrante que veio do interior do Maranhão para a capital com o principal objetivo de cursar o ensino superior. Diriam os coaches que a adolescência longe de casa representou uma “trilha de autoconhecimento” ou coisa assim. Fato é que conheci algumas dores e outros prazeres antes de boa parte dos meus amigos. E, entre os prazeres, o álcool. Os primeiros porres, as primeiras garrafas de vinho barato, os primeiros transtornos, as primeiras experiências com a embriaguez… tudo isso começou cedo, antes do ingresso na faculdade.

Mas essas incipientes aventuras etílicas pouco me colocaram em contato com alguns valiosos aspectos associados ao bar, para além da bebida. Falo da sociabilidade, das amizades feitas nas mesas de biroscas, dos balcões transformados em confessionário, das calçadas ocupadas por cadeiras e de tudo mais que transforma o botequim — esse espaço físico geralmente pequeno — em um respeitável microcosmo no qual a alegria e a tristeza são abrigadas serenamente ou potencializadas em ritmo de batuque.

A esses matizes, eu tive acesso de maneira autêntica quando me matriculei no curso de Jornalismo e, simultaneamente, ganhei o passaporte para os bares que circundam o campus. Digo orgulhoso: nunca matei aula para ir ao bar. Mas também nunca deixei de aproveitar as oportunidades de cruzar o portão que divide a UFMA do Sá Viana para gastar as tardes — e o meu parco dinheiro — nas mesas dos bares, principalmente no Bar da Keila.

Discreto e familiar, o pequeno espaço a poucos metros da Universidade Federal do Maranhão segue, há duas décadas, como o esteio de gerações de estudantes, com finalidades diversas: rota de fuga, quando das aulas mais tediosas; guarida nos intervalos ou entre os compromissos desmarcados; taberna de amenidades e de acaloradas discussões políticas (era assim, ao menos há alguns poucos anos) e, claro, a baiúca donde se consumam as celebrações e os derradeiros porres após as apresentações de TCC. 

À frente do balcão, Keila rege o cenário. “A maioria das pessoas diz que vem aqui por causa de mim”, diz ela, ao referir-se à sua relação com os fregueses – muitos deles trabalhadores e moradores da região, além dos universitários. Semblante terno e voz ora arredia; simpatia sem par e riso vacilante contrastam com uma aparente sisudez à primeira vista. “A gente [que trabalha em bar] tem que estar sempre atento”, justifica. 

Keila nas dependências de seu estabelecimento. Foto: Juan Terra.

Apesar de a relação entre a proprietária e o botequim resultar, no imaginário dos frequentantes, como indistinta, a história que antecede a presença de Keila no bar homônimo tem origem familiar. “Minha mãe tomava conta do ponto junto com meus tios”, diz ela, ao recordar a origem do projeto, nos anos 1990.

Por duas décadas, enquanto Keila concluía os estudos, o empreendimento manteve esta configuração, até que a morte de sua mãe e o desinteresse de seus tios pelo estabelecimento, no fim dos anos 2000, resultou em novo estado de coisas: Keila ascendeu ao fronte do bar e o rebatizou, adaptando-o à configuração conhecida por todos, atualmente. 

Diferentemente quando cheguei à universidade, em 2019, quando o Sá Viana parecia sempre cheio, independentemente do dia da semana, o fluxo de estudantes ávidos por divertimento se tornou mais irregular. “Eles vêm mais nos dia de quarta”, explica Keila, que menciona o bar vizinho, o Bambu – sede dos eventos realizados por atléticas universitárias, sempre às quartas-feiras – como um propulsor e parceiro no crescimento do comércio da região, em particular neste dia da semana.

Na aresta da empolgação propiciada pelo Bambu Bar, cuja atividade se encerra às 20h, o Bar da Keila acolhe o after. O rendimento nos dias seguintes, no entanto, não se mantém, o que contrasta com a forma como conheci a relação entre a vida universitária e sociabilidade filtrada sob o consumo do álcool, anos antes. 

No meu tempo (dedo em riste!), havia uma espécie de iniciação etílica organizada de maneira quase acadêmica, no local. Os “veteranos” levavam os “calouros” para o bar, pagavam algumas cervejas e acompanhavam o desabrochar dos “bichinhos”. Fui ao Bar da Keila várias vezes às segundas e terças-feiras, no começo da tarde, acompanhado de amigos que se olhavam e se perguntavam: “O que diabos a gente está fazendo aqui agora?”, enquanto observávamos outros grupos que possivelmente repetiam o mesmo questionamento.

Não era alcoolismo, acredito. Mas antes uma empolgação com o que se passava por ali. E não se tratava apenas de um fulgor juvenil ou, como pensavam os mais conservadores, de inconsequência e pouco caso com os compromissos estudantis. No Bar da Keila havia uma combinação de gente oriunda de contextos muito diversos. 

Penso no processo de expansão do acesso ao ensino superior, responsável por tensionar o hermetismo da dinâmica de classes no Brasil, de modo que — para utilizar uma bonita cena que se popularizou no imaginário brasileiro — a filha da empregada dividisse os bancos com a filha do patrão. Sem querer romantizar demais a coisa, mas elas também dividiam a mesa do botequim. E mais: a filha do patrão ainda nos salvava com a conta muitas vezes, porque, repito, o dinheiro era parco.

Digressões à parte, provoco Keila comentando a mudança no modo como os estudantes se relacionavam com o bar, anos atrás. A pandemia, para ela, foi a principal ruptura nos hábitos de consumo, os quais, até hoje, nunca mais retornaram aos padrões da década anterior. Quanto à hipotética “caretice”, dentre outras suposições sociológicas nada responsáveis, ela se furta, abre um sorriso, titubeia e exclama um “é!”, como que ponderando. O imediato erguer das sobrancelhas me faz pensar que ela assentiu à minha afronta. 

Mas acho que bebi demais.

E que saudade da “3 por 10”.

Texto: Paulo Vinícius Coelho e Juliano Amorim

Produção: Juliano Amorim e Juan Terra

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