
Calhou de ser nesta quarta-feira (18) o meu regresso à escrita de amenidades, após a guinada destes etílico-escribas, cá deste blog, a novos formatos de exercício jornalístico. Pessoalmente, a cada linha por aqui acrescida, me assombro, um tanto, de dúvidas acerca de meus parcos recursos de cronista. Creio-nos, malemá, castigadíssimos. Mas… dispenso o leitor de minhas chorumelas. Se estou aqui, é porque tenho um motivo. E o motivo é tão prosaico quanto nobre, pessoalmente: Sir Paul McCartney, o beatle lírico, a flor primeira da música pop, chega aos 83 anos.
Tenho límpida, na memória, as primeiras ocasiões nas quais travei contato com a iconografia do beatle, entre o fim da infância e o início da adolescência. Era 2010, tempo de regresso do MacCa ao solo brasileiro [regresso que teima, felizmente, em continuar] após uma longa pausa, desde os anos 1990. Havia uma comoção na imprensa, convertida numa dedicação especial em matérias em portais, redes sociais – incipientes, diga-se – e na televisão, sobretudo com a cobertura especial da Rede Globo, que transmitiu um dos shows, em São Paulo.
Vendo-no ali, o Paul McCartney que sabia tão exclusivamente dos Beatles, e só, tudo era fascínio e mistério. Estive atento ao televisor, após as 22h, para desvelar em mim impressões mais definitivas, já que eu nada sabia de seus gestos, canto ou estilo. Antecipo-me aos desdobramentos daquele frisson e vos digo que, já no dia seguinte, o meu maior empenho, como adolescente pré-púbere, foi deixar abertas as abas do YouTube e da Wikipedia, pesquisando, simultaneamente, cada faixa; cada easter egg; as mais recônditas informações, tudo a cabo da fissura que aquela domingo gerou em mim – e que perdurou, de modo obsessivo, por cerca de uma década.
Pude, enfim, entender melhor aquele domingo de novembro – não só entendê-lo como ver a mim um espectador, qual aqueles figurando nas plateias do Morumbi [recuso-me a sandice de mencionar a nomenclatura atual do estádio, uma aberração, deixo aqui meu protesto!] àquele dia – pouco mais de 10 anos depois, também em novembro. Tempo de mais shows do velho Paul McCartney no Brasil, em 2023.
Eu, um adulto, senhor de meu destino – será? – e de minhas economias, decidi, finalmente – com a ansiedade de menino – pacificar minha paixão, aplainada em canto deserto do peito, assolada pelo temor de já não alcançar, com meus olhos, o mais apaixonante dentre os quatro beatles. Ressalto, por flama ao meu receio, o fato de termos sido assolados pela pandemia. Coisas demais se acumulavam para que aquela viagem concorresse ao sublime.
As camisas temáticas se espelhavam nos corredores do aeroplano. O clima, ao pousarmos já antecipava, com dizeres por todos os cantos, em paineis de led, menções ao filho canhoto da marítima e tão longínqua dos ares daquele cerrado, Liverpool. Os outdoors saudavam-no, e mais pareciam uma pós-ressaca da beatlemania. Nem nos rincões da ignorância – leia-se centro-oeste – poderia-se fugir da paixão que assombrou o mundo no início dos anos 1960. É irrefreável o amor dos Beatles, para os Beatles, sobre os Beatles.
E, nas primeiras horas da manhã que se seguiu à minha chegada, algumas notícias antecipavam o show surpresa do Paul McCartney numa casa pequena, na Asa Norte, em Brasília. Pensei, em princípio, que se tratasse de algo privado, endereçado a alguns poucos. Sim, era para alguns poucos [a capacidade máxima do local, o Clube do Choro, é superior a 200 pessoas], a surpresa é que nós, os relés, pudéssemos participar, desde que atentos à abertura das vendas, num protocolo inútil a ser descrito aqui.
Rememoro mesmo o arvoredo, na mansidão de uma tarde nas supervias – tão longas e tão inadequadas – de Brasília em fim de ano. As muitas gerações, zonzas, sem saber muito o que se passaria após atravessar o portão daquele microespaço. Qual repertório? Que estrutura? O que sentir, mais exatamente, diante da surpresa?
Pessoalmente, nada saberia dizer. Minha excitação é muito maior presumindo o fato do que ante ao fato. Conferia com serenidade a passagem dos visitantes, enquanto cochichava com minha ex-mulher o fato de que uma canção aleatória do Ram [disco icônico do Paul McCartney, lançado em 1971] jamais tocaria noutra ocasião, em público, senão aquela. Pés a postos, quatro cervejas depois, celular desligado, mãos ansiosas, e fui. Posicionado diante do palco, maltratado pela espera, eis que o vi chegar com a pontualidade que lhe confere a sua origem.
Os cabelos longuíssimos, qual em Get back, marinados pelo ouro da luz e o acobreado do tempo. A barba por fazer e um gestual, irmanando carisma e dureza, cessavam o mistério que cada um de nós, espectadores, acalentara até o instante do instante de tê-lo a voz, as mãos, o corpo e a música tão próximos.
Se o assunto é Paul McCartney, ver, que seja, o baixo hofner nas mãos de um músico mais ou menos habilidoso, em qualquer sala semiescura na qual esteja havendo som, já é um acontecimento. Flagrar, porém, o baixista mais especial empunhar seu instrumento igualmente especial é ser conduzido à impressão de que se há paraíso à vista. E vislumbres, réstias de sonho, mais do que resolvidos.
Foi como eu senti ao longo de mais de duas horas, no Clube do Choro, em cuja euforia, por mais prazer que me desse, também receava pelo mormaço ora formado, com tanta gente, em tão pouco espaço. Temia por McCartney e estendia os braços, em suas pausas, como que interessado em retirar todo o desconforto que por acaso lhe aturdisse. E ansiando, ao fazer o gesto, ter um átimo de sua dulcíssima presença. Só para crer no que via.
A beleza das horas naquele show são muitas: o entusiasmo de Abe Laboriel Jr. (soube que se contundiu dias depois noutro show) a cada novo tilintar dos pratos de sua bateria, o teclado Yamaha, de dimensões exíguas, ornamentado com uma bandeira do Brasil; a dobradinha, cheia de euforia que conduziu Ob-La-Di, Ob-La-Da para Get Back e o sorriso encantado de um Samuel Rosa, ao meu lado, atento à performance de Helter Skelter.
Mas ao som de Let ‘Em In outras emoções calaram mais forte. Ouvir a canção, frente ao seu criador, parecia-me devolver ao concerto daquele domingo, em novembro de 2010. Foi como estar criança, na frente da TV, encantando com a canção que jamais ouvira, e, por essa razão, prontamente amar o que fui e ter-me certificado de que, lá no fundo – bem mesmo ao fundo – o menino de 10 anos estava em paz. E o homem de 24, um pouco mais certo de que viver vale a pena.
Por amor aos Beatles, para os Beatles, sobre os Beatles.





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