
“Sinceramente, Sérgio”. O título do novo documentário sobre Sérgio Sampaio não poderia ser mais adequado. Dirigido por Hugo Moura e em fase final de montagem, o longa é “como uma correspondência do compositor para si mesmo e para o mundo”, afirma o realizador. Contudo, “nós não somos só o que pensamos, então, a visão do outro é importante. A voz condutora é a do Sérgio, mas teremos alguns depoimentos, dez no máximo”, complementa.
O filme é produzido pela BigBonsai, agente responsável pela assinatura dos documentários O Barato de Iacanga (Thiago Mattar) e Luiz Melodia – No Coração do Brasil (Alessandra Dorgan), este último sobre outro artista a também ter recebido, por setores da imprensa e da crítica, a infeliz pecha de “maldito da MPB”, resultado da sua insubmissão diante das gravadoras.
Com previsão de lançamento para o ano que vem, a equipe de Sinceramente, Sérgio ressalta que não pretende gerar falsas expectativas sobre o dia da estreia. “Agora nós estamos no momento de conversar com profissionais do audiovisual, discutir e entender as melhores estratégias para o lançamento” declara Hugo.

No instagram com o mesmo título do filme, a equipe de produção faz uma espécie de “diário de bordo’’ informando aos fãs as novidades da obra e publicando trechos de entrevistas raras, obtidas a partir de fitas e outros materiais remasterizados. O conteúdo é oriundo de acervos diversos que vão desde canais de televisão (a exemplo da Globo, da Record e da EBC), até fitas guardadas por amigos de Sérgio, algumas encontradas em processo já avançado de deterioração. Os registros foram recuperados e digitalizados pelos laboratórios Procimar Cine-Vídeo e Video Shack Audiovisual.
Questionado sobre como tem lidado com o processo de curadoria e montagem do filme e sobre a “angústia’’ de ter que deixar algum material importante de fora, Hugo se mostra sereno – e tranquiliza os fãs: “o filme vai ser uma ponte para tantas outras obras sobre o Sérgio Sampaio’’.
Um recado para Zeca Baleiro

Um dos colaboradores da obra é o maranhense Zeca Baleiro, responsável pela articulação que lançou o disco póstumo de Sérgio Sampaio, o Cruel (2006). O álbum, produzido pela Saravá Discos, selo do artista maranhense, é resultado da remasterização de fitas guardadas por Angela, viúva de Sérgio; João Sampaio, filho de Sérgio, e alguns amigos do compositor capixaba, natural de Cachoeiro do Itapemirim.
Mas a relação entre Zeca Baleiro e Sérgio Sampaio começa bem antes da produção do álbum-homenagem. Em 1989, os dois artistas se conheceram no Rio de Janeiro e Zeca, ainda no início da sua carreira como cantor e compositor, também tentava emplacar uma revista cultural editada em São Luís, a Umdegrau. A ideia do maranhense era que Sampaio estreasse a seção de entrevistas do periódico.
A revista, parafraseando Sampaio em Muito Além do Jardim, “durou o tempo exato da agonia do Tancredo” e encerrou-se logo na primeira edição, antes que Zeca recebesse a fita com as respostas. Porém, o envio não foi em vão: nela estava registrada a canção Maiúsculo, que encerra o Cruel.

No documentário de Hugo Moura, o público terá acesso, pela primeira vez, à íntegra das respostas de Sérgio Sampaio para a revista Umdegrau, além de outras raridades. O diretor cita ainda uma canção inédita inspirada no poema Trecho, de Vinicius de Moraes, e admite já sonhar com um Cruel – Parte 2. “Fica o recado para o Zeca Baleiro: te aguardo”, convida.
Muito além do Bloco na Rua
Sinceramente, Sérgio pode ser visto como parte de um movimento de resgate e valorização (tardio, talvez) da obra de um dos artistas mais peculiares da música brasileira. O lançamento de Cruel, a realização do Festival Sérgio Sampaio em Vitória e a Semana do Sampaio em Natal, além de várias outras homenagens, buscam evidenciar um compositor que vai muito além da canção que o projetou em 1972: Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua.
Em resenha publicada nesta Sociedade do Copo sobre Cruel, já havia sido dito: quem tem o azar de conhecer apenas o Bloco na Rua não teve a chance de apreciar um dos mais refinados letristas da nossa história. Vale lembrar que, no mesmo álbum em que apresentou o sucesso que se tornaria símbolo de carnaval, Sampaio advertiu em Pobre Meu Pai: “eu posso até brincar com o meu carnaval, mas o meu coração é outro.”
Os quatro discos lançados ao longo de sua carreira — Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (Phillips/Phonogram, 1973), Tem que Acontecer (Continental, 1976), Sinceramente (independente, 1982) e Cruel (Saravá Discos, 2006) — dimensionam uma trajetória marcada pelo lirismo, pela ironia, pelo amor e pela crítica social, quase sempre de maneira autobiográfica.
Hugo Moura resume: “É preciso romper com os limites impostos pela pecha de ‘maldito’ e pela redução de sua imagem à lembrança de Bloco na Rua. A prioridade do filme é respeitar sua figura, valorizar sua produção e reconhecer o espaço que ele merece na MPB. Bloco na Rua é muito pouco para identificar Sérgio Sampaio”.






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