
Finalmente tive a oportunidade de conhecer e conversar pessoalmente com Matilde Coqueiro, historiadora responsável pela monografia “Bar do Léo: lugar de memória e sociabilidade na São Luís do tempo presente” [2017], certamente um dos mais importantes documentos sobre a história deste bar que é uma segunda casa para mim, para ela e para os tantos amigos que descobrimos ter em comum. Li muitas vezes o trabalho, que conta com a orientação da também amiga Milena Ferreira.
Matilde mora na Austrália há muitos anos e estava em São Luís em junho para uma breve temporada, marcada por idas rotineiras ao Bar do Léo, conciliadas com a presença nos arraiais. A última vez que a encontrei antes do seu retorno ao exterior, aliás, foi no Largo de Santo Antônio, durante a apresentação de Josias Sobrinho, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Sérgio Habibe, no show intitulado Quatro70, referência às mais de sete décadas de vida desses quatro compositores basilares da nossa música.
Na rápida conversa que tive com Matilde nesse dia, combinamos de pensar em algumas ideias para difundir a monografia produzida por ela. E são muitos os motivos para isso: apresentar personagens importantes para a história do bar, reproduzir causos até hoje contados por frequentadores, entender como o Bar do Léo se tornou um espaço tão relevante para a sociabilidade e a cultura ludovicense, e perceber mais detalhadamente o perfil de Leonildo Peixoto Martins, dono, idealizador e protagonista do Bar do Léo.
Reuni aqui alguns causos cômicos ou relevantes para a compreensão do que é e do que representa o Bar do Léo. O trabalho completo de Matilde pode ser acessado clicando aqui. Em breve, teremos o documento físico no Bar do Léo.
Sobre a decoração peculiar do Bar do Léo
“É que naquela época, os bares que tu chegava, a decoração era calendário de bebida, cigarro, e era só com mulher nua. Se não era mulher, era cavalo. E eu sempre achei que mulher nua fosse pra olhar entre quatro paredes, não era pra mostrar em cartaz. Aí eu comecei a botar uma escrivaninha, uma coisa ou outra aí.” (Seu Léo)
Pedidos de música
“Teve uma vez que eu vim pra cá sozinho, aí lembrei de uma música e pedi pra ele. Nessa eu peguei pesado!
– Léo, eu queria uma música da Elizeth.
– Qual?
– Na verdade, Elizeth canta, mas ela tá acompanhada pelo Zimbo Trio, Época de Ouro e Jacob do Bandolim, uma versão de Carolina. Aí ele falou assim:
– Eu tenho essa música.
Aí ele começou a procurar. Mexeu isso aqui tudo e não achou. Subiu na geladeira (rsrs). Eu já tava com medo dele ter um acidente. Aí ele ficou super mal-humorado, foi na minha mesa e falou:
– Eu tenho essa porra, só não tô achando. É que eu tô ocupado.
Mentira (rsrs), que ele não tava ocupado porra nenhuma.
Um mês depois, eu vim. Ele veio pra mim com uma caixa cheia de fita cassete.
– Pega aí, ó!
Jogou na minha mesa.
– Que isso, Léo?
– Olha aí.
Procurei assim…
– Legal! (fita cassete rsrs)
Aí ele tateou e tirou a fita cassete, o álbum, o show inteiro da Elizeth com Zimbo Trio, Época de Ouro e Jacob do Bandolim.
– Não disse que eu tinha? Só não lembrava que tava em cassete.”
(Jonatan Carvalho Galvão)
Proibido fumar
“Quando eu pintei Patativa, ele tinha um cigarro e eu consegui fazer uma brasa bem realista, que o pessoal tirava foto. Aí uma mulher chegou um dia aí, tava fumando, e Léo falou:
– Não pode fumar!
– Sim, mas Patativa tá fumando.
– Pô, tem que apagar esse cigarro, esse cigarro tem que sair dali.
– Porra, Léo, isso é uma figura, e Patativa morreu com 100 e tudo, o cigarro tá no meio da história.
– Não, tem que tirar esse cigarro daí.
Aí eu:
– Porra, não vou tirar não.
Aí, um belo dia, eu chego e tem um X de látex amarelo em cima do cigarro. Éguas! Léo tacou um Xzão. Tive que restaurar e fazer sem o cigarro.”
(Alexandre Gomes)
Seletividade
“Quando ela chegou, eu estava escutando Jamelão. Depois botei Zeca Pagodinho cantando Candeia, Preciso Me Encontrar, que muita gente pensa que é de Cartola, mas é de Candeia. Cartola que lançou. Logo depois, Maria Bethânia.
Aí ela veio:
– Olha, Léo, já paguei minha conta, tomei minha cerveja, e quando tu melhorar tua música, eu volto.
Eu disse:
– Como é que é?
– Quando você melhorar tua música, eu volto.
– E a senhora queria ouvir o quê?
– Um pagode, e tal.
– Aqui não toca merda!”
(Seu Léo)
Ídolos
– Léo, tu tem brega?
– Tenho uns brega aí, que vocês acham que é brega.
– O que o senhor acha que é brega? Por exemplo, Nelson Gonçalves?
– Vai te fuder! Eu disse bem assim. Vai te fuder, que tu não sabe nem o que é música.
Aí ele pagou a cerveja e foi embora. Vai chamar Nelson Gonçalves de brega na cara de Léo? De jeito nenhum.
Pra mim, não é brega. Pra mim é música romântica, e taxam de brega. Miltinho, Silvinho, Waldick Soriano… acham que é brega. Pra mim, é música romântica. Pra quem tem bom senso, é música romântica.
(Seu Léo)
Quem frequenta
“E essa coisa que eu acho que ali as pessoas não são fakes. Eu tenho essa impressão. Pra pessoas de fora, nós somos todos fakes. Já ouvi isso: ‘Ah, esse povo que vai pro Bar do Léo pensa que tá na década de 70. O Léo é chato, o povo que vai pra lá é chato, metido a ateniense’.”
(Milena Ferreira)
As mulheres no bar
“Não é qualquer vagabundo que chega, senta e pede uma cerveja, já prestou atenção nisso? Seu Léo sempre me falou uma coisa muito legal. Ele queria um bar onde uma mulher podia tomar cerveja sozinha, que o homem podia tomar uma cerveja sozinho sem se sentir invadido.
Eu tenho coragem de sair da minha casa e tomar uma cerveja no Bar do Léo sozinha, sem me preocupar, sem me sentir assediada. Tu é mulher, tu sabe… A gente vai e o tempo todo se sente invadida. E aqui, não. Aqui o povo tem um certo receio.
Muitas vezes, tem mulher que chega, senta sozinha, pra tomar sua cerveja, pra pensar, refletir… e eu acho isso muito bacana. Em pouquíssimos lugares de São Luís tu pode fazer isso.”
(Nezia Sousa)
Regras
“Desde que eu cheguei aqui, em 2001, já tinha essas regras. Uma: mulher não podia sentar no colo do homem, nem beijar em excesso.
Uma vez chegou um rapaz, acho que ele tomou umas oito cervejas, e na nona queria tirar a camisa. Teve confusão e eu fui lá:
– Moço, aqui é uma regra da casa. A gente não atende homem sem camisa.
– Ah, por quê? Porque eu quero ficar sem camisa. E aí?
– A gente não aceita clientes sem camisa aqui.
Fui lá falar com Léo. Ele simplesmente disse pra ele ir embora e não pagar as oito cervejas.
– Seu Léo, como assim?
– Vai embora. Meu pagamento é só você não voltar mais aqui.”
(Nezia Sousa)
Grosseria ou ironia
“Algumas pessoas não entendem as contingências de ser dono de bar. Dono de bar é aporrinhado pra caramba.
Várias pessoas criticam o Léo: que ele é impaciente, grosseiro… Mas comigo não. Sempre foi educado, até delicado.
Eu entendo. Já fui dono de bar. Já reagi com impaciência também.
Todo mundo quer ouvir sua música, em cada mesa, e não dá pra agradar todo mundo. Acaba se aborrecendo, e alguns ouvem o que merecem.
O bar se chama Bar do Léo, e aquilo ali foi ele quem construiu. Nós só vamos lá porque o Bar do Léo é daquele jeito, feito por Léo.
Até a possível grossura de Léo pode ser bem-vinda. É mais um enfeite do bar.
As grosserias de Léo são deliciosas. Ele não é politicamente correto e nem quer ser.
Nós deveríamos ser gratos por ele ter criado aquele ambiente único.”
(Elias Haickel)

“Já ouvi relatos de maus-tratos por parte dele. Vários amigos foram maltratados, mas comigo nunca rolou. Ao contrário. O cara me trata super bem, tipo o jeito bem de Léo [risos].
Teve dois que estavam jogando xadrez, mas acho que não tinham dinheiro pra pagar o chopp e levaram um vinho. Ficaram no recuo. Bar vazio. Léo chegou:
– Vocês tão pensando que aqui é pra fazer piquenique?
Eles voltam de vez em quando, porque são cara de pau mesmo, não ligam pra esse tipo de ataque.”
(Cesar Teixeira)
“Tinha acabado de quebrar uma garrafa de cerveja, e o bar estava lotado. Ao recolher os estilhaços dos vidros, um cliente passa e diz:
– Eita, Léo, quebrou, né?
– Não, tá inteiro!
Porra, o cara tá vendo que eu tô juntando os cacos de vidro e me vem com uma pergunta dessas? Aí depois dizem que sou ignorante.”
(Seu Léo)





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