Paulo por acidente


Um Paulo, um padre e outros nomes.


Paulo e outros nomes
Still do filme sobre a obra do ator Paulo José, que entrou na conversa porque também é xará.


Informa o dicionário que a palavra “xará’’ tem origem na língua tupi-guarani e significa “aquele que tem meu nome’’. Essa coincidência – muito frequente, no meu caso – desperta em algumas pessoas reações muito extasiadas, a exemplo da que presenciei no último final de semana, ao adentrar o Uber. Pouco tempo depois de iniciar a viagem, o meu xará, com uma indiscreta ansiedade, puxa o assunto:

-Você sabia que o meu Paulo ‘entrou’ no nome por acidente?

Eu, sem a mesma empolgação, pergunto -ah, é?

Depois do “então…’’o motorista começa a história, contada com invejável desenvoltura. Seu nome, a princípio, seria João, em homenagem ao avô materno. Isso estava decidido desde a descoberta do sexo da criança. Contudo, as intercorrências na gravidez fizeram com que a mãe tivesse o desejo de enaltecer, também, o médico responsável pelo acompanhamento da gestação. O menino, afinal, se chamaria João Anselmo.

Alguns meses após o nascimento, era chegada a hora do batizado. Naquele tempo (ai, naquele tempo!), as cerimônias de batismo representavam muito e consagravam um momento de fé, é claro, mas também de encontro e celebração – principalmente em pequenos municípios, assim como um desses em que João Anselmo nasceu, no interior do Maranhão.

No bendito dia, me conta o xará, centenas de crianças se aglomeravam para receber a purificação que lava o pecado original. Pais e padrinhos ansiavam pelo momento e se remexiam para encontrar o melhor ângulo para assistir a cerimônia. Mas havia, em meio ao clima sacro, uma certa impaciência, um desejo de cumprir logo o ritual. Pois, depois de horas na fila, quando chega a vez da mãe do nosso personagem batizar a criança, o padre pergunta: -Qual é o nome do seu filho?

O tumulto àquela altura já era tanto que ela pronuncia “João Anselmo’’ ao mesmo tempo em que uma outra mãe, achando que a pergunta era para si, responde “Paulo!’’. O padre apenas sinaliza afirmativamente com a cabeça. Dias depois, no Livro de Batismo, o registro surpreende: “Paulo João Anselmo’’. 

Eu pergunto: e a sua mãe não contestou?

Ao que a sabedoria de Paulo finaliza: e ela vai discutir com o Santo Padre?

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