
A fala de Ayrton Montarroyos é fluída e confiante. O intérprete transita pelos mais diversos temas circundantes à música de maneira contundente, revelando o perfil de quem muito ouviu e estudou a canção brasileira. Seu mais recente trabalho, A Lira do Povo (2024), é dividido em três suítes: I – mítica (das coisas do interior do homem); II – lírica (da viagem, o mar profundo e suas incertezas) e III – épica (do encontro consigo, da finitude, as cidades).
O álbum, nomeado por sugestão de Hermínio Bello de Carvalho, é certamente um dos maiores acontecimentos da música brasileira nos últimos anos, dado a complexidade da articulação do repertório, o trabalho instrumental e o notório esforço de pesquisa feito para o disco. Aliás, o próprio Ayrton é quem diz: A Lira do Povo foi o que me batizou como artista.
O álbum relaciona o sertão, o mar e a cidade de uma forma em que todos os elementos estão cuidadosamente inseridos e conectados uns aos outros. O que pouca gente sabe é que a narrativa abordada no projeto é fortemente inspirada na vida do próprio Ayrton Montarroyos e, em especial, na saga enfrentada pelo artista pernambucano quando, durante a pandemia, precisou se mudar para o exterior para continuar trabalhando – não somente com música, mas também realizando faxina e delivery, por exemplo.
Avalizado por nomes como Edu Lobo, Claudette Soares e Alaíde Costa, o intérprete de 30 anos não está preso ao passado, como alguns (poucos, cada vez menos) tentam dizer. Ayrton Montarroyos é, sobretudo, um bom ouvinte, inclusive de música contemporânea. O artista fala com naturalidade sobre o funk, o brega, a música eletrônica e outros gêneros musicais, apontando valências em cada um desses estilos. Contudo, não se priva de criticar com ênfase aquilo que classifica como produto pasteurizado e imposto pelo marketing. No fim, resume: “a gente não pode substituir os cânones da história da arte deste país por um bocado de bilionário que não tem preocupação nenhuma com a cultura popular e que não acrescenta em nada esteticamente’’.
Confira a entrevista:
Paulo Vinícius Coelho
Vamos começar falando sobre a Lira do Povo, que é o teu último trabalho. Mas eu queria que, além de música propriamente, você falasse também das referências literárias e cinematográficas que você usou para esse trabalho, porque eu sei que foi um trabalho de fôlego, de pesquisa, de muita música ouvida. E esses temas abordados no álbum, a relação do povo brasileiro com o mar, o campo e a cidade, são muito caros à nossa cultura, a ponto de já terem sido retratados em diversas formas de trabalho. Então, você se valeu de outras referências de outras artes também?
Ayrton Montarroyos
Olha, eu me vali sim. A Lira foi surgindo naturalmente a partir de um método de trabalho que eu uso há muito tempo. Eu trabalho com música há 15 anos e a forma com que eu lido com o meu trabalho sempre foi essa, de ouvir alguma coisa que eu gosto e catalogar aquilo (nome do autor, ano que foi lançado, nome da música).
O roteiro da Lira eu trabalhei no finalzinho da pandemia, quando eu tive que sair do país. Eu tinha acabado de comprar esse apartamento onde eu moro hoje e comecei a ter dificuldades para pagar as prestações. E para não desistir do sonho da casa própria – na minha família quase ninguém tem casa própria, então era uma coisa muito importante para mim – eu saí do Brasil e fui para outro país para trabalhar da maneira que podia. E para mim era muito doido, porque, evidente, eu não sou uma pessoa famosa, mas eu tenho alguma regalia do meu trabalho, eu tenho público, eu saio na rua todos os dias e sou reconhecido. Então, era muito catastrófico para mim o baque daquilo, de estar de repente em um outro país que não é o meu, sem saber falar a língua, fazendo faxina, fazendo entrega.
Então isso me colocou sob muita perspectiva do que é que eu sou, da capacidade que eu tenho de fazer outras coisas e do próprio desastre que pode ser a vida. E eu lembro que fazendo um delivery lá, eu estava nessa cidade pra onde eu fui – a gente trabalhava de carro, não era moto – e eu fui ouvir o disco Rastilho, do Kiko Dinucci. E eu, quando ouvi o Rastilho, que tinha acabado de sair, aquilo me deu uma saudade do Brasil muito grande, me deu uma vontade de voltar muito grande, me deu uma vontade de fazer um trabalho que falasse sobre o Brasil tanto quanto aquele disco falava sobre o Brasil. Mas de uma outra forma, porque o Rastilho é um disco de violão, é um disco de compositor, e eu sou um intérprete que não toco nada.
Esse foi o primeiro ensejo. E eu também estava ouvindo o disco do Gonzaguinha, Plano de Voo, quando eu relembrei de Gás Neon, que eu já conhecia na voz da Bethânia, mas eu nunca tinha ouvido na gravação do Gonzaguinha, que para mim eu considero a melhor gravação, a mais bonita. E eu ouvi aquilo “viver essa longa avenida de gás neon, portas de ouro e prata, falsos sonhos nessas noites de verão.” E eu achei que a vida naquele momento, para mim, era aquilo, se resumia aquilo.
Quando eu voltei para o Brasil, eu tratei logo de fazer um repertório, fazer um roteiro, criar alguma coisa a partir dali. E já botando Febre do Rato, que era uma música do Rastilho, e colocando o Gás Neon. E fui querendo fazer um trabalho diferente dos trabalhos que eu tinha feito. Eu não queria que fosse mais uma vez um disco de canções, que o show fosse um recital de canções que eu fizesse uma, depois aplauso, outra, aplauso.
A minha primeira coisa é que eu queria que fosse um pouco um ato fúnebre, uma coisa que ninguém aplaude. Eu queria que as pessoas ficassem mais consternadas do que satisfeitas. Eu me juntei com o Arquétipo Rafa e disse: eu quero fazer um show que as pessoas não aplaudam. Vamos fazer um show em que eu canto uma música só, eu entro, canto durante uma hora, acabo e vou embora. Mas aí eu achei que ia ficar muito maçante, eu achei que não ia ser legal aquilo e fiquei um pouco com vontade de retomar um projeto que eu tinha de anos atrás, que era um trígono que eu criei na minha cabeça de mar, sertão e cidade.
Uma inspiração nessa construção foi O Rio, de João Cabral de Melo Neto. O livro conta toda uma trajetória desde sua nascente até desaguar no mar em Recife. Quando o rio passa por um sertão, ele se afina a ponto de quase acabar. Quando ele vai passando pelos canaviais da Zona da Mata, ele olha para os homens que estão moendo cana, ele tem uma relação com os lugares por onde ele passa e ele é transformado pelos lugares por onde passa, por conta de toda a natureza ao seu redor, da natureza das coisas.
E eu achei que aquela trajetória do rio seria muito interessante se eu usasse essa estratégia do João Cabral para contar a história que eu queria na Lira. Eu pensei nos elementos sertão mar e cidade com uma dimensão maior. O sertão é uma alegoria para o interior do homem. Quer dizer, a pura do sonho, a descoberta, o enigma da vida, a vontade de alcançar as coisas. O mar é o ambiente da instabilidade, mas também da viagem. E a cidade é o ambiente da tragédia, da desilusão, mas das pequenas ilusões, como o carnaval.
A construção da suíte do mar me remeteu muito a uma história que eu tinha ouvido de um professor meu de história que disse que quando os pretos chegavam no Brasil de África, eles, por não terem o entendimento da religião cristã, tinham a visão mitológica daquele navio negreiro. Eles achavam que estavam mortos e que estavam cruzando o mar dos mortos e que iam chegar em terras que seriam o equivalente dos cristãos ao inferno. O mar significaria aquela viagem certa e, ao mesmo tempo, a própria morte e o renascimento de uma vida na morte. O mar estaria ali como esse ponto de entreato entre o sertão e a cidade. Seria o ponto de partida onde acontece todo o desastre do personagem.
Eu fui ponderando como que eu poderia fazer essas três suítes parecerem uma coisa única, quais músicas elencar, quem ia contar essa história. Uma referência foi o Sérgio Ricardo, que tem três músicas nesse disco e era um cara que foi cineasta. A Noite do Espantalho, Deus e o Diabo na Terra do Sol, todos esses filmes que ou ele fez ou participou, me fizeram abrir a mente para esse personagem nordestino que conta a história da Lira.

PRIMEIRA SUÍTE DA LIRA DO POVO – SUÍTE MÍTICA (O SERTÃO E O INTERIOR DO HOMEM)
O disco abre com um trem, uma linha de trem que é a linha de trem que tem do lado da minha casa, e eu começo a cantar O Trenzinho do Caipira, de Villa-Lobos, como se fosse um descobrimento do Brasil, a partir da nossa visão eurocentrista do que é o descobrimento do Brasil.
O disco começa com esse menino no trem, e logo em seguida se apresenta quem vai contar essa história: um violeiro. A introdução traz O Trenzinho do Caipira, de Villa-Lobos, com letra de Ferreira Gullar, em homenagem a Edu Lobo, parceiro de trabalho. Em seguida, vem Viola Fora de Moda, do próprio Edu, que reforça essa figura do violeiro como narrador da trajetória que o disco propõe: “moda de viola de um cego infeliz, podre na raiz, ah ha.”
E aí é interessante porque a minha ideia é que as pontas do show se encontrassem, que o presságio do desastre que vai vir no terceiro ato já seja dado no primeiro movimento da primeira suíte. Então as primeiras músicas são músicas meio oraculares, são músicas de oráculo, né? “Vivo sem futuro num lugar escuro e o diabo diz ahá” [Viola Fora de Moda].
Quer dizer, tem sempre um Deus à espreita e um demônio à espreita, lutando pelo destino daquele personagem, né? “E disso eu me encarrego, moda de viola não dá luz a cego.” E depois a gente começa a falar “jurando em dez igrejas, sem santo padroeiro, Antônio das Mortes, matador de cangaceiro“. Enquanto eu canto isso, concomitantemente toca outra música do Edu Lobo, Upa Neguinho. “Vixe que coisa mais linda, upa neguinho começando a andar e já começa a apanhar.“
E ao mesmo tempo que Upa Neguinho começa a andar, Antônio das Mortes já mata um cangaceiro. Então essa dualidade da vida, esses presságios todos vão sendo dados logo nessa primeira suíte. São os medos, são os demônios, são os perigos da vida, são os demônios da anunciação do desastre. E depois a gente faz um bloco de músicas românticas. São todos os fundamentos, todos os arquétipos desse personagem que a gente tá criando nesse primeiro movimento. São os medos, as dúvidas, os mitos e os anseios. E essas músicas românticas, ao mesmo tempo que vão falando do homem sertanejo, desse personagem, elas vão apresentando esses pássaros que vão circundando o disco. Eu tive a preocupação de elencar esses pássaros a cada suíte de acordo com a sua natureza. Os pássaros do sertão são todos pássaros sertanejos. Se você for ver na suíte marítima, os pássaros são gaivotas, são pássaros do mar. E os pássaros da cidade são pássaros espantados.
Depois dessas músicas românticas, o último movimento da primeira suíte chama-se Última Mentira. “Seria a última mentira uma canção de amor“. E nunca mais aparece nenhuma música romântica no disco. Ali acaba. Quando a gente acaba esse primeiro movimento a gente entra no segundo bloco, na segunda suíte.
SEGUNDA SUÍTE DA LIRA DO POVO – SUÍTE LÍRICA -(O MAR E AS INCERTEZAS DA VIDA)
Esse segundo bloco todo foi inspirado em Inezita Barroso, que apesar de ser uma mulher mais ligada às coisas do interior paulistano, relacionada a uma ideia de música caipira e tal, eu elenquei ela no segundo bloco por conta da música Temporal. O segundo bloco abre com Inezita e fala dos problemas que um navegador pode encontrar no meio de um temporal no alto mar. E a primeira música do segundo bloco, Canção Passarinho [de Luiz Violão], ela diz: “O rio manso e pequeno divide ao meio o lugar onde eu nasci e vivi a história que vou contar.“
A partir daí a gente vai fazendo isso até desaguar na última música, que é uma música do Caymmi, A Mãe D ‘água e a Menina, dizendo que a mãe d ‘água levou a menina, depois a mãe d ‘água voltou com a menina e ninguém sabe se a menina volta morta ou viva.
Então essa dúvida da mãe d ‘água e a menina do Caymmi é exatamente a dúvida do preto no navio. É o encontro do interior das coisas com a dúvida, a instabilidade. Todo o disco faz essa conexão entre as três suítes. Não são coisas separadas.
Acaba isso, a gente começa com a flauta baixo o terceiro movimento, que aí já é nas cidades, com uma flauta baixo, que já é a flauta mais grave que tem, a gente ainda usa um oitavador nessa flauta e entra só flauta e voz, para destacar a gravidade do que o personagem encara.
TERCEIRA SUÍTE DA LIRA DO POVO – ÉPICA (A CIDADE E O FIM DA VIAGEM)
“Viver essa longa avenida de gás neon, portas de ouro e prata” E aí começa todo o desastre. E aí volta o trem. Agora o trem não leva mais o menino, agora o trem leva um ferroviário que tem uma vida maçante por ser ferroviário [referência a música cantada por Wando]. “São 5 da manhã, ele já está de pé se preparando pra tomar café, um pouco sonolento, ele não dormiu bem pensando na farmácia que tem que pagar, pensando no aluguel que não pode atrasar, pensando na esportiva que domingo tem, é hora de sair, o galo já cantou, apanha um guarda-chuva, lá fora trovejou será que vai haver mais uma inundação?”
Ao mesmo tempo, não se perde a relação com o bloco anterior. “Será que vai haver mais uma viagem, será que eu me dou o luxo de ter mais uma viagem?” E junta essa coisa que remete ao mar com a preocupação da inundação na cidade, que vai atrapalhar a minha vida. Ao mesmo tempo, nessa vida na cidade, há em fevereiro a ilusão do carnaval. “E quando chega fevereiro veste a fantasia e na avenida vai sambar esquece o trem tudo que tem, está feliz, é carnaval”
Depois a gente canta a Plataforma, que é a história de um espantalho “fincado ao chão dessa plataforma eu vejo o céu”. Quer dizer, o trabalho, a coisa maçante, a vida não existe mais, não existe projeção de vida para além de onde se está.
E aí ele acaba a música “falando horas atrás, sem atentar assustei os pássaros daqui” que eram aqueles pássaros que vinham acompanhando durante todo o roteiro do personagem até chegar nas ilhas, que é o final do show, que fala “vi pássaros transparentes na minha casa assombrada, vi coisas de vida e morte, coisas de sal e nada, vi um cachorro sem dono na porta do cemitério” e aquilo tudo vai acontecendo e dizendo, “mas não via claramente a movimentação das ilhas nos rios, nas vertentes e vi que não via nada.“
A grande coisa do show é entender que nada disso é. Nada é. E no final do show, quando eu tô cantando “mas não via claramente a movimentação das ilhas nos rios e nas vertentes e vi que não via nada’’, isso é uma música que não tem letra do Edu Lobo, chamada Casa Forte. Isso ninguém me perguntou, nenhum jornalista. O show abre e fecha com o Edu Lobo. Ele se encontra. No fim, é uma tragédia dividida em três atos daquela história que eu vivi ali durante a pandemia.

Paulo Vinícius Coelho
É maravilhoso ouvir você falando do álbum porque eu acompanho o teu trabalho desde O Mergulho no Nada e os teus projetos, especialmente naquele período das lives da Biscoito Fino, é caracterizado pela voz acompanhada somente por um violão sete cordas ou por um piano. Aí de repente vem A Lira do Povo e eu lembro do susto quando eu ouvi esse álbum, porque é um álbum com flauta, com coro, com Arquétipo Rafa fazendo um trabalho fantástico…e é um álbum extremamente imagético, parece até uma peça sendo executada, e a gente ouve tentando construir essas imagens.
Ainda sobre A Lira, Ayrton, como é que foi dirigir essa banda? Porque tu assinas a direção artística do álbum, né? E como eu disse tu vinhas de trabalhos que eram mais contidos, digamos assim, em termos de banda. E aí vem uma banda enorme com vários instrumentos…
Ayrton Montarroyos
Foi muito diferente no sentido de que realmente a banda era mais repleta, os músicos se revezam nos instrumentos. O Rafa toca baixo, sintetizador, conga, canta, toca percussão e violão. O violonista toca dois tipos de violão, a flautista toca três tipos de flauta, percussão e canta. A gente se reveza em mil tanto no disco quanto no espetáculo.
Nesse sentido, esse tipo de trabalho em grupo exige que a gente tenha que administrar de outra maneira, mas ao mesmo tempo eu sempre fui muito dono das minhas narrativas musicais, sempre, sempre! Quando eu entro num estúdio, eu sempre sei o eu quero porque eu estudo muito na minha casa antes de compartilhar os meus desejos com alguém. A primeira reunião que eu tive foi com o Rafa, eu liguei pra ele e disse “Rafa, vem aqui na minha casa, vamos tomar um vinho e ouvir música porque eu tenho aqui algumas músicas que estão me cheirando a um show ou a uma coisa que eu quero fazer, ainda não sei direito” E aí começou a vir.
Primeiro chegou a ideia de um espelho redondo no centro do palco, antes de qualquer coisa. Eu disse “Rafa, eu acho que as pessoas têm que se ver em cima do palco, eu quero um espelho voltado pro público e que o público se veja em cima do palco. Esse espelho tem que ser imenso.” Botei isso na minha cabeça. E a partir dessa ideia do público se ver, eu disse “Meu Deus, isso é uma história de todos nós, como é que eu vou contar essa história? Isso tem que ser um folclore.”
A ideia era meio que enganar as pessoas no teatro, as pessoas têm que esquecer que estão no teatro, como é que elas esquecem disso? Vamos suprimir os aplausos, isso nos ajuda, porque você não tem a quebra, você fica toda hora imantado, até quando tem uma pequena pausa, você não sabe nem direito se é pra aplaudir ou não.
Isso é muito interessante, porque muda a relação do público com o consumo do teatro. Minhas vontades iniciais eram essas. Conversei com o Rafa, definimos um repertório que segui em parte, e começamos a testar músicos. Eu queria alguém que tocasse viola, violão e cavaquinho, mas não encontrávamos quem tocasse os três. No fim, voltei pro Rodrigo Campos, com quem já tinha trabalhado cantando Caetano. Ele tocava um violão de aço muito bonito e ainda contribuía com os arranjos, então chamei ele.
Também queria flauta e fazia questão de ter uma mulher na banda. Nunca tinha trabalhado com mulheres na formação e me sentia envergonhado por isso, até porque tenho muitas amigas musicistas. Sendo um artista gay, sei o que é estar à margem de certas expectativas, então pensei: “Tem que ter uma mulher nessa banda.” E aí encontramos a Ariane Rodrigues depois também de ter feito um teste.
A gente fez teste com várias pessoas que nem chegaram a entrar no disco, e isso foi muito doido. A pessoa saía e eu sentava com o Rafa pra decidir. Teve um cara que tocava viola lindamente, mas a cada música precisava de uma afinação diferente. Como é que eu ia fazer um bloco de 20 minutos com o cara afinando entre uma e outra? Não dava. A gente foi se esbarrando nas dificuldades e também acertando ao longo do caminho.
Quando a banda fechou, eu quis criar tudo do zero. Foram 26 ensaios de criação e passagem. Os arranjos surgiram de jeitos muito malucos. Conceição, por exemplo, nem ia entrar no show, e muito menos do jeito que entrou. O Rodrigo fez um riff, eu cantei “Conceição, eu me lembro muito bem…”, e percebi que a história daquela mulher me pegava — uma mulher no morro, que vira prostituta e se perde. A gente fez tudo em modo menor. Conceição em modo menor! Isso é quase um crime pros puristas.
E aí eu pensei: “Tô fodido.” Porque o meio que eu mais habito é esse. Sou amigo do Arthur Nestrovski, da Mônica Salmaso, do Edu Lobo, do Nelson Ayres… essa galera que é bem purista. Pensei: “Eles vão ouvir isso e vão achar uma merda só porque a música é maior e a gente tocou em menor.” Mas você tem que ter coragem, tem que fazer o que acredita.

Outra coisa que surgiu no ensaio foi misturar Antônio das Mortes com Upa, Neguinho. Ensinei a banda a cantar: “Canta isso aqui, segura aí, agora eu vou cantar em cima.” Duas melodias, duas letras diferentes, numa harmonia só. Foi divertido pra caramba, mas também bem sacrificioso. Tinha dia que a gente não saía do lugar.
No dia seguinte a gente voltava com mais gás, mas também administrando as expectativas, porque a gente vai vendo a coisa tomando forma e a gente vai querendo sair um pouco do escopo da ideia e eu tinha regras absolutas sobre esse trabalho, não do que ele poderia ser, mas o que ele não poderia ser. Isso eu tinha claro. Eu escrevi que “não seja assim, que não soe assim, que não pareça com isso, que não caia num disco Transa do Caetano Veloso que não caia não sei o que…” Sabe? A gente quer construir uma casa nesses moldes, então é isso aqui. Não é porque eu fiz uma estrutura que dá pra levantar um prédio, que eu quero um prédio. Eu quero uma casa com uma boa estrutura.
Eu cresci muito como artista com esse trabalho. Eu acho que a Lira foi um trabalho que me batizou assim, como artista. Pra mim, não pro mundo, porque ninguém ouviu esse disco, mas pra mim foi uma coisa que me ensinou muito. A responsabilidade emocional que eu tenho com os meus músicos, com as pessoas que trabalham comigo, às vezes as pequenas discussões, às vezes uma rusga que acontece…foi muito forte.
O processo desse disco foi uma coisa muito intensa. A gente se amalgamou. Tanto é que o Rodrigo agora…a gente nem se fala mais direito, ele saiu da banda. Mas a gente, todos nós, nos tratamos com muita delicadeza. E eu acho que isso foi o que fez o disco chegar no ponto da gente gravar esse disco em apenas dois dias. Foi gravado um dia inteiro de instrumentos, com uma voz guia que eu botei, e no outro dia eu gravei todas as vozes numa tarde, em quatro horas. Eu gravei a voz do disco todo duas vezes, pra gente poder escolher qual ficava melhor em cada take e assim foi. Não teve correção, não teve melodyne, não tem afinador, não tem nada. É um disco orgânico, feito em grupo de uma maneira muito bonito e batizado por Hermínio Bello de Carvalho com esse nome maravilhoso A Lira do Povo, que me remete a toda mitologia que eu amo da lira, a mitologia de como esse instrumento foi criado, e também a lira do produto cultural do povo.
E foi feito por um grupo de brasileiros, de pessoas dissidentes das suas vidas. A Ariane é uma mulher do interior de São Paulo, de Tatuí. O Rafa é um pernambucano de Olinda, o Rodrigo Campos é um cara de São Mateus, periferia de São Paulo, eu sou um cara de Recife. A gente juntou esses artistas com essas vidas e com essas histórias tão particulares pra fazer um disco que realmente é nosso. Por isso que quando eu falo desse disco eu sempre falo no plural. Fizemos, cantamos, acontecemos.

Paulo Vinícius Coelho
Ayrton, tem uma característica do teu trabalho que eu adoro, que é o fato de que durante os shows você conta as histórias das músicas, dos autores, da época em que elas foram feitas. E isso me fez criar uma identificação muito particular contigo. Inclusive, o seu show cantando Lupicínio Rodrigues, eu devo ter assistido umas dez vezes pelo Youtube, a ponto de piratear o CD para presentear um amigo aqui em São Luís que é colecionador e me pediu para conseguir esse CD [Seu Léo, do Bar do Léo]. Eu explicava que ele não tinha saído em CD, mas no fim eu tive que encontrar uma solução.
Então, esse seu lado contador de histórias, nos shows, ele é programado, no sentido de que você, escolhendo o repertório, já pensa no que vai dizer, ou isso acontece de maneira espontânea?
Ayrton Montarroyos
Olha, depende muito de cada show. Por exemplo, a Lira é um show que eu entro mudo e saio calado. Eu não dou um pio, nem boa noite. Eu só dou boa noite no bis. É uma loucura isso. Eu até falo: o Lira é o show mais maluco da vida de vocês; o cantor só deu boa noite depois que acabou.
Mas, nos outros shows, é uma coisa que vem do meu gosto por música. Por exemplo, agora esses livros aqui dessa pilha [Ayrton mostra a estante], são os que eu estou lendo agora. Os outros ficam ali nas estantes. Então, eu tenho muitas histórias na cabeça de música: pílulas, coisas interessantes. As chatas, claro, eu não conto, porque aí são catedráticas demais.
Mas as legais…por exemplo: eu fui fazer um Elis e Tom com o Nelson Ayres, me convidaram pra cantar o repertório e eu botei o Águas de Março pra fechar o show, ao invés de colocar no começo. E quando eu fui cantar, o Nelson me deu a entrada, e eu antes de cantar, o Nelson sabia que eu ia brincar com ”é pau, é pedra, é seixo miúdo, inda a baiana por cima de tudo”. Aí eu disse: Nelson, desculpe por isso, mas eu quero explicar ao público que essa música chama-se Pisa Baiana, de 1930, e ela começa com os versos ”é pau, é pedra, é seixo miúdo”.
O Tom Jobim nunca falou disso, mas antes disso se tornar uma composição dos irmãos Valença, isso já era um ponto de matriz africana e era ”é pau, é pedra, é seixo miúdo, pisa caboclo por cima de tudo“. Era um ponto de caboclo isso. O Tom já tinha feito isso outras vezes, por exemplo, em O Boto, que ele coloca “ontem vim de lá do Pilar, inda ontem vim do lado de lá, mas tô com vontade de ir por aí, Cristina...”
E o Pilar é uma música do Jararaca, que veio muito antes do disco do Tom. O Tom tinha por esse procedimento de citar a própria música. Então, eu contei essa história e as pessoas acharam um barato, porque ninguém naquele teatro conhecia Pisa Baiana. Imagina. Foi gravada a primeira vez pelo Carlos Galhardo, mas isso é uma coisa que sempre que eu ouço Águas de Março, eu sei disso. Então, por que não contar?
E eu tenho percebido, Paulo, que o jovem – aliás, não só o jovem – tá todo mundo assim…disperso. Quando eu falo pra você que eu fiz um disco inteiro que os jornalistas não me perguntam as coisas, é verdade. Eu tô cantando Casa Forte e ninguém ouviu Casa Forte lá no disco. Eu não botei lá no setlist de propósito pra ver se as pessoas se tocavam, mas nada. A subjetividade é uma coisa que não tem mais espaço no mundo de hoje. A gente tá ficando cada vez mais objetivo e menos figurativo. E um dado interessante é que as pessoas estão usando a palavra “literalmente” de maneira inescrupulosa. “Literalmente, eu comi o diabo que o pão amassou.” Não, você não comeu. Comeu figurativamente. É uma turma que não sabe mais nem o que é literal, pra você ter ideia.
Então, essas subjetividades, essas ideias coletivas de uma atitude brasileira, de uma cultura pretensamente brasileira, tudo isso é passado muito despercebidamente, ninguém dá muito valor a isso. E eu fui percebendo isso com a minha presença na internet, que, por incrível que pareça, não é pequena, porque eu não tenho uma continuidade do trabalho, eu não posto vídeo toda semana, não tiro foto sem camisa, não entro em assuntos polêmicos e mesmo assim minha página tem uma audiência que entende, que se afina com o meu gosto. Através dessa página eu fui entendendo o quanto as pessoas precisam ser lembradas das suas próprias ignorâncias e de que elas também podem saber daquilo.
Se um pirralho de 30 anos tá ali falando aquilo, por que você não pode ouvir sobre aquilo, aprender sobre aquilo? É uma coisa que eu sempre tive desde criança: um gosto muito grande por ensinar o que eu sei. Eu dava aula de reforço quando era criança. Sempre que tinha alguma coisa no colégio – uma feira de ciência, sei lá – eu me colocava a falar pra explicar…eu sempre fui engajado na transmissão, através da oralidade, das coisas que sei e sempre procurei pesquisar muito as coisas que gosto.
É mais um processo muito natural pra mim que nos shows vai se manifestando de acordo com uma vontade. Agora eu tô com um projeto de espetáculo que eu quero fazer realmente pautado nesses ensinamentos de música brasileira. Eu quero fazer uma coisa voltada pra jovem, pra escola pública, pra fazer um trabalho social com isso, mas aí vai ser uma outra coisa, aí realmente vai ter um texto. Talvez eu contrate um roteirista, um diretor de teatro pra fazer uma cena com esse texto, pra não ficar uma aula magna, entendeu? Ficar uma coisa artística, bonita, mas que ao mesmo tempo você vai entendendo a cultura do Brasil através das músicas.

Paulo Vinícius Coelho
É engraçado isso que você tá dizendo sobre transmissão de conhecimento porque, como eu te disse, eu acompanho o teu trabalho há muito tempo e eu, assim como você, me dou bem com os velhos [risos]. Conheço muita gente, muitos músicos daqui de São Luís e aprendo sempre muito com eles. E é curioso porque há alguns anos eu é que dizia ”ouve esse trabalho aí do Ayrton, dá uma olhada nesse menino”. E agora eles é que chegam pra mim e dizem: o Ayrton fez algo novo! Essa gravação que saiu no Youtube, por exemplo, do show que você fez com o João Camarero, foi recomendada por um colega muito mais velho.
Ayrton Montarroyos
Que maravilha. E, eu vou te falar, eu sem querer fui me tornando o intérprete mais jovem a ter mais discos sobre música brasileira que eu conheço. Ninguém tem um trabalho tão extenso de música brasileira com tão pouca idade como eu tenho. Se você for ver, essa cacetada de discos eu fiz quando eu tinha 25, 26 anos de idade. Foram 30 lives, cada live com 10 músicas. Foram 300 músicas num espaço ali de 5, 6 meses. Era uma coisa impressionante. Nem eu sabia que eu tinha tanta capacidade de decorar tanta música, porque foram lives, não eram discos. A gente não tinha nem ensaio.
Esse trabalho do Lupicínio, que você mencionou, o João Camarero morre de rir até hoje, porque as pessoas falam ”aquele seu disco de Lupicínio com o Ayrton…” aí o João: que disco? Porque a gente não ensaiou. Era pandemia, ninguém se encontrava. Ele ligava pra mim, botava o telefone e perguntava ”esse tom tá bom?” eu cantava um pedacinho na minha cabeça e pensava ”é, tá bom”. Chegava no dia da live, a gente passava as músicas 30 minutos antes, tirava as máscaras, fazia a live no modo “vai! quem sabe faz ao vivo!” Tanto é que tem vários errinhos.
Eu acho que essa do Lupicínio ela é bem impecavelzinha. Era um repertório que eu tinha muito conhecimento. Mas a dos compositores novos, que eram músicas que eu tinha que aprender, ou alguma coisa que eu tinha que aprender, tem um errinho aqui, outro ali, que eu nunca me preocupei com eles por saber da situação toda. Imagina. Eu sou uma pessoa que faz 26 ensaios para levantar um show, então pra mim aquilo ali não era nada de ensaio, nada de preparação.
Mas, o trabalho que a gente fez pra música brasileira, quem tiver acesso a essas lives – que é um trabalho que vai ficar aí pra sempre – você vai ter uma aula de música brasileira. Era impressionante. Eu ligava para os meus amigos pesquisadores pra bater as histórias que eu ia contar nas lives e na primeira live eu fui orientado a não dar um pio. O meu empresário falou ”não fica falando muito de música, dando aula, que as pessoas não gostam, não fica muito professoral não.” E aí eu fiz o que eu queria. Eu fiz o que quis. Eu disse: não, eu tenho que falar. É uma live, não é um show.
Eu falei da história de Cartola, falei das mulheres na música brasileira, fiz homenagem aos 100 anos de Elizeth Cardoso, falei dos cantores do rádio, falei do samba, falei de João Gilberto e a bossa nova, falei de compositores novos, falei do brega, falei da música nordestina em três partes, falei do pessoal da tropicália…enfim…foi um apanhado de música que é um trabalho que eu realmente tenho orgulho.
Se eu tivesse uma boa vontade maior de instituições públicas e privadas, esse trabalho deveria ser passado em escola, porque é tão fácil…não é nada professoral, é super tranquilo, numa alegria maior do mundo, numa felicidade. E o público que a gente tinha naquela época era imenso. A live do Lupicínio, por exemplo, teve quase 4.000 pessoas assistindo simultaneamente. Isso é muita coisa. E a gente sem nenhum apoio. O apoio da Biscoito Fino era pra pagar o estúdio. Eu dei todas as masteres pra não ter custo, mas não ganhei um tostão por nenhum desses trabalhos.
É a vida da gente, né. A gente só dá e o povo ainda acha que a gente recebe demais.

Paulo Vinícius Coelho
Ayrton, ainda sobre esse show que você tem feito com o João Camarero e que tá disponível no YouTube, não sei nem se com o seu consentimento…
Ayrton Montarroyos
Não! Alguém gravou. Gravaram o show inteiro [risos]. Eu ainda não assisti, fiquei sem coragem.
Paulo Vinícius Coelho
É linda a versão de Ponteio que você faz nesse show…mas a questão é a seguinte: tem nessa gravação uma parte que você fala que quando a Nana Caymmi morreu você chorou o dia inteiro…
Ayrton Montarroyos
Fiquei sem comer!
Paulo Vinícius Coelho
Isso me lembrou os comentários que você fez na live sobre o Lupicínio, dizendo que já tinha sofrido tanto por amor…aí eu quero te perguntar qual foi a última vez que você chorou por causa de música? Foi hoje?
Ayrton Montarroyos
Foi quase agora! [risos]. Olha, música e cinema são duas coisas… e literatura também…a arte é um negócio que me acaba. É a imaginação. Tem uma coisa linda numa música que Ivone Lara fez com Caetano Veloso, que ele faz a letra assim “força da imaginação, vai lá além dos pés e do chão, chega lá, o que a mão ainda não toca coração um dia alcança”.
Quando uma pessoa sensível à arte se encontra com um trabalho muito bem feito de um artista e esse trabalho vai te suscitando idéias de mundo, a tua imaginação se encontra com a imaginação desse artista num plano que é só seu, num universo que emociona.
Eu sempre falo isso: se eu tivesse vindo de outro planeta e encontrasse vida aqui, o que é que eu ia fazer? chorar! Chorar diante da beleza da vida, da raridade do encontro…é tão raro! Eu choro num filme não só por conta da história, eu choro pela beleza. Tem cenas que não tem histórias e eu choro.
Eu outro dia ouvi a Ella Fitzgerald cantando Midnight Sun, inclusive liguei pro Edu Lobo pra dizer que eu tava mandando uma música, quando eu mandei ele disse: essa é uma das músicas preferidas da minha vida. Eu conheço tanto o gosto musical dele que eu mandei uma música que ele ama sem saber que ele amava. Eu chorei com a interpretação da Ella Fitzgerald quase não entendendo palavra alguma porque o meu inglês é muito ruim. Eu chorei pela interpretação, pelo subjetivo. É um mistério, eu não sei explicar o motivo, mas eu me emociono muito mesmo. Quando eu li A Hora da Estrela, me emocionei. Me emocionava quando chamavam a Macabéa de feia. A forma como ele falava que ela era feia me fazia sentir humilhado. Eu chorava. Parecia que era eu que tava sendo chamado de feio de uma maneira tão dura e ao mesmo tempo como se tivesse pena “pobre Macabéa, tão horrorosa, tão desgraçada, tão burra.” Aquilo tudo me dava uma tristeza própria da arte. Imaginar o que a mão ainda não toca, coração um dia alcança, a força da imaginação. Supor coisas junto com a obra. Isso me emociona.
Paulo Vinícius Coelho
Muito bonito, Ayrton. Eu vou propor para a gente encaminhar para o final um bloco de perguntas curtas, e tem uma pergunta, aliás, que é fixa do site. A gente sempre pede para os entrevistados uma indicação e uma contraindicação.
Ayrton Montarroyos
Uma indicação é o Rastilho, que eu já citei aqui. É um disco que eu indico profundamente. E indico também Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo. Acho um rock brasileiro lindo e vivo. Indico muito a Josyara, todos os trabalhos dela, principalmente ao vivo. Indico também o trabalho da Alessandra Leão, que eu respeito tanto e indico muito.
E eu contraindico tudo aquilo que todo mundo gosta. Desconfie do que todo mundo gosta demais. Hoje em dias as pessoas estão gostando de tudo que o marketing coloca e o marketing só dá valor, só dá prioridade, ao que é mais pueril e mais pobre. A gente tá comendo osso achando que tá comendo filé. A gente vai encontrar muito filé nos trabalhos do Vitor Araújo, um pianista de Recife, agora mesmo fez um trabalho chamado Angústia, que fala da relação da gente com as redes sociais. Um pianista fazendo isso. Um show que tem projeção dele dentro do camarim. Uma coisa interessantíssima. Tudo isso está acontecendo agora no Brasil. A gente vê um cara como o mestre Anderson Miguel, que com 30 anos de idade já é mestre em maracatu, que lançou um disco chamado Sonorosa alguns anos atrás que é um disco lindo, produzido pelo Siba, que é outro que eu super indico. Um grande pesquisador da música brasileira, um grande artista, um grande músico. Indico também as pessoas mais velhas. Os artistas nossos que tão aí trabalhando há 75 anos como Claudette Soares, que é uma mulher que tem uma história tão importante. Não há nenhum livro sobre música desses que eu leia que não tenha o nome de Claudette, que não tenha o nome da Dóris Monteiro, da Leny Andrade, da Alaíde Costa…dessas grandes figuras.
Paulo Vinícius Coelho
Ayrton, se você pudesse responder quem diz pejorativamente que você só ouve música antiga, o que é que você diria?
Ayrton Montarroyos
Eu diria que eu ouço mais música do que quem diz isso.
Eu conheço de música como poucas pessoas conhecem. Eu sou extremamente arrogante em relação a isso, eu não tenho nenhuma humildade [risos].
Eu me acho um cantor de merda, quem me conhece sabe. Eu me acho um cantor de merda, odeio me ouvir cantar, detesto a minha voz. Não gosto nem tanto de cantar, eu prefiro ouvir música. Agora, ouvindo música, ninguém ataca a minha chuteira, porque eu ouço tudo. Eu ouço música eletrônica, eu ouço rock, eu ouço funk, eu ouço brega. Eu sou de Recife. Eu sou de uma cidade onde a gente foi criado com frevo, maracatu, caboclinho, forró, brega… tudo. Tudo eu ouço.

Só não escuto o que não vale a pena escutar, por exemplo, sertanejo universitário que é uma coisa péssima. Nada ali é bom. Nem Marília Mendonça, que querem dizer que é incrível. É horrível. É péssimo. É muito ruim. A criação é horrível. Eu adoraria que fosse incrível, eu ia ser o primeiro a amar. Mas, não é o caso. Não gosto daquilo. Acho massificada no pior sentido da palavra. Vai tirando tudo até ficar uma única célula que todos concordam. Isso não é um processo que eu respeito em arte.
Como artista, assim como o arquiteto pode olhar para um prédio e dizer que é feio, eu posso dizer que não gosto, que é ruim. E espero que digam também isso de mim, porque aí a gente debate. Não gosto dessa coisa de não poder falar. Isso é muito triste do nosso tempo. É uma coisa que acontece em todos os polos da nossa cultura e isso é muito triste.
Mas, eu escuto muita música. Eu tenho amigos muito diversos. Meu cabeleireiro, por exemplo, chegou aqui e me mostrou um trecho do Echoes, do Pink Floyd, que já é uma banda que eu adorava, mas conhecia pouco. Aquilo é de chorar se ouvindo.
Eu já fiz um experimento de noise com Thiago Miazo, que é um dos caras mais importantes no noise hoje, aqui em São Paulo. Fiz já shows conceituais nesse sentido com o Vitor Araújo chamado Mercúrio, que era um show onde estava Kiko Dinucci, que era só barulho e eu ficava só fazendo umas vozes.
Eu escuto muita música e vivo vários tipos de música. Eu sou amigo da Sophia Chablau, da Ana Frango Elétrico, da Nega do Babado, que faz brega em Recife. Já cantei com todos eles. E já cantei com Edu Lobo, com Alaíde Costa, com Ângela Maria…
Agora, quem diz muitas vezes que eu só escuto um tipo de música tá falando de si mesmo, porque eu começo a falar de música com a pessoa e pergunto “qual a sua descoberta?” e sou respondido com “Duda Beat, Liniker…” Isso é sua descoberta? Eu conheço tudo isso que você conhece e você não conhece nada do que eu conheço. Como é que pode? É você que só ouve um tipo de música [risos].
Paulo Vinícius Coelho
Eu acho louvável que alguém tenha coragem de dizer isso, porque tem esse tabu em relação a música que ocorre muito menos no cinema, por exemplo.
Juliano Amorim
A gente esbarra nesses grandes consensos. agora mesmo no domingo eu estava no churrasco e todo mundo dizendo que a Anitta é uma grande empresária. Não sei se você gosta, talvez seja. Eu não acompanho direito. E que a Marília Mendonça é uma grande compositora brasileira, não sei o que… eu acho que há aspectos ali e acolá que a gente pode pensar, mas, no geral…
Ayrton Montarroyos
É aquela coisa: quais outras compositoras brasileiras você conhece? E outra coisa: o que é que você entende de empresariado? É como se eu chegasse no McDonald ‘s e dissesse: que grande restaurante! porque tem no mundo todo, é o que mais vende hambúrguer, é o melhor hambúrguer do mundo? Não tem comida boa, tem marca.
Juliano Amorim
Zeca Baleiro e Ed Motta falam que arte se discute, sim. Não existe essa história de que arte é subjetiva e ponto. Eu queria que você dissertasse sobre isso.
Ayrton Montarroyos
Vou dizer uma coisa muito breve. O jingle da campanha do Jair Bolsonaro em 2018 é uma música, utiliza de uma linguagem musical. Essa música é tão grande quanto Mozart? E essa é a pergunta que eu faço para a pessoa que diz que arte não se discute. Se o jingle do Jair Bolsonaro para a campanha for igual a uma sinfonia de Mozart, então, não existe música. Porque se tudo é música, nada é música. Eu acho que está muito claro e as pessoas que falam isso às vezes estão escondendo um pouco a sua ignorância. As pessoas se envergonham de não conhecerem muitas coisas e aí elas tomam atitudes que não são adequadas pra quem não conhece muita coisa. Porque quem não conhece muita coisa se envergonha e vai conhecer. Mas as pessoas procuram se blindar de argumentos que mantenham a própria ignorância. Isso é muito triste.
Quando eu digo que o que a Anitta faz pro funk é ruim, é porque quero chamar atenção pro Mc Rick, lá de BH [Belo Horizonte], que tá fazendo um som muito mais potente, com raiz, com revolução estética de verdade. É uma virada dentro da música de experimentação brasileira, na eletrônica, na instrumental. Desde os trabalhos malucos do Lindolfo Gaya com a Stellinha Egg nos anos 60 e 70 eu não via algo assim. E se você comparar com Kraftwerk, por exemplo, vai ver que o Mc Rick já tá muito mais pra frente.
O cara tá fazendo um negócio bonito. As letras têm putaria, palavrão, e é isso mesmo. É o jeito que esse tipo de música expressa as coisas. Amor pode ser tesão também. Dizer que a novinha vai sentar pode ser tão nobre quanto uma outra letra. Foda-se o que ele tá dizendo, o que importa é como ele diz.
O ritmo, a métrica do Mc Rick, me lembra samba de embolada, tudo num ritmo muito acelerado, com poucas palavras. Isso eu não vejo no trabalho da Anitta, que pra mim é pasteurizado.
Então, pra esconder a própria ignorância de muitas pessoas em relação ao funk, elas dizem “ah, mas isso aí é o seu gosto.” Mas o meu gosto é construído com base. Eu tenho escutado muita coisa, lido muita coisa. E você?
Às vezes, tudo bem, eu gosto de comer macarrão depois de 30 minutos de cozimento. Eu gosto de comer uma papa e eu como assim. Tudo bem, mas você come mal. O macarrão não se come assim. Pergunte a qualquer um, que vai te dizer que tem que ter o ponto, a consonância dos sabores, a resistência do fio do macarrão, o aveludado do molho…isso é refinamento. Na música, mais do que no paladar, é um refinamento de ideias. É você refinar o gosto.
Eu vim de uma situação que eu estudava numa escola dentro de uma favela, morei num bairro da periferia até os meus 15 anos de idade, fui criado por uma avó que ganhava um salário mínimo, não tive possibilidade de fazer faculdade porque eu trabalhava de madrugada. Não tinha dinheiro pra fazer cursinho, nada disso. E tudo que me fez na vida foi aquilo que eu refinei. Toda a minha sabedoria vem do que eu li, do que eu ouvi. Eu não gostava de ouvir muitas músicas, mas isso não era impeditivo, porque não gostar é um problema meu. Eu tenho que ouvir pra saber por qual motivo não gosto. Eu me perguntava ”por que eu não gosto?” e eu fui surpreendido com outra pergunta: ”por que eu tô gostando?”

Eu fui estudar isso. Fiz grupos de estudo sobre arte, tenho grupos de pesquisa sobre arte, sobre estética. Eu sou claramente de uma linha que defende que há coisas que são obras de arte e outras que não são. “Parabéns pra você” não pode ser tão maravilhoso quanto Construção de Chico Buarque. Isso é evidente. Qualquer idiota pode atestar. Agora, se a gente quiser uma coisa mais elaborada e for pro meio acadêmico, há uma pesquisa que existe há milhares de anos. Não é porque não conheço que não existe. Nem tudo é questão de gosto. Há estudos acadêmicos provando que música, que as partituras tem relação estética, que os versos têm relações importantes entre eles, relações de simetria, de assimetria, conjuntos importantes para os fatores que vão alterar o entendimento e as percepções culturais daquela música. Isso é muito maior do que todos nós. É uma conversa muito antiga. E, ao contrário do que muita gente diz hoje, essa conversa tem que ser feita. Tem que poder dizer “não gosto do trabalho de fulano. Sou um artista e não gosto.” Aí dizem “ah, mas você gostaria que falassem mal do seu trabalho?” É evidente que não, mas, vão falar, porque eu sou um artista e estou dando a minha cara a tapa. Quanto maior eu fico, mais cara a tapa eu tô dando. Eu gosto disso. Não quero me proteger de nada.
Aí você vê meninos hoje com 27, 28 anos sendo chamados de gênios. Sendo chamado de gênio com um, dois discos lançados. “João Gomes, maior cantor do mundo.” Como que pode? Um cara que canta e você não entende o que ele fala. “Ah, não, porque ele tem uma coisa de vaquejada.” Vaquejada? O que esse povo entende de vaquejada? É o que? Botar um gibão e basta? “Ah, porque fala de Luiz Gonzaga.” Luiz Gonzaga? Ele sabe quem foi Lúcio Maia? Sabe quem foi Carmélia Alves? Zé Gonzaga? Não sabe! O marketing em cima dessa galera é tão violento que pra qualquer ignorante que se blinda da sua ignorância aquilo ali é o máximo. É um cara que cita o Luiz Gonzaga, sabe? O cara mal deve conhecer o Luiz Gonzaga, imagina o que formou o Luiz Gonzaga esteticamente.
Você pode gostar? Claro! Eu adoro algumas coisas ruins. Adoro Alcione cantando A Loba. É uma merda, mas é divertido, eu amo. “Sou mulher de lhe deixar se você me trair…” Aí você vê a mesma Alcione cantando Rio Antigo do Chico Anysio e o Nonato Buzar e é um show. Ela é uma grande cantora e pode se dar o luxo de cantar até bobagem.
Então, essas coisas todas têm que ser discutidas, tem que ser faladas. E ao mesmo tempo, não tem que haver uma repressão da cultura popular. Isso eu sou contra. Eu não quero que nada deixe de existir, pelo contrário. Eu acho que Wesley Safadão tem que ter, Anitta tem que ter, Gustavo Lima tem que ter, porque as pessoas querem, eles querem cantar, tem gente que quer pagar, então tem que ter. Agora, a gente não pode começar a substituir os cânones da história da arte deste país por um bocado de bilionário que não tem preocupação nenhuma com a cultura popular e que não acrescenta em nada formalmente à estética do país.
Juliano Amorim
Ayrton, um disco que você tenha ouvido hoje.
Ayrton Montarroyos
Olha, eu tô ouvindo um disco chamado Promises [Floating Points, Orquestra Sinfônica de Londres e Pharoah Sanders]. É um disco bem monótono, no melhor sentido da palavra. E é lindo. É feito com uma orquestra e com instrumentos eletrônicos.
E outra coisa que eu tenho ouvido muito é o Choro Número 6 do Villa-Lobos que começa com a cuíca.
Paulo Vinícius Coelho
Ayrton, uma coisa que você sempre teve vontade de dizer numa entrevista não teve a chance até hoje.
Ayrton Montarroyos
Eu queria que todo mundo tivesse a oportunidade de dar uma entrevista para falar sobre seus trabalhos e que as pessoas tivessem a oportunidade de pensar sobre seus trabalhos, como que elas chegam nos resultados que elas chegam. Hoje em dia tá até acontecendo com podcast, as pessoas tão falando, mas eu queria que fossem entrevistadas por pessoas como vocês.
Essa profissão que eu tenho não é nada demais. É uma profissão muito pequena perto da realidade das pessoas, mas somos profissionais, somos pessoas que trabalhamos com aquilo que amamos e procuramos ganhar um dinheiro com isso, porque é assim que se vive.
Era isso que eu queria dizer numa entrevista: que não existe um lugar, um patamar mais alto ou mais baixo do que ninguém. Quando alguém me oferece a dádiva da escuta numa entrevista eu me sinto feliz porque é um privilégio que eu gosto de ter, é evidente, mas não acho que é devido a mim. Deveria ser devido a todo mundo. Todo mundo tem uma história muito interessante pra contar. Se as pessoas parassem para refletir sobre seus processos de trabalho, de criação das coisas, a gente ia ter uma vida mais interessante, mais inteligente. Então, pra quem nos lê e ouve: obrigado, porque você está ouvindo alguém que é todo mundo e não é ninguém.

Produção, revisão e texto introdutório por Paulo Vinícius Coelho
Entrevista por Paulo Vinícius Coelho e Juliano Amorim





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