Entrevista com Beto Guedes: “eu me sinto em casa no Nordeste’’


Enchendo o Copo com o cantor, compositor e multi-instrumentista Beto Guedes, principal atração do Festival Lençóis Jazz e Blues.


Foto: Guto Cortes/ Lençóis Jazz e Blues

Eram ternos os rostos que aguardavam Beto Guedes entrar em cena na Concha Acústica da Lagoa da Jansen, em São Luís, para encerrar o Lençóis Jazz e Blues Festival. Antes dele, se apresentaram Wendell de La Salles Regional com a convidada Virna Lisi, além do Jayr Torres Quarteto.

Igualmente terno era o sorriso do cantor, compositor e multi-instrumentista mineiro quando subiu ao palco e começou a interpretar suas canções de esperança diante de um público seduzido, que acompanhava o show com paixão e cantarolava cada música. Antes mesmo da metade do espetáculo, a plateia — composta por fãs de diferentes gerações, de contemporâneos do artista a jovens curiosos em conhecer, ao vivo, um dos nomes centrais do Clube da Esquina — já se levantava para aplaudir as canções. No bis, boa parte do público desceu as escadas para ficar mais próximo do palco. Gestos que revelam o que Beto Guedes representa para a música brasileira e para os milhares de fãs conquistados ao longo de 50 anos de carreira.

Na sexta-feira, 24 de outubro, chegamos cedo à Concha Acústica para entrevistar o artista. A conversa aconteceria após a passagem de som, mas estávamos ali meia hora antes do combinado — sintoma de uma ansiedade cultivada muito antes do anúncio do show, afinal, o mineiro já figurava no nosso caderninho de entrevistados prioritários desde o surgimento da Sociedade do Copo. Além dos membros habituais, fomos acompanhados por Chico Neis, violonista; Gabriela Flor, percussionista e professora de música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA); e Nilson Cardoso, engenheiro e músico. Três “betoguedianos”, como Gabriela gosta de definir, motivados pela oportunidade de ver e conversar com o ídolo.

Assistimos à passagem de som da banda de Beto Guedes — Will Mota (teclado), Ian Guedes (guitarra), Adriano Campagnani (baixo) e Arthur Rezende (bateria) — com uma pequena apreensão causada pelo atraso no ensaio. Já se aproximava o horário de início do festival quando Beto Guedes chegou, plugou sua guitarra e tocou alguns, poucos, acordes. No fim, tivemos a oportunidade de conversar com o artista sobre sua presença em São Luís e a turnê de 50 anos de carreira. Confira:

Paulo Vinícius Coelho
Beto, queria começar te perguntando como é voltar para São Luís; quais as tuas impressões sobre a cidade e qual é a expectativa para o show de hoje?

Beto Guedes
Eu sempre gosto muito de estar no Nordeste. Eu nasci em Montes Claros, mas tenho uma família grande – cinco mulheres e três homens – e são todos baianos. Apenas eu e um irmão mais novo nascemos em Minas. O pessoal até me chamava de baianinho quando eu mudei para Belo Horizonte. Então, eu quando venho mais pra cá pra cima, eu me sinto mais em casa do que no Sul.

Paulo Vinícius Coelho
É, teus pais eram baianos e teu pai [Godofredo Guedes] era um chorão [instrumentista do gênero], né? Queria saber como é que foi essa tua infância e a relação com a música em casa.

Beto Guedes
Eu vivi nesse meio. O meu pai, aos sábados, juntava com a galera dele, os amigos lá e ia pro quintal e ficavam tocando chorinho. E isso era praticamente todo sábado. Então eu tive essa influência forte escutando chorinho, música clássica e outras coisas que meu pai gostava de ouvir.

Paulo Vinícius Coelho
E os teus álbuns sempre contam com uma música do teu pai. Isso foi intencional ou aconteceu por acaso e foi se mantendo?

Beto Guedes
Meu pai até tentou carreira. Mas na época dele, todo mundo tinha que ir pro Rio de Janeiro para se estabelecer. Nem São Paulo era canal, era o Rio mesmo. Naquela época as estradas de Montes Claros para Belo Horizonte eram de terra e ele tinha a família, então ficou inviável manter a carreira. Aí depois que eu comecei esse trabalho todo com Milton [Nascimento] e Lô [Borges], eu consegui atingir o país. Então pensei “eu vou continuar o trabalho dele, vou botar em cada disco meu uma canção dele”. Foi assim durante todo o meu trabalho.

Leonardo Alves
Beto, aproveitando que você mencionou o Lô e o Milton. Eu queria retornar nesse começo da carreira pra pedir uma comparação tua, porque o Clube da Esquina era um movimento, era coletivo. Como você sente a diferença no processo criativo quando trabalha em grupo e no trabalho solo?

Beto Guedes
A gente, na verdade, nunca trabalhou em coletivo. No meu caso, eu sempre faço a música e depois de pronta eu penso pra qual poeta eu vou mandar. De repente, talvez o Ronaldo Bastos faça melhor, numa outra talvez o Marcinho [Márcio Borges]. E vou escolhendo mais ou menos pelo jeito que o cara escreve.

Foto: Guto Cortes/ Lençóis Jazz e Blues

Leonardo Alves
E, Beto, aí já vão 50 anos de carreira e você agora está em turnê com essa data comemorativa…

Beto Guedes
É, na verdade, eles arranjam um motivo, né? [risos]. Eu tô na estrada, porque o negócio é esse mesmo. De certa maneira, a gente se acostuma com essa vida. E tem as contas pra pagar, né? 

Leonardo Alves
E ao mesmo tempo o teu público vai se renovando. Eu queria saber como é ver o público jovem acompanhando esses teus shows recentes.

Beto Guedes
É, tem um pouco. A base fica, né? De repente o cara que me viu pela primeira vez, quando nem casado era, agora já tá com filhos e vai mostrando para as crianças. Muita gente me conhece através dos pais, e isso é bacana.

Paulo Vinícius Coelho
É, uma coisa interessante é que a juventude comprou esse show de hoje de maneira muito forte. A gente vai ter uma plateia cheia de jovens. Não é curioso pra ti saber como a tua música chegou em tanta gente de uma outra geração?

Beto Guedes
Sim, e acho que isso se deve mesmo aos pais, que vão repassando a mensagem.

Gabriela Flor
Beto, eu acompanho o seu trabalho desde muito pequena. Eu sou fã. Eu acho que é atemporal mesmo, né? Eu com 12 anos te tinha como maior ídolo. Foi assim durante toda a minha adolescência. E tem uma música que sempre me deixou muito curiosa pra compreender um pouco mais do que tu queria expressar, que é a Página do Relâmpago Elétrico [1977, presente em álbum de estreia homônimo de Beto Guedes].


Beto Guedes
Eu faço mais a parte de composição: a harmonia e a melodia. No caso dessa música eu mandei para o Ronaldo [Bastos] letrar e veio aquela coisa cheia de história, meio fantasiosa, meio inexplicada. Eu não sei bem direito dizer o que é. Na verdade, tem horas que nem eu mesmo sei o que o cara fez. A Feira Moderna [1978, presente em Amor de Índio], por exemplo, até hoje eu não tenho a menor ideia do que é a Feira Moderna. Mas eu canto assim mesmo, tá?

Nilson Cardoso
Na parte de composição, eu queria saber como é o seu envolvimento com a parte de teoria, de estudo…se tem uma escola ou isso tudo foi intuitivo, ou a partir de amigos…

Foto: Guto Cortes/ Lençóis Jazz e Blues

Beto Guedes
Sempre foi na base do ouvido mesmo. Gostaria de ter estudado um pouco mais. Teve uma época que eu pensei mais nisso, ficava pensando em quem, por exemplo, pega uma nota, começa a cantar e diz “isso é dó”. A pessoa identifica…vai cantando as notas…

[Beto começa a cantarolar notas no ritmo de Meu Mundo e Nada Mais, de Guilherme Arantes, 1976]

Agora pega isso e vai fazer no piano. Você que é professora [aponta para Gabriela], leva para os meninos e faz um desafio. Não é fácil.

Paulo Vinícius Coelho
Eu lembro de ler uma entrevista sua em que tu dizia que sempre respondia as mesmas perguntas 40, 50 vezes. Mas teve algo que tu já quis dizer em uma entrevista e ainda não teve a chance?

Beto Guedes
Acho que eu disse tudo…quer dizer, isso que ele [Nilson] me perguntou, é algo interessante. Eu há muito tempo tô pra fazer isso, de pegar um maestro desses aí e estudar.

Gabriela Flor
E mesmo sem essa teoria você é um excelente arranjador…

Beto Guedes
Eu vou anotar o telefone dela [Gabriela] e vou mandar um vídeo tocando saxofone e tenor e um arranjo de cordas que eu fiz, pra você ver.

Nilson Cardoso
Então você vai experimentando tudo que é instrumento?

Beto Guedes
Diz o Flávio Venturini que tudo que eu pego eu toco.

Leonardo Alves
Um último pedido que a gente sempre faz para os nossos entrevistados. Uma indicação e uma contraindicação.

Beto Guedes
Bom, eu me deparei com uma música do Lyle Mays chamada Highland Aire. Essa música tem sete minutos. No quinto minuto vocês procurem saber o que esse cara fez. Ele fez uma coisa infernal. Isso pra você [aponta para Gabriela] vai ser uma maravilha. Eu tô até hoje completamente pirado tentando saber o que é, porque o cara tá em quatro [em referência ao compasso] e o contrabaixo toda hora tá num lugar. É muito lindo. Deve ser uma delícia tocar aquilo.

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