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Cinco artistas do palco e da canção


Uma seleção de cinco artistas brasileiras que brilharam tanto na atuação quanto na música.


Marília Barbosa. Foto: reprodução

A música que não sai da minha cabeça nos últimos dias é Caso Você Case, do compositor Vital Farias (1943-2025). Como ocorre sempre que estou gostando muito de alguma canção, passei a procurar outras versões além da presente no disco que a colocou no mundo, o álbum homônimo do compositor paraibano lançado em 1978. Esse disco, aliás, é o primeiro da carreira de Vital Farias e ficou marcado pela faixa de abertura, a Canção em Dois Tempos (Era Casa, Era Jardim), música também presente no Cantoria II, projeto que reuniu Elomar, Geraldo Azevedo e Xangai, além do próprio Vital, e resultou em dois trabalhos antológicos da música brasileira, gravados ao vivo no Teatro Castro Alves, em Salvador. Mas isso é tema para outra conversa.

O ponto é que a minha garimpagem virtual no Youtube chegou ao ápice ao identificar a sublime interpretação de Marília Barbosa de Caso Você Case. Confesso: somente lendo os comentários do Youtube eu descobri os trabalhos de Marília como atriz. Na música, me recordava em especial da sua interpretação de Colcha de Retalhos, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós.

Depois de continuar pesquisando, me ocorreu a possibilidade desta lista contendo outras artistas que atuaram de maneira brilhante tanto como atrizes quanto como intérpretes e/ou compositoras. Destaquemos cinco delas: 

Marília Barbosa iniciou sua trajetória artística como apresentadora de programas musicais na TV Globo, entre eles TV Fone e Noite de Gala. No mercado fonográfico, estreou em 1969 ao lado dos cantores José Ricardo e Victor Hugo no disco Para Viver um Grande Amor.

Como atriz, participou de diversas novelas e produções televisivas, incluindo Saramandaia (1976), À Sombra dos Laranjais (1977), O Astro (1977), Tieta (1989), Mico Preto (1990), Kananga do Japão (1989) e Amazônia (1992), além de integrar o elenco da minissérie Aquarela do Brasil (2000). No teatro, atuou na peça Vestido de Noiva e em espetáculos musicais homenageando Aracy Cortes e Roberto Martins, com direção de Ricardo Cravo Albin.

Ao longo dos anos 1970, Marília gravou diversas canções para trilhas sonoras de novelas da Globo, como Manequim (O Cafona, 1971), Tia Miquita (Minha Doce Namorada), Destinos (O Semideus), Uma Rosa em Minha Mão (Fogo sobre Terra, 1974), Amor, Amor (O Grito, 1975), Caso Você Case (Saramandaia, 1976), O Circo (Vejo a Lua no Céu), Eu Dei (Nina, 1977), Antes que Aconteça (Dancin’ Days, 1978), entre outras.

Lançou compactos pela Som Livre em 1974 e 1977, com músicas como Onde Anda Você (Vinicius de Moraes e Hermano Silva), Ai Amor (Freire Júnior) e Eu Dei (Ary Barroso). Em 1978, lançou o LP Filme Nacional, com repertório que inclui composições de Djavan, Rita Lee, Renato Teixeira, Roberto e Erasmo Carlos, Don Beto e Egberto Gismonti. O disco teve direção musical de Guto Graça Mello e arranjos de Lincoln Olivetti e Egberto Gismonti.

Em 1982, gravou o compacto com Senhora Meretriz (em parceria com Fernando Mendes, com quem foi casada) e Não Beba Mais Não. Dois anos depois, participou do disco Aldir Blanc e Maurício Tapajós, interpretando Colcha de Retalhos. Também gravou a faixa Tu Qué Tomá Meu Home com o grupo Nó em Pingo D’Água, no Songbook Ary Barroso, lançado por Almir Chediak em 1995.

No fim da década de 1990, radicou-se em Nova York, onde se apresentou em casas noturnas e atuou como professora em uma escola de música. De volta ao Brasil, em 2004, lançou o CD Música no Ar, com repertório autoral em parcerias com Paulo Debétio, Cristóvão Bastos e Paulinho Rezende. Em 2011, o selo Jóia Moderna relançou o álbum Filme Nacional em CD.

Zezé Motta

Foto: Tarcisio de Paula

Zezé Motta é um pilar da cultura brasileira. Iniciou sua trajetória nos palcos em 1967, como protagonista de Roda Viva, de Chico Buarque, sob direção de Zé Celso Martinez Corrêa. Atuou em peças como Arena Conta Zumbi, Godspell e Orfeu Negro, e consolidou-se no teatro musical e político.

No cinema, brilhou em títulos como A Rainha Diaba, Quilombo, Jubiabá, Tudo Bem e, sobretudo, Xica da Silva (1976), papel que a projetou internacionalmente. Na televisão, esteve em produções marcantes como Corpo a Corpo, Kananga do Japão, Xica da Silva, Chiquinha Gonzaga e Memorial de Maria Moura.

Como cantora, estreou em casas noturnas nos anos 1970. Lançou seu primeiro LP em 1975, ao lado de Gerson Conrad, e em 1978, o álbum solo Zezé Motta, com repertório de Luiz Melodia, Rita Lee, Caetano Veloso e Chico Buarque. Vieram depois Negritude (1979), Dengo (1980), Frágil Força (1984) e o projeto Quarteto Negro (1987).

Em 2000, lançou Divina Saudade, homenagem a Elizeth Cardoso. Entre seus grandes momentos como intérprete estão Magrelinha, Dores de Amores, Crioula, Trocando em Miúdos e Senhora Liberdade. Em 2011, apresentou Negra Melodia, e, em 2018, lançou O Samba Mandou Me Chamar, com participações de Arlindo Cruz e Xande de Pilares.

Em 2024, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Fiocruz e protagonizou o documentário Nas Garras da Felina, lançado por ocasião de seus 80 anos. No mesmo ano, estreou seu primeiro monólogo e levou ao palco o show Coração Vagabundo – Zezé Canta Caetano.

Dercy Gonçalves

Foto: arquivo do jornal O Globo

Dercy Gonçalves teve uma das carreiras mais longevas e irreverentes da história artística do Brasil. Nascida em 1907, em Santa Maria Madalena (RJ), começou nos anos 1920 como cantora de operetas e cançonetista em circos e teatros de revista.

Com presença de palco marcante e domínio do improviso, transitou com desenvoltura entre drama, música e comédia. No rádio, foi cantora e humorista. Gravou músicas cômicas entre as décadas de 1930 e 1940, sempre com viés satírico.

No cinema, apareceu em comédias como Cala a Boca, Etelvina, Samba em Brasília e Alô, Alguém Aí?. Na televisão, teve destaque em programas de auditório, humorísticos e especiais. Trabalhou com Chico Anysio, Manuel da Nóbrega e outras figuras históricas da comunicação brasileira.

A música esteve sempre presente em sua linguagem artística. Suas interpretações em cena tinham função dramatúrgica e humorística. Ao longo de mais de 80 anos de carreira, Dercy desafiou o moralismo, enfrentou censura e se tornou símbolo de liberdade. Morreu em 2008, aos 101 anos, e foi reconhecida pela Funarte como patrimônio do teatro nacional.

Bibi Ferreira

Foto: arquivo do Estadão

Bibi Ferreira marcou gerações como atriz, cantora, diretora e apresentadora. Nascida no Rio de Janeiro em 1922, filha de Procópio Ferreira, estreou nos palcos em 1941, aos 19 anos, na peça La Locandiera. Antes disso, aos 15, já havia cantado no cinema no filme Cidade Mulher (1936), de Humberto Mauro, interpretando um samba de Noel Rosa.

Fundou sua companhia de teatro em 1944 e atuou em grandes musicais, como Minha Querida Lady (1963), Hello, Dolly! (1965), Brasileiro: Profissão Esperança (1970) e Gota d’Água (1975), obra de Chico Buarque e Paulo Pontes, seu companheiro.

Como cantora, lançou álbuns como Histórias da Tia Bibi (1956), Bibi em Pessoa (1960) e Gota d’Água (1977), além de discos dedicados a Edith Piaf, Amália Rodrigues, Gardel e Sinatra. Com repertório sofisticado e interpretação refinada, subiu a palcos nacionais e internacionais com shows como Bibi in Concert, Bibi Canta Piaf e Bibi Ferreira Canta Sinatra.

Na TV, apresentou programas de grande audiência nas décadas de 1960 e 1970, e recebeu prêmios como comunicadora. Dirigiu espetáculos de artistas como Maria Bethânia e Antonio Fagundes, e foi condecorada pelo governo francês com a Ordem do Mérito das Artes.

Comemorou 75 anos de carreira em 2016 com o espetáculo 4xBibi. Aposentou-se dos palcos em 2018 e faleceu no ano seguinte, deixando um legado de excelência e devoção às artes cênicas e musicais.

Selma Reis

Foto: arquivo do O Globo

Selma Reis iniciou sua discografia em 1987, com um álbum que reunia canções de Sueli Costa, Capinam, Cacaso, Nelson Ângelo, Gereba e Geraldo Azevedo. O trabalho teve direção musical de Eduardo Souto Neto. Em 1991, lançou Só Dói Quando Eu Rio, e em 1993, gravou novo disco em Londres com arranjos do inglês Grahaam Presket.

Em 1996, dedicou um álbum ao repertório de Gonzaguinha. Três anos depois, atuou no musical Abre-Alas e foi convidada para participar da minissérie Chiquinha Gonzaga (Globo), iniciando sua trajetória como atriz de televisão. No mesmo ano, lançou Ares de Havana, gravado em Cuba, com direção artística de Ricardo Cravo Albin.

Nos anos 2000, idealizou um espetáculo com a bailarina Ana Botafogo e fez shows ao lado de Cauby Peixoto, resultando em um CD e DVD com canções de Tom Jobim, Chico Buarque, Milton Nascimento e Gonzaguinha, além da inédita Emoções Suburbanas, escrita especialmente para sua voz.

Em 2009, lançou o disco Poeta da Voz, com repertório de Paulo César Pinheiro e participações de Beth Carvalho, Diogo Nogueira e do próprio compositor. O álbum incluiu clássicos como Minha Missão, Viagem, Portela na Avenida e Tô Voltando.

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