
A primeira vez em que conversei com Mavi Simão coincidiu com uma importante tarefa: a entrevista que daria o pontapé inicial à cobertura do Maranhão na Tela nesta Sociedade do Copo. Era uma tarde de sábado em que eu, Beatriz Benetti e Juliano Amorim nos encontramos com a cineasta para um breve papo sobre as origens do festival, os desafios ao longo dos anos e a expectativa para mais uma edição.
O festival idealizado por Mavi chegou à maioridade em 2025, mas apesar da já consolidada presença no calendário dos mais importantes eventos culturais do estado, uma preocupação revelada pela cineasta me manteve intrigado pelos dias seguintes. Ao contar que para cada edição concretizada existe a incerteza do retorno do Maranhão na Tela no ano seguinte, Mavi demonstrou justamente um dos principais motivos de seguir com os trabalhos.
Não se trata de haver algo a ser provado. As 18 edições somam elementos mais que suficientes para atestar a relevância e o impacto do festival para o cenário do audiovisual maranhense. Ocorre, no entanto, que a cada anúncio das datas, a cada filme de abertura, a cada presença de convidados de outras localidades e, principalmente, a cada pessoa que se senta para assistir aos filmes selecionados, o Maranhão na Tela demonstra o poder de permanência e de reflexão contido na arte, na cultura e, no caso, na imagem.
São inúmeras as possibilidades de debates e resultados a partir destes eixos que permeiam o cinema. Para destacar somente uma das discussões e traçar um contraponto com a mencionada dúvida da realização do festival a cada ano, vale dizer que, novamente, o Maranhão na Tela escancarou o profundo e crescente interesse da população em pensar, produzir e consumir cinema. Tal aspecto é uma constante também em outras artes, que infelizmente ainda são comumente postas em segundo plano pela administração pública, em grau maior ou menor a depender de gestores e panoramas de cada época. O fenômeno, por outro lado, é revelador do caráter de resistência de cada manifestação cultural, presente em cada obra e em cada artista.
Mais que isso, as batalhas pelo reconhecimento das autoridades e o consequente fomento à arte e à cultura representam um fio-condutor que agrega gerações e movimentos distintos aos mesmos objetivos. E, nesse sentido, cabe elencar alguns dos motivos pelos quais acredito que o Maranhão na Tela seja um verdadeiro case de sucesso.
O que rolou de melhor na edição
Uma das principais novidades para 2025 foi a Mostra Los Terroríficos, pensada como uma maneira de exaltar o cinema de gênero latino-americano. Foram cinco longas-metragens que trouxeram o melhor da fantasia que só o nosso continente é capaz de entregar, entre trabalhos de Brasil, Argentina, Colômbia e Uruguai.
A presença de realizadores estrangeiros possibilitou uma integração que tende a elevar o nível dos debates e produções, com um intercâmbio que revela pontos de convergência e particularidades do audiovisual feito em cada país, sempre com criatividade afiada para subverter e provocar com terror, suspense e drama. É o princípio de um caminho extremamente pertinente para a internacionalização do Maranhão na Tela e de nossos talentos.
Outra discussão que o festival nos permite travar diz respeito aos polêmicos descompassos entre o cinema independente e o circuito comercial. Muito embora a questão seja pauta frequente entre realizadores e distribuidores de cinema, também é verdade que os impasses do mercado audiovisual parecem, muitas vezes, não andar para qualquer destino, caindo nos mesmos lugares comuns e ciclos viciosos.
Parte desse problema, acredito, está relacionada a uma espécie de dicotomia tratada em geral como absoluta. Me refiro ao cenário da distribuição dos filmes, um ponto central para se compreender a cadeia distributiva do Brasil. Enquanto filmes independentes ou de orçamentos mais baixos até chegam aos festivais, predominam nos cinemas de rede os multimilionários blockbusters estadunidenses, com poucas salas ou mesmo ausência completa de espaços dedicados à exibição de obras brasileiras. Nesse contexto, enquanto os nossos filmes estão em um ponto, o grande público está em outro.
O Maranhão na Tela, no entanto, faz um movimento na contramão dessa tendência a isolar os fatores. Ao promover o festival dentro de um cinema de rede, unem-se ao mesmo tempo qualidade técnica de som e projeção, ocupação de salas normalmente restritas às produções Hollywoodianas e, mais importante, alcance e ampliação do público. Outras muitas nuances ainda podem ser levantadas, mas é fato que a ideia ousada rendeu bons resultados, o que se afere pelo enorme público que compareceu às programações.
Tratando-se de público, então, temos um capítulo à parte. A capacidade de mobilização, sempre um ponto sensível das realizações culturais, foi um grande destaque do festival. Na abertura, com a sessão especial de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, foram necessárias três salas inteiras para comportar os espectadores e, ainda assim, não foi o suficiente. Ainda que seja chato ficar de fora da festa, é maravilhoso que um festival de cinema faça o que fez o Maranhão na Tela. O shopping foi tomado por uma fila de curvas e mais curvas. O caracol humano tinha pessoas de todas as idades, vindas de todos os cantos, em comum, a ansiedade para ver o longa-metragem, até então exibido em apenas outras três cidades brasileiras. Para quem acabou perdendo a oportunidade, felizmente, o elenco liderado por Wagner Moura retorna às telonas em novembro, quando acontece a estreia oficial nos cinemas de todo o país.
Os sortudos que assistiram ao filme puderam ainda ser agraciados com as presenças carismáticas de três integrantes do elenco. Tomás Aquino, Ítalo Martins e Suzy Lopes acompanharam a sessão histórica. Tomás, inclusive, confessou à nossa reportagem ser a primeira vez que ele assistiria ao filme em que trabalhou. Antes de as luzes se apagarem, o sorriso fácil e sincero do pernambucano ajudava a entender o clima da noite. Mais alegria ainda ele teve com a homenagem ao amigo, o ator franco-brasileiro Antonio Saboia. Filho de um maranhense, Saboia se mostrou emocionado com a lembrança do festival e com a mostra dedicada à sua carreira, com a exibição de curtas e longas dos quais participou, incluindo Ainda Estou Aqui.
Muito embora o drama histórico dirigido por Walter Salles dispense maiores apresentações a essa altura, o filme protagonizado por Fernanda Torres é um bom ponto de partida para se compreender um fenômeno que talvez seja repetido nos próximos meses. Se a história de Eunice e Rubens Paiva emocionou o país e movimentou debates sobre e a partir do cinema nacional, são grandes os indícios de que O Agente Secreto volte colocar a sétima arte como um dos grandes assuntos no Brasil.
Com dois prêmios no último Festival de Cannes, um para KMF e outro para Wagner Moura, o filme já desponta como uma aposta para buscar mais prêmios na temporada. Reforçam essa possibilidade a recente confirmação de que o drama será o concorrente brasileiro a uma vaga entre os indicados a Melhor Filme Internacional no Oscar e a distribuição nos Estados Unidos já confirmada pela Neon, que tem sido destaque nas últimas edições com seus filmes, a exemplo de Parasita e Anora.
Confirmada ou não a hipótese, fato é que o público de São Luís poderá dizer com orgulho que foi um dos primeiros do país a ver o filme, uma afirmação da importância de eventos com investimento e longevidade como o Maranhão na Tela.
O futuro: uma imagem em construção
São muitos os saldos positivos dos 18 anos de Maranhão na Tela. Apesar das grandes realizações até aqui, há sempre margem para melhorar, avançar, inovar. Em comparação com outros eventos similares, a exemplo do próprio Guarnicê, o Maranhão na Tela é ainda bastante jovem, mas já se porta com a maturidade digna de um senhor festival. E, talvez seja justamente este pêndulo entre a experiência e o desejo de crescer que indique a face mais importante do Maranhão na Tela.
Na já mencionada entrevista às vésperas do festival, Mavi Simão destacou como a ideia por trás da criação do seu “filho” girava muito em torno da vontade de ver o nosso cinema ganhar espaço e alcançar níveis mais elevados de reconhecimento e alcance, como ele de fato merece. Da primeira edição para cá, alguns pontos-chave que ilustram as mudanças de cenário podem ser observados, como o surgimento e a consolidação da Escola de Cinema do IEMA (Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão). Com isso, Mavi revela que sentiu um “alívio” em relação à lacuna de capacitação técnica no estado, o que lhe permitiu, por exemplo, voltar os esforços para formações executivas, com o fomento de um ambiente de negócios e de gestores.
Assim, passo a passo, notamos a construção de um ecossistema protagonizado pela nossa gente, que faz e consome cinema para os nossos. As gerações pioneiras, que tanto fizeram para que avançássemos, podem e devem passar o bastão para quem teve nelas a inspiração para dar continuidade a essa história.
Com o Maranhão na Tela a cada ano mais consolidado como um indispensável evento do calendário cultural do estado, não restam dúvidas sobre o tamanho deste que é um verdadeiro movimentador da cidade. Movimento esse encontrado nas imagens, que pelo princípio da inércia, acabam também por movimentar os maranhenses. Na tela, em frente a ela ou nos bastidores que fazem tudo acontecer, o Maranhão segue adiante com a nobre habilidade de registrar o passado, o presente e o futuro.
Confira abaixo os premiados da 18ª edição do Maranhão na Tela:
Premiação Videoclipe
Melhor Videoclipe
Essa Moça – Lena Garcia
Melhor Direção de Videoclipe
Tássia Dhur // Complicado – Klicia
Melhor Direção de Fotografia de Videoclipe
Sunday James // Maré Cheia – Gugs feat. Zeca Baleiro
Melhor Direção de Arte de Videoclipe
Dani Lopes // Baião de Cazumbá – Forró do Mel
Melhor Montagem de Videoclipe
Adam Fragoso // Melô do Bolado – Criola Beat
Melhor Performance de Videoclipe
Rosa Reis e Cacuriá Balaio de Rosas – Gira Meu Balaio
Melhor Videoclipe Júri Popular
Complicado – Klicia
Premiação Curta-Metragem
Melhor Filme de Curta-Metragem
Catty Bete
Melhor Direção de Curta-Metragem
Julia Rantigueri e Ana Hortência Egito – Dona Cecília
Melhor Roteiro de Curta-Metragem
Mariel Haickel – Catty Bete
Melhor Direção de Fotografia de Curta-Metragem
Taciano Brito e Caio Oviedo – Mala Preta
Melhor Direção de Arte de Curta-Metragem
Davy Amaral e Mariana Madeira – Mesa Posta
Melhor Montagem de Curta-Metragem
Lucas Sá – Cata
Melhor Som de Curta-Metragem
Juan Gusmão, Luiza Fernandes, Neto Silva, Victor Eduardo e Gabriel Portela – Silêncio na Boiada
Melhor Ator de Curta-Metragem
Paulo Balistrieri – Mala Preta
Melhor Atriz de Curta-Metragem
Stephanie Félix – Catty Bete
Melhor Ator Coadjuvante de Curta-Metragem
Rafael Lozano – Mala Preta
Melhor Atriz Coadjuvante de Curta-Metragem
Lúcia Reis – Catty Bete
Melhor Filme de Curta-Metragem Júri Popular
Catty Bete
Menção Honrosa do Júri
Crianças do Gurupi
Premiação Longa-Metragem
Melhor Filme de Longa-Metragem
Matamortes
Melhor Direção de Longa-Metragem
Thiago Martins de Melo – Matamortes
Melhor Roteiro de Longa-Metragem
Thiago Martins de Melo – Matamortes
Melhor Direção de Fotografia de Longa-Metragem
Carlinhos Ficha – Boi Orgulho de Pinheiro do Mestre Valmir
Melhor Direção de Arte de Longa-Metragem
Laura Lisboa – Terra de Drag de Salto com Elas, o Filme
Melhor Montagem de Longa-Metragem
Dani Lopes – O Teatro Te Xama: Família de Criação
Melhor Som de Longa-Metragem
Abel Duarte – Matamortes
Melhor Ator de Longa-Metragem
Rhamon Einstein – Terra de Drag de Salto com Elas, o Filme
Melhor Atriz de Longa-Metragem
Elenco feminino de O Teatro Te Xama: Família de Criação
Melhor Ator Coadjuvante de Longa-Metragem
Jeferson Plácido – Terra de Drag de Salto com Elas, o Filme
Melhor Atriz Coadjuvante de Longa-Metragem
Maria Ethel – O Teatro Te Xama: Família de Criação
Melhor Filme de Longa-Metragem Júri Popular
Terra de Drag de Salto com Elas, o Filme





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