
Diante da notícia de um novo filme sobre Noel Rosa, os mais entusiastas em matéria de música brasileira podem ter se questionado: mas tudo já não foi dito sobre o lendário compositor carioca? É evidente que falar sobre Noel, celebrar Noel, nunca é demais. Ele é como um símbolo nacional; merecedor de um orgulho patriótico.
Entretanto, a diretora carioca Joana Nin, realizadora de Noel Rosa – Um Espírito Circulante, mais do que promover uma homenagem, parece ter encontrado uma perspectiva muito atrativa para retratar o filósofo do samba. No filme de 70 minutos, medida que parece ideal para o documentário, Joana explora como a obra e a figura de Noel Rosa estão fortemente presentes na Vila Isabel, bairro carioca onde o poeta nasceu e viveu sob a condução do samba e da boêmia.

Na obra de Joana Nin, A Vila Isabel, local onde a diretora também reside, é um personagem tão protagonista quanto o próprio Noel. Contudo, o filme não comete o equívoco de ser bairrista. Poderíamos dizer que o particular dá a dimensão do todo. Ou, que a familiaridade com que Noel canta a Vila é tanta que seus elementos nos parecem também muito íntimos. Os “rastros” de Noel, como sugere a sinopse do filme, estão ilustrados na fábrica de tecidos da Vila Isabel (cantada em Três Apitos), nos bares, nas ruas, nos bondes, na escola de samba e em tantos outros componentes presentes nas cerca de 250 canções deixadas pelo Poeta da Vila.
Os depoimentos presentes no filme, especialmente os de moradores anônimos da Vila Isabel, ajudam a humanizar Noel Rosa. Veja: todos sabemos que o compositor é incrível, fascinante, vanguardista e lá se vão tantos adjetivos, todos justos. Mas Noel também foi profundamente desmedido. Viveu sob o domínio do exagero, da farra, da saúde maltratada. “Esse é o nosso Noel; é o cara da gente!” afirmam orgulhosos os moradores da Vila presentes no filme, como se falassem de um amigo próximo. Aliás, em determinado momento, algumas pessoas chegam mesmo a falar com o Noel (metaforicamente, é claro). Por meio da estátua instalada no meio da Vila Isabel, anônimos se aproximam e dialogam com o poeta.

Nesse balanço entre o Noel sagrado e o profano, Zé Renato e Moacyr Luz comentam a admiração profunda e a influência do poeta sobre o samba. “Eu achei que ele fosse uma lenda!” afirma o Moa em determinado momento, se referindo ao fato de que o compositor, a despeito de ter falecido jovem, com 26 anos, deixou uma vasta obra. Em passagens rápidas, pontuais, mas marcantes, Zé Renato e Dori Caymmi cantam o poeta.

A riqueza documental do filme também merece destaque. Não é cansativo e conta com depoimentos muito ricos de pessoas que conviveram com Noel Rosa, como Aracy de Almeida, Haroldo Barbosa, Braguinha e Nássara. E a despeito do filme tratar sobre uma figura que faleceu em 1937, a obra não exagera em imagens de arquivo (e o que aparece geralmente está remasterizado). Pelo contrário: já que o objetivo é falar sobre como o Noel e a sua obra estão vivos, o filme prioriza o presente. No fim das contas, o que Noel Rosa – Um Espírito Circulante quer dizer é o que Martinho da Vila afirma em sua entrevista: eu sinto que o Noel está vivo.

Noel Rosa – Um Espírito Circulante em São Luís
O filme terá sessão única e gratuita na Ilha na próxima quinta-feira, 22 de maio, às 19h, no Cineteatro Aldo Leite, situado no Palacete Gentil Braga (Rua Grande, 782). O acesso será feito pela entrada lateral do prédio, na rua do Passeio, em frente à Galeria La Ravardière. Os portões abrem às 18h, e a sala tem capacidade para 125 pessoas, com entrada por ordem de chegada.Após a exibição, o público será presenteado com um show especial em homenagem ao filósofo do samba. A apresentação contará com Zeca do Cavaco nos vocais, acompanhado por João Eudes no violão de sete cordas, João Neto na flauta e Carbrasa na percussão.
A sessão em São Luís é realizada pela distribuidora de cinema Turiaçu Filmes com o apoio desta Sociedade do Copo, da Vallent Produções e da Diretoria de Assuntos Culturais (DAC) da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEC) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
As próximas horas hão de confirmar se na programação, além do filme e do show, teremos degustação de bebidas, a exemplo do que ocorreu sessão do filme sobre Lupícinio Rodrigues em São Luís, também organizada pela Turiaçu Filmes.
Sinopse: Documentário musical que busca rastros deixados pelo compositor no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. O artista morreu aos 26 anos, em 1937, e deixou um legado de quase 250 músicas. O filme cria paralelos entre passado e presente, sobretudo pela forma como o samba e a figura de Noel Rosa se misturam até hoje ao redor de seu berço criativo. Vozes de antigos parceiros, como Cartola, Aracy de Almeida e Marília Batista, se juntam às de intérpretes atuais, como Dori Caymmi, Moacyr Luz, Mart’nália e Edu Krieger, entre outros.
Elenco: Dori Caymmi, Edu Krieger, Moacyr Luz, Martn’ália, Cláudio Jorge e Nilze Carvalho
Ficha técnica:
Direção: Joana Nin
Roteiro: Joana Nin
Produtora: Sambaqui Cultural
Produção: Ade Muri e Joana Nin
Direção de Arte: Dalila Aguiar
Fotografia: Elisandro Dalcin e André de Paula
Distribuição: Boulevard Filmes
Codistribuicão: Vitrine Filmes
Duração: 70 minutos






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