
Pouco mais de 19h, o cantor, compositor e multi-instrumentista Marcos Lamy nos abriu as portas de seu apartamento, próximo à zona litorânea de São Luís. Nem o calor desconcertante registrado na ocasião – um pouco mais acentuado que o habitual -, o fez crispar o semblante ameno, de riso fácil e a postos.
Na sala, a luz amarela, no centro, era o atavio das paredes claras, em companhia das muitas samambaias ao fim do corredor, todas testemunhas das mais de duas horas de conversa em que o anfitrião, Lamy, comentou o início de sua carreira, os primeiros discos, a relação tempestuosa com a música e os detalhes de seu mais recente lançamento, “Braço de Mar”, disponibilizado nas plataformas digitais no fim de maio.
“Meu irmão ia ser o músico da casa”, disse ele, logo ao fim da primeira frase, ao referir-se às habilidades musicais de Gabriel Lamy. Ambos cresceram em um ambiente de exposição aos sons, já na infância, em sessões de música, com professores, além de aulas em corais e, mais informalmente, atentos ao pai, que, médico por formação, dedicava-se também às atividades casuais e descompromissadas ao violão.
Apenas na adolescência, após acompanhar o processo de musicalização de Gabriel, Marcos Lamy passou a dedicar-se ao estudo formal de instrumentos. O período coincidiu com o ímpeto por uma criação autoral de músicas, a reboque de suas influências artísticas de então, do indie rock aos tropicalistas. “Imediatamente, com os meus amigos da escola, a gente já montou uma banda. Ninguém sabia tocar e a gente já tinha um grupo. Eu já tinha um violão, então decidi tocar guitarra”, recorda.
Mobilizados por um afã juvenil e pelo desejo de comunicar, o grupo deu início às primeiras composições autorais. “Nunca fui o cara do cover”, confessa, ao descrever como soberano o processo criativo nos primeiros anos do grupo Nova Bossa – cuja atividade se deu entre o fim dos anos 2000 e a primeira metade dos anos 2010. “A primeira música que a minha banda aprendeu a tocar foi uma música que a gente compôs, ali, na hora”.
A primeira fase na música: Nova Bossa, shows e primeiros discos
Lamy ingressou na graduação em ciências sociais, no fim dos anos 2000. Ao chegar à universidade, envolveu-se com o ambiente de criação a todo vapor, em São Luís. Poetas, artistas plásticos, compositores e jornalistas, distribuídos pela cidade, em espaços como o Centro de Criatividade Odylo Costa Filho (atualmente, fora de funcionamento), antigas casas de shows, como Let it Beer e a Catarina Rock Show, além de iniciativas como a CasaLoca e o Sebo no Chão.
“Na nossa cabeça, a gente estava inventando uma cena de música autoral”, explica Lamy, revelando a mentalidade que impulsionou o movimento “A gente foi nessa intenção de “é, se não temos uma música autoral, vamos fazê-la”, e fizemos. Foram muitos shows”, completa.
Nesta mesma época, a primeira edição do Festival BR-135, ocorrida em 2012, parecia sintetizar as ambições daquela geração de artistas. No primeiro line-up, Lamy e sua banda, Nova Bossa, apresentaram-se na companhia dos grupos Pedeginja (em cuja formação Paulão, hoje em carreira solo, era um dos membros) e Stalingrado.
O compositor ainda pontua o vazio que se firmou entre as intenções de sua geração, entusiasmada em criar músicas a partir das próprias experiências, e os artistas maranhenses de notável safra autoral, como Josias Sobrinho, César Teixeira e Sérgio Habibe. “A galera sabia que existia [outros artistas interessados em compor as suas próprias músicas] mas o que tínhamos como referência era Josias Sobrinho, César Teixeira, uma turma um pouco mais velha. Havia algumas bandas que a gente até ouvia falar, mas que só se dedicavam aos covers”.
A leva de canções compostas por Marcos Lamy não se restringiu, àquela altura, apenas ao Nova Bossa: em 2013, o seu primeiro EP, Eu Tô é Tu, foi lançado; um ano depois, houve o lançamento de Cabeça ao Fai, o primeiro disco solo. Os dois trabalhos já sinalizaram versatilidade de gêneros, expansão e domínio de linguagens e um certo grau de experimentação – mais evidente no segundo registro.
“No Eu Tu É Tu, eu tinha ganhado uma grana de um processo, e gastei tudo para fazer o Cabeça Ao Fai do jeito que eu queria. No Cabeça ao Fai, eu quis explorar uma coisa maior do improviso, da falta de amarras, da evolução dos ritmos. Queria fazer para mim mesmo”, justifica-se.
A morte da paixão: música
Após dois trabalhos, uma carreira em consolidação, shows ao redor do país e pontes com artistas em outros estados, Marcos Lamy parecia intranquilo. Sobre o solo íngreme no qual a maioria dos artistas atravessam, perguntas vieram à tona e quase nenhuma resposta, neste trajeto, o satisfez. “Foram seis anos de hiato, entre o Cabeça ao Fai e o Meio [terceiro lançamento; segundo disco solo]. Eu estava tentando fazer música, me movimentando, tentando fazer shows, mas esse meu hiato foi um luto”.
O segundo disco de Lamy, Meio, foi lançado em 2020, durante a pandemia. A obra, composta por onze faixas, contou com a colaboração de diversos artistas de diferentes gêneros, incluindo nomes como Adnon Soares, Bruna Magalhães e Núbia, em um registro esmerado em delicadeza. No entanto, a baixa repercussão do disco resultou na profunda tristeza e decepção que se abateram sobre o seu idealizador.
“Não deu em nada. Foi muita terapia mesmo, porque eu vi uma morte de mim; minha morte construindo sonhos, expectativas. A autoimagem de mim enquanto artista, enquanto músico que compunha, que gravava álbum, que fazia shows. Quando chegou esse momento, a frustração foi tão grande que eu não queria mais”.
De 2020 em diante, Marcos Lamy decidiu abandonar a vida artística, dedicando-se, a partir de então, ao ofício de professor de crianças e jovens, em música. Mas não por muito tempo.
Braço de Mar. Recomeço.
Diferentemente de seus trabalhos anteriores, Braço de Mar, lançado no fim de maio, é resultado de um processo de maior mansidão no horizonte de pretensões de Lamy. “Braço de Mar foi essa sensação de abrir mão do controle. De que quem banha em um braço de Mar tem que seguir o rumo da maré, mesmo. Foi assim”.

A relativa paz no processo de criação do álbum deriva, em partes, da maturação longíqua do projeto. O artista recorda que, desde o início da carreira, acalentava o desejo em criar um álbum de forró, decidindo-se por fazê-lo imediatamente após as gravações do disco anterior: “Quando terminou o Meio, eu já tinha certeza que esse era o próximo álbum. Sabia que seria um álbum de forró, tanto que a primeira música que eu escrevi pra esse álbum foi Passarinho, que eu escrevi em 2019, 2020.
Orientado pela sonoridade da zabumba, do triângulo e da sanfona, a incursão de Marcos Lamy pelo gênero já se poderia observar na faixa que dá início a Eu Tô é Tu, a singela Baião de Rosa: “Desde que eu gravei o Eu Tu É Tu, que eu tenho ideia de gravar um álbum que esteja coeso em relação a um universo musical e cultural. Pensei em fazer um trabalho de samba e pensei no forró, Inclusive, quando eu terminei de gravar o Braço de Mar, um dos meus parceiros mais antigos [Hermes Castro, músico] comemorou que o projeto fosse finalmente sair”.
Braço de Mar começou a ser esboçado em julho de 2024, com gravações intercaladas, ao longo do ano anterior, e concluídas em janeiro deste ano. O grupo que participa do trabalho é formado por Vinicius Lima (percussão), Andrezinho (sanfona), João Simas (baixo e violão) e Memel Nogueira (Forró do Amor/Andar de Cima produções), que assinala a produção de cada uma das nove faixas.
“A minha ideia era gravar as músicas ao vivo, porque eu sei o potencial dessa galera, mas não aconteceu. É uma turma que toca maravilhosamente bem. Construímos [eu e a banda] tudo muito juntos. De todos os meus álbuns, esse foi o que menos teve sofrimento depois que começou”, sentencia.
Um dos destaques em Braço de Mar é o número de regravações: Lá Vem (Meio), Virá (Meio) e O Que Não é de Mim (Eu Tô é Tu) são remanescentes de outros trabalhos. A escolha pelo registro contínuo de composições gravadas em outras ocasiões representa, segundo o autor, um modo de manter uma sequência entre cada um dos seus álbuns. “Quero ter links entre os meus trabalhos. Isso é uma coisa que eu gosto muito, que o Tom Zé faz. Ele pega uma melodia do primeiro álbum dele, totalmente fora de contexto, e toca lá”.
Marcos Lamy ainda não definiu quais serão os primeiros shows, após o lançamento de Braço de Mar. “Tem que ver a agenda dos músicos”, diz. Por enquanto, o músico deve dar prioridade às suas atividades na Banda Pindaré Mirim, projeto o qual integra, especialmente dedicado para o ensino instrumental de crianças da comunidade do Boi de Pindaré.
“Minha formação é como arte-educador; hoje, eu me enxergo muito mais nesse lugar. O projeto mudou minha visão de música e me fez entender coisas que eu não estava sabendo explicar. É a partir dele que eu comecei a construir novos sonhos, uma nova identidade, uma nova forma de existir. Foi ao longo desse processo de luto e de convívio com a cultura popular, eu fui ressignificando o que é que música significa pra mim”.
Marcos Lamy comenta três de suas canções preferidas em Braço de Mar
Braço de Mar: – É o nome do álbum. Acho que representa melhor o argumento, assim, porque foi o que me motivou a abrir mão do controle e tentar fazer um processo de produção diferente dos outros, onde eu deixava as pessoas fazerem mais coisas, então a música foi escrita pensando nisso.
Menina do Zuza: – É sobre o meu relacionamento com Camila [Marques, esposa do artista, também inspiração da faixa Dois Beijos). A gente viveu todo um processo de luto, após a morte do pai dela, e isso ressignificou muito o nosso relacionamento então a música é sobre isso: entender que amor não é só alegria; amor também é estar junto quando as pessoas se necessitam e entender o que a gente pode significar uns aos outros.
Baião Dividido: – É uma lombra 100% intelectual. Em São Paulo, fiz umas aulas de jazz sobre conceitos, subdivisões e polirritmia em músicas. Com os músicos, brincamos com a questão dos compassos, que está por toda a música.





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