
Zé Ibarra quer o térreo, a poeira no chão dos salões de dança, o ordinário até, optando por um descanso aos falsetes que o consagraram como o jovem astro de canto lindo e violão a postos e preterindo o tom “solene” que a MPB lhe conferiu nos últimos anos.
Afinal, a projeção ao grande público do multi-instrumentista e compositor carioca de 28 anos vem, em parte, da coleção de ilustres admiradores — e parceiros musicais —, como Gal Costa (com quem dividiu os vocais na canção “Meu Bem, Meu Mal”, em 2021), Ney Matogrosso (ao seu lado em uma apresentação no projeto “Por Acaso”, em 2022) e, de modo mais emblemático, Milton Nascimento, integrando a banda que acompanhou o artista em suas duas últimas turnês, “Clube da Esquina” e “A Última Sessão de Música”.
Soma-se ao portentoso currículo o sucesso do projeto Bala Desejo, no qual Zé e seus amigos, Júlia Mestre, Dora Morelenbaum e Lucas Nunes, tornaram prenhes de brilho e música pop o ar corpulento de um país arrasado, pós-pandemia.
Aplainando entre o “sentido do som” e o “som do sentido”, Zé Ibarra tem reduzido à menor importância a obrigação de decidir-se entre as duas coisas. Ei-lo aí, de cara limpa, peito aberto e em transe. Para sermos justos, o que não o deixa mesmo é a busca por um pop que, entre Moacir Santos e Michael Jackson, pareça-lhe a medida exata, razoável.
A libido, o processo de elaboração técnica e as ideações estéticas do álbum Afim (Coala Records, 2025) compõem o tema central desta entrevista na qual, dentre outros assuntos, Ibarra confidenciou à Sociedade do Copo que precisou voltar-se a si para ficar a fim de música outra vez. Confira:
Juliano Amorim
Sobre o processo de criação do disco Afim: em uma das suas postagens você comenta que foi muito longo e cheio de idas e vindas. Queria saber se houve adiamento e como foi, de fato, o processo de elaboração do disco, até o lançamento em junho deste ano.
Zé Ibarra
Foram dois anos trabalhando nele, porque eu não consigo aceitar algo com o qual eu não esteja satisfeito.
Eu nunca me acostumo. Tenho uma ideia na cabeça e não desisto até chegar nela. E, muitas vezes, pra chegar, você tem que errar antes. É uma coisa mega contraintuitiva, porque você contrata uma banda, bota uma orquestra em cima, gasta uma grana…
Aí você vai ouvir e ainda não tá gostando. E aí? O que faz? Você pode duvidar de si mesmo e acreditar no que os outros dizem, tipo “não, tá legal”, ou seguir acreditando na sua intuição, na sua percepção, na sua sensibilidade única.
Nesse disco, graças a Deus, eu não confiei no entorno. Às vezes eu não tava satisfeito, mesmo tendo gravado muita coisa. E aí, por exemplo, joguei fora a orquestra inteira, sabe?
Fiz isso duas vezes, com duas músicas. Joguei fora as primeiras gravações inteiras. Porque, pra mim, não tava bom. Pros outros, talvez estivesse. Mas pra mim, não.
Nesse meio tempo é difícil demais, porque as pessoas também começam a falar “calma, cara, você tá ficando obsessivo”. E beleza, mas eu acho que obsessão é, de certa forma, uma patologia. Só que também traz uns resultados que, pra mim, são interessantes.
Eu sou muito obsessivo com o processo de fazer música. Mas um dia, um tecladista virou pra mim, olhou nos meus olhos e falou uma coisa que me deu muita força. Ele disse: “cara, não desacredita no que você acha, porque cada um tem uma visão. Persiste na sua.”
Eu trabalho com músicos inacreditáveis, inclusive o melhor baterista que eu já conheci. Teve uma música que ele gravou a bateria, foi genial, mas eu não tava sentindo que era o que a música pedia. Aí eu tirei e gravei de novo. Tipo, eu nunca tinha gravado bateria na minha vida. E é a minha bateria que tá ali, pronto, entendeu? E não porque eu toco melhor que ele, de forma alguma. Eu sou ridículo, eu sou só corajoso. Mas pra aquela música, a minha sensação era outra. A minha opinião era outra. É doido. É um processo longo. Mas é isso. Muito sofrimento, sempre. Mas tem um momento que chega, sabe? E quando chega, pra mim é inquestionável. Eu não tenho mais dúvida.

Juliano Amorim
O disco tem um texto muito forte. Não só nas canções que você mesmo fez, mas nas interpretações. Dá pra sentir que elas querem dizer algo muito potente pra você, pra que chegue até nós como um recado.
E numa entrevista pro O Globo você mencionou que é um disco de temas mais terrenos. Eu queria saber se você se sente mais cru ou mais maduro nas palavras. Como é que foi esse texto pra você na hora de elaborar o disco?
Zé Ibarra
Esse disco, em termos líricos, é uma mistura de textos que eu elaborei e de textos que eu escolhi. Tem algumas canções que não são minhas. E eu acho que sim, é um disco mais terreno no sentido de que eu sentia uma espécie de fetiche estético.
Quando se fala de letra, existe muito fetiche estético, né? Existe um lugar comum de falar sobre um certo tipo de amor, um certo tipo de beleza, um certo tipo de coisa assim. É lindo e tal, eu sempre fui desses aí. Mas eu senti que queria sair um pouco disso. Não sair totalmente, mas é um caminho que eu tô traçando. Acho que é um caminho longo. Escolhi certas canções que me colocavam num lugar mais terreno, no sentido cotidiano, ordinário, mais sujo, um pouquinho mais humano, entendeu?
Porque eu acabava me colocando meio como um arauto espiritual nas coisas que eu fazia antes. Não era de propósito, mas acontecia, até por eu estar cantando sobre temas mais elevados. E aí eu escolhi a Sophia Chablau, falando aquelas barbaridades que ela fala e que eu amo. E eu me identifico, porque eu sou mais aquilo do que qualquer outra coisa hoje em dia, entendeu?
E isso fala também sobre a diferença entre persona e pessoa. A minha pessoa mesmo, eu sou muito mais escrachado, sabe? Falo besteira o tempo todo, falo palavrão, sacaneio, sou sarcástico. Só que na minha persona artística, eu não tava conseguindo fazer isso, cara.
Tinha uma pressão. Isso é uma prisão. O Afim é só o começo de uma coisa que, eu acho, vai desembocar num furacão um pouco maior. Nesse sentido de uma humanização, de mostrar tudo. O lado ruim da vida, o lado estranho, o lado torto, o lado sofrido.
E tem Da Menor Importância, da Maria Beraldo, com essas questões de gênero, de sexualidade… Acho isso fundamental. Amplificando a voz dela, eu amplifico a minha também.

Juliano Amorim
Maravilha, Zé. Falando sobre Transe, que é uma canção que você mencionou… é uma música sobre ghosting. Então, de certo modo, pra continuar nessa discussão sobre o texto, queria trazer também Da Menor Importância, da Maria Beraldo, que fala sobre essas questões de gênero, de afirmação, de desejo.
E eu queria saber se existiam outros temas relacionados a essas áreas mais nossas, humanas mesmo, que estavam com você na hora de pensar o recado final que você queria passar — como intérprete e como compositor também.
Zé Ibarra
Acho que os temas mais atuais estão mais encarnados nessas duas músicas, Transe e Da Maior Importância. Um pouco em Hexagrama também. Em Segredo, também.
Esse disco, pra mim, tem muito a ver com apaziguar algumas questões como intérprete. Eu tinha mais músicas pra botar, mas não achava que eram boas o suficiente. Eu vejo um monte de disco autoral cheio de música ruim. Eu prefiro fazer um disco bom com música que dá conta do recado, entendeu?
E acho que isso, pra mim, já é um ponto de desconstrução narcísica importante. Eu quis me colocar na capa também, escovando o dente. Pensando nesse momento em que a gente nunca se olhou tanto na história da humanidade. Espelhos, selfies, essas coisas. A manipulação da própria imagem, a falsa percepção de si… Eu queria botar a minha cara ali. Mas queria que fosse uma piada, entendeu?
Me coloquei numa posição desconfortável pra mim mesmo. Escovando o dente. E pensando também no Afim. Porque é isso. É um disco que fala sobre amor o tempo inteiro. Essa coisa de estar a fim, de querer algo.
Só que, assim, o que é intimidade hoje em dia? A gente tá vivendo a morte da intimidade? A morte do amor? Eu sinto isso. Eu penso nisso. Acho que o amor tá se transformando. E tá mal, na minha opinião.
Como eu falei, tem que pegar o avião e subir, olhar do alto, olhar pelo macro. Porque são contos que eu fui escrevendo. O processo do disco é isso. Você vai fazendo e, depois, vai entendendo o que fez.
Tem várias questões da nossa geração, essa geração mediada pela máquina. Incluindo o ghosting, que algumas pessoas acham que é normal, que é natural. Mas na minha cabeça isso não faz o menor sentido.
Juliano Amorim
Zé, em relação a tudo isso que você falou, queria saber se essas reflexões vieram de você mesmo, da sua vivência, ou se também surgiram a partir de coisas que você leu, viu… algo que tenha te provocado e que valha a pena compartilhar com a gente.
Zé Ibarra
Tem muita coisa que vem de mim. Mas tem muita coisa que vem de fora também… reflexões que surgem através de livros e filmes.
Eu leio muita filosofia atual. Li o Mark Fisher há pouco tempo, Realismo Capitalista.
Outro dia, li o da Liv Strömquist, A Rosa Mais Vermelha Desabrocha, que fala sobre a morte do amor como a gente conhece. Li também o Chul Han, que fala de tudo… sobre como o mundo está se desmantelando nas bases que a gente concebia no século XX. Acabou. É outra coisa agora.
Li também aquele da Naomi Klein, Doppelganger, que trata da questão dos duplos, da realidade virtual, da realidade de perfil. A gente tá transferindo nossa identidade pra uma instância que não é real. É uma instância de perfil. Ela tá acima da gente. Tá sobrevoando a gente. Agora a gente é cada vez mais entidade de informação. A gente virou dado. Informação. É uma loucura isso.
A gente tá à beira de um abismo, estrebuchando pra sobreviver, num sentido psíquico. Eu me sinto muito assim. Me sinto um corpo em teste, um corpo em posição de cobaia.
Me sinto mal com isso. Me sinto triste com isso. Então estar Afim também é uma tentativa de eu mesmo estar a fim de mim, de estar a fim da vida. Porque, do jeito que as coisas estão hoje, eu fico perdido.
Fico bastante perdido. Por isso fico tentando ler essas coisas todas, pra tentar compreender. Porque é muito difícil.

Juliano Amorim
Zé, falando sobre influências… Eu me lembrei que, acompanhando suas entrevistas na época do disco do Bala Desejo, em 22, o Sim, Sim, Sim, você falava muito do Take Six como uma inspiração.
E eu queria saber se, no caso do Afim, teve algum disco ou artista que teve esse mesmo peso, como o Take Six teve pro Bala Desejo.
Zé Ibarra
O Take Six é formação infinita pra mim. Mas nesse disco tem outros artistas também… Sempre tem o meu grande ídolo, que tá sempre atrás de mim, abençoando tudo que eu faço, que é o Tom Jobim.
É um cara por quem eu tenho uma admiração quase cega, de idolatria mesmo. Sou muito apaixonado por ele. Só que no Afim, ele vem meio misturado com Michael Jackson, sabe?
E aí tem também umas coisas mais novas. Tipo em Transe, por exemplo, que vai pra uma onda mais Negro Léo, Tyler, The Creator… Claro que eu não chego lá, mas eu tento, sabe?
Juliano Amorim
Como uma baliza ali, né?
Zé Ibarra
Exato. Tem também muita música clássica. Em Transe tem bastante coisa de música clássica. Tem muita coisa… Banda Black Rio, muito Black Rio. Porque é isso, quis botar uns negócios que eu gosto. Por exemplo, Infinito em Nós é um sambalanço, cara.
O sambalanço morreu há uns 40 anos, mas eu acho tão legal… E eu, como carioca, sinto muita onda naquilo, meu corpo vibra com aquilo. Então eu queria muito que Infinito em Nós fosse um sambalanço classicão mesmo.
E tem o Caetano também, né? Que é absurdamente onipresente no meu canto, principalmente. Você percebe isso?
Juliano Amorim
Ah, eu percebo, eu percebo. Eu senti muito o Caetano em Transe.
Zé Ibarra
Todo mundo fala que tem ele em Transe. Todo mundo falou que parecia O Estrangeiro.
Juliano Amorim
Cara, engraçado… não me lembrou O Estrangeiro, não. Me lembrou aquelas canções faladas do Caetano, quase como uns raps dos anos 70, tipo Da Maior Importância, por exemplo.
Zé Ibarra
Entendi. Acho que é isso. O Gil também, né? Sempre me abençoou nas métricas. Eu sou um cantor obcecado por métrica. O Caetano também é perfeito nisso.
Eu sinto que preciso cantar minha voz como se ela fosse um instrumento de percussão. Penso muito nisso enquanto canto. E o Gil, pra mim, é o Deus nisso.
Juliano Amorim
A gente tem no nosso portal uma brincadeirinha relacionada à indicação e contraindicação de coisas que façam sentido pra você. E não precisa ser sobre música, não.
Pode ser qualquer coisa que vier na cabeça e que você queira indicar… ou contraindicar.
Zé Ibarra
Bom, vou indicar um livro que li esse ano, chamado A Mais Recóndita Memória dos Homens. É um livro do Diogo Cardoso e do Mbougar Sarr.
É sobre um escritor jovem que busca um livro mítico de um escritor antigo que ninguém mais tem. E aquele livro faz ele entrar em milhões de reflexões sobre colonização, literatura… sobre infinitas coisas.
É um dos melhores livros que eu li nos últimos tempos. Posso indicar um filme? Um que, pra mim, dialoga com Transe, com aquela onda ali: Festa de Família, do Vinterberg.
E contraindicar… bem, eu não quero contraindicar nada. É que eu também nem penso nisso, sabe? Isso não me interessa muito. Tipo, vou contraindicar por quê? Fazer um desserviço a alguém? Ou um serviço pra alguém? Não sei… Normalmente não vem nada na cabeça pra contraindicar. Eu só lembro das coisas que eu gosto.
Ah! Quero indicar mais um filme, que é um dos meus favoritos: A Professora de Piano.
Texto introdutório, produção e entrevista por Juliano Amorim
Revisão por Paulo Vinícius Coelho





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