
O movimento dá o compasso da vida de Áurea desde sempre. Antes mesmo de completar ano, sua mudança de Manaus para São Luís a colocou em contato com essa ação tão característica das artes cênicas. O movimentar, no entanto, não está atrelado apenas aos inúmeros trabalhos nos quais a atriz fez de seu corpo catalisador da materialização de personagens e ideias, mas também na sua forma de existir e expressar.
Esses deslocamentos permeiam a artista, certamente. Mas a Áurea Teixeira, antes de se tornar Maranhão, teve a formação atravessada pelo São João, pelo Carnaval e tantas outras festividades e celebrações que a conectaram com nosso Estado e a levaram a encontrar plenitude nas ruas, palcos, telas e pessoas.
O movimento das lágrimas e sorrisos esteve presente ao longo do papo de Áurea conosco, fosse para falar do início de carreira, dos projetos de desmonte da cultura, da relação com a família ou das principais referências ao longo de 20 anos dedicados à arte.
Confira:
Paulo Vinicius Coelho
Áurea, quando ocorre a sua mudança de Manaus para São Luís e como foram os primeiros anos na nossa cidade?
Áurea Maranhão
Eu vim pra São Luís com seis meses de vida. A minha formação foi toda aqui, né? Meus primeiros alimentos culturais ligados ao Bumba Boi, ao carnaval, ao fofão foram aqui. Se você perguntar qual a minha primeira memória de uma manifestação cultural maranhense, são os fofões.
Eu cresci no Cohatrac IV. Lá a gente tinha uma cultura muito forte na rua. E, para mim, minha infância tem muito a ver com a artista que eu sou hoje. Eu fui aquela criança que sumia no mundo, me enfiava no meio do mato. Acho que eu fiz parte de uma das últimas gerações que teve esse privilégio de morar na cidade grande e ainda viver essa experiência de estar na rua. Eu lembro muito de ver dança portuguesa, lembro muito de ver quadrilha, lembro muito de ver o boi. O boi já foi um pouco mais tardio. Eu já devia ter uns seis anos. Foi na escola. Mas as minhas primeiras memórias realmente estão muito relacionadas ao fofão.
Paulo Vinicius Coelho
Engraçado perceber como a sua relação com o carnaval se expressa na sua carreira. Você dirigiu o curta-metragem Carnavalha [2017] junto com o Ramusyo Brasil e agora faz parte do Bloco Serpentina. Queria que você falasse um pouco mais sobre essa relação com o carnaval maranhense.
Áurea Maranhão
É muito forte. Mas é engraçado que eu sou muito do São João e, se você me perguntar o que eu prefiro, eu vou dizer que gosto muito mais de São João, porque é a época do ano em que eu mais consigo brincar.
O carnaval, eu brinco. Eu gosto, tem uma relação. Eu tenho um bloco não por acaso. E não por acaso eu ajudei a fazer o bloco pra brincar o tipo de carnaval que eu queria brincar, que era esse na rua, sabe? Com marchinha, fita, confete…
Eu sou casada com o Ricardo [Coutinho], que é um dos fundadores do Serpentina, junto com o Alessandro [Luis Silva], que foi o grande idealizador do bloco. Foi ele que criou a serpente, a alegoria. E é ele que faz essa alegoria todos os anos.
E aí, junto com eles, a gente, em São Paulo, no banzo da saudade do Maranhão, fez surgir o Serpentina, na cozinha da minha casa. Foi lá que a gente compôs o hino da Serpentina.

Paulo Vinicius Coelho
Áurea, falando de outro projeto muito importante na tua carreira. Há poucos dias o BR-135 divulgou uma nota falando das dificuldades para conseguir captação de recursos, da não autorização da SECMA [Secretaria de Estado da Cultura] para tentar captar recurso. E a gente tem esse cenário complicado aqui no Maranhão, em relação à lei de incentivo, principalmente. Por outro lado, no governo federal, os editais estão saindo, a gente tem um respiro… Eu queria saber como é que você vê essa divisão de forças e como avalia o atual cenário da produção cultural no Brasil?
Áurea Maranhão
Eu percebo que de 2017 pra cá a gente tem políticas públicas para desmontar a cultura. Eu concordo com o que tu disseste, que agora a gente teve um primeiro respiro. Mas até chegar nesse primeiro respiro da Lei Paulo Gustavo, da Lei Aldir Blanc, a gente veio num projeto político de desmonte cultural. E claro que o BR-135 sofreu com isso, assim como todos os outros grupos, de teatro, os grupos da cultura popular, os artistas independentes, as pessoas que estão começando a produzir cinema no Maranhão…isso veio como uma onda mesmo.
Acho que sim, as políticas públicas agora com a Lei Paulo Gustavo e Aldir Blanc deram um respiro, mas, infelizmente, no ano de 2025, a gente tem um grande problema que foi: o dinheiro chegou, mas eles estão repassando pro Carnaval e agora muito provavelmente passarão pro São João, de modo que estamos quase no meio do ano e ainda não temos nenhum edital lançado, nenhum projeto de fato em que a gente vá ver esse dinheiro circulando na mão dos artistas. Então, houve um avanço, mas o projeto de desmonte continua acontecendo.
E por mais que o governo tenha mudado, a gente agora está com outro presidente, eu não consigo olhar de maneira otimista o quadro, pelo menos não nos dois últimos anos. Eu espero que nos próximos anos a gente consiga ter novos ares.

Paulo Vinicius Coelho
Áurea, falando de um outro aspecto da tua carreira, eu gosto muito dos teus trabalhos como diretora. Eu lembro de assistir Afresco de Outono [2021] no Guarnicê, de ter assistido Carnavalha e ter notado elementos bem legais da tua experiência como diretora.
Aí eu vou te fazer uma pergunta clássica. Como é que é, depois de tanto tempo à frente das câmeras, vir pra trás das câmeras e passar a dirigir?
Áurea Maranhão
Eu confesso que em princípio, pra mim, é realmente um grande desafio, mas também é muito legal, porque eu tenho sentido muito prazer de estar atrás das câmeras e de fazer a engrenagem acontecer. Você pode me perguntar -ok, mas por quê?
Porque o mercado, ele é muito cruel com o ator. Então eu me vi no desejo de dirigir pensando em produzir. Eu não sou só uma diretora, eu sou também uma produtora. Tem muito de mim nos meus filmes no sentido de tirar o dinheiro do bolso, botar o cenário da casa pra ser cenário do filme, sabe?
E eu vejo que isso acontece em alguma escala no cinema nacional, né? Tá todo mundo colocando um pouco de si porque a gente não tem grandes investimentos. Se você parar pra pensar, hoje no Maranhão a gente teve dois únicos longas-metragens que tiveram orçamentos acima de 999 mil reais, né? E um filme só com um milhão e meio.
Isso é baixíssimo orçamento pensando no cinema. Então, sim, é difícil, mas eu quero muito fazer cinema, quero muito atuar, e eu não consegui imaginar uma outra maneira que não seja criar um mercado.
Se não tem um mercado onde eu possa atuar, eu vou criá-lo. Eu vou me propor a escrever, eu vou me propor a dirigir, eu vou me propor a dialogar com as pessoas que estão a fim de fazer isso.
Eu agora vou fazer 20 anos de carreira e…aliás, eu fiz! [risos].
Paulo Vinicius Coelho
E qual foi o primeiro trabalho?
Áurea Maranhão
Eu fiz Bertold Brecht, “O Mendigo ou o Cachorro Morto”, e eu apresentei na UEMA [Universidade Estadual do Maranhão],acho que era um simpósio, a gente ganhou, sei lá, 150 reais, 200 reais, mas deu pra comprar as batatas, deu pra desenhar um figurino… foi incrível. Naquela época era dinheiro muito 150 reais. Dava até pra pagar uma conta de luz [risos].
Mas, voltando pra pergunta: o meu desejo de dirigir está muito relacionado a estar em cena. Quando um ator está em cena, eu na direção estou junto com ele, respirando com ele. De alguma maneira, é um jeito de me movimentar. Minha atuação como diretora nasce do desejo desesperador de estar em movimento.

Paulo Vinicius Coelho
Agora, você falou que completou 20 anos de carreira, e você é um personagem símbolo do cinema maranhense. Tua carreira começa no teatro, mas tua relação com o cinema é muito forte. Eu quero saber se você concorda com a minha impressão de que há um número cada vez maior de obras ficcionais no mercado, com qualidade e consequentemente com mais oportunidade para atores e atrizes?
Áurea Maranhão
Eu te confesso que eu estou muito feliz porque eu estou fresquinha, saindo de um ambiente de mercado. A gente acabou de ter o Lacine, que é um laboratório de audiovisual que foi produzido e idealizado pela Tássia Dhur – uma grande atriz, artista, diretora, parceira de trabalho.
Sabe quando você sente novos ares e tem um frescor? O ambiente de mercado me trouxe essa possibilidade porque é muito legal você sentar com alguém de um canal, por exemplo, o Canal Brasil, e dizer ”olha, eu tô com 80% do recurso do meu filme captado e quero o Canal Brasil apoiando com 20%, você topa?” e ela falar ”poxa, a gente tem interesse”.
Eu acho que a cena maranhense tá acontecendo de uma maneira muito bonita. 2024 foi o ano que eu vi o cinema maranhense mais contando histórias, a galera dando a cara tapa pra contar umas histórias que são nossas e a gente não costuma expor.
Eu rodei O Miolo da Estória, que é um roteiro do Lauande Aires com Lucia Rosa, participei do Baldio Som de Deus, do Frederico Machado, que vai ter um corte pra série que já tá rodando – aliás, convido vocês a assistirem no Prime Box Brasil – e a gente vai ter um corte pro cinema. Estou super empolgada, curiosa pra ver, porque foi um filme que super me desafiou com uma protagonista que tem uma carga dramática muito pesada. O filme fala sobre a pessoa como propriedade, como terra, como sendo especulada. Um corpo feminino sendo especulado e consumido como a gente consome a terra.

Gabriel Jansen
Áurea, você falou do desafio de ser diretora e atriz, mas, e o desafio de ser professora? Em que momento você sentiu que poderia ensinar outras pessoas?
Áurea Maranhão
Eu amo essa pergunta, eu agradeço muito ela, porque quando eu fui pra São Paulo em 2006, eu cheguei e depois de três meses eu liguei pro, na época meu namorado, hoje meu marido, e disse “meu Deus do céu eu quero ir embora, isso aqui é muito diferente, as pessoas são muito estranhas, eu não consigo lidar”. E aí ele falou “não, não, não, vai, consome tudo que você tem pra consumir e aí quando você sentir a hora, volta pra trocar com as pessoas daqui”. E aí isso virou uma espécie de sininho na minha cabeça.
Eu vivo viajando, eu vivo na ponte. Esse ano eu vou estar um pouco mais fora, mas eu sinto a necessidade de vir aqui pra me alimentar, pra me retroalimentar, pra viver da minha cultura. Pra mim é um compromisso. Eu tenho o compromisso de vir aqui trocar com as pessoas que, ou não podem, ou não querem ir pra outros centros. Eu sinto que eu tenho o compromisso de trocar com essas pessoas.
E aí você pode me perguntar “por quê?” porque toda a minha formação foi 100% de graça. Eu tive pessoas que me incentivaram…[Áurea começa a chorar]. Pessoas que falaram ”olha, não desiste do que você tá fazendo”. Então, todas as vezes que eu tiver oportunidade de olhar pra alguém e falar ”continua”, eu sinto que eu estou retribuindo o que eu recebi.
Gabriel Jansen
E a convivência com a nova geração?
Paulo Vinicius Coelho
A convivência com a gente, né? A gente tá aqui aprendendo com ela.
Áurea Maranhão
Eu acho que o futuro é a galera que tá vindo, sabe? A gente vai virar ferramenta pra máquina rodar, mas as novas histórias é a nova geração que vai contar. Nós, da nossa geração…aliás, todos nós aqui somos da mesma geração, né?
Paulo Vinicius Coelho
É, Áurea, mais ou menos, mais ou menos [risos].
Áurea Maranhão
Não?! Gente, eu tô mesmo uma senhora! [risos].
Eu acho que a nova geração vem contando histórias por uma perspectiva muito mais própria. Acho que eles contam uma história colocando a gente na situação. Não tem mais a gente repetindo histórias. Acho que as novas histórias que vão ser contadas vão contemplar, por exemplo, as discussões de gênero, as discussões de pertencimento…vão contar as histórias como elas devem ser contadas. Eu sinto que essa nova geração tá vindo sem medo de desagradar, sem essa de só contar uma historinha bonita pra circular no cinema.
Pra mim, a nova geração, vem com a fome e a vontade de comer. Eu sinto isso e eu adoro estar com a molecada que tá querendo aprender, porque eu lembro de ter entrado na EAD, na Escola de Arte Dramática [Universidade de São Paulo – USP] e uma vez eu perguntei pro professor “que raio é ser um bom ator?” e ele falou assim “é o ator que chega na hora, que traz o seu figurino limpo, que vem com texto estudado e que tem o compromisso com aquela pesquisa”. Pra mim, a nova geração que vem aí tá assim, tá aguerrida, querendo fazer.
Beatriz Benetti
Áurea, eu acompanhei algumas performances tuas e quero que você fale a respeito disso, inclusive, sobre como seus textos abordam a questão do gênero, do corpo…e como eles são viscerais.
Áurea Maranhão
Agradeço essa pergunta porque a performance é o lugar onde eu consigo pesquisar e também sair da minha zona de conforto, porque a performance tá sempre no risco, tá sempre numa linha tênue. Eu gosto de estar na rua, estar na perna de pau, cuspindo fogo…é um lugar onde eu consigo deixar um pouco de lado aquilo que o mercado desenhou sobre o que a atriz tem que ser. Eu vou pra rua pra experimentar, pra errar. A performance dá a possibilidade de errar, de tentar de novo. E o lugar da performance me motivou a escrever, porque todos os meus trabalhos nessa área foram feitos a partir de textos meus. A performance me deu um livro, me deu poesias, agora eu tô escrevendo um roteiro e em breve quero lançar um novo livro que vai ser meio análise, meio caderno de estudo.

Leonardo Alves
Aproveitando essa questão que você fala das trocas, eu queria fazer uma pergunta a partir do seu nome artístico: nos grandes centros, quando você vai trabalhar, carregar o Maranhão no nome te ajuda, atrapalha ou não faz tanta diferença?
Áurea Maranhão
Carregar o Maranhão no nome só me abriu portas. E de fato, depois que eu mudei o meu nome artístico, a minha carreira teve um redimensionamento. Eu me coloquei no mercado de uma outra maneira, o que foi muito bom, porque eu já tinha 10 anos de carreira, morava em São Paulo…e aí o diretor do meu primeiro longa-metragem – fica aqui o convite para vocês assistem Prova de Coragem na Globoplay -, o diretor Roberto Gervitz falou ”nossa, Áurea parece nome de cantora de rádio, é um nome antigo…Áurea Teixeira…você já pensou em ter um nome artístico?” e eu respondi ”imagina, Roberto…eu tô há 10 anos tentando ter o meu nome circulando dentro da minha comunidade e agora eu vou mudar?”
Ele falou “pô, mas você fala tanto do Maranhão, da sua comunidade, de onde você vem, então por que você não bota Áurea Maranhão?” E depois ele me mandou um e-mail, eu lembro disso até hoje, com mais de duzentos “Áureas” repetidos, com vários sobrenomes. Uma caralhada de nomes. E o primeiro era Áurea Maranhão. E acabou dando certo. Eu agradeço muito o Roberto, porque ter mudado o nome fez muito rapidamente as pessoas associarem. Na época, no Facebook, eu mudei o nome e lembro que ninguém mais lembrava, ninguém mais me chamava de Áurea Teixeira.

E aí na sequência da mudança, eu fiz um outro longa, o “Maranhão 669”, do Ramusyo Brasil, e aí depois eu fiz o meu filme, o Carnavalha, quando eu voltei a morar aqui. Depois vem a novela [A Dona do Pedaço], série [Cidade Invisível]…quando eu vi, 10 anos se passaram e eu já tinha feito um monte de coisa. Já tinha trabalhado com a Fernanda Montenegro…gente…imagina o privilégio!
Imagina a Fernanda Montenegro no set virando pra mim e perguntando ”o que você acha dessa cena?” eu comecei a chorar…e ela ”minha filha, por que você tá chorando?”. Ela é de uma generosidade tamanha. Eu aprendi tanto com essa mulher. É uma figura muito simples, muito livre.
Eu aprendi muito com ela e a experiência na novela foi incrível. Eu dei muita sorte porque trabalhei com Luiz Carlos Vasconcelos, Nívea Maria, Álamo Facó, Fernando Eiras, Jussara Freire, Marcos Palmeira, Juliana Paes…meu Deus! que elenco é esse?! Como é que eu trabalhei com eles?

Paulo Vinicius Coelho
E eles trabalharam com a Áurea Maranhão, né?! [Áurea ri]
E a sua homenagem no Guarnicê, hein? [2023].
Áurea Maranhão
Ah…foi lindo…
Eu acho que a experiência de estar no mercado me deu a possibilidade de ser vista dentro da minha comunidade. Isso pra mim é muito importante, muito importante mesmo, porque lá em São Paulo eu sou só mais uma atriz e aqui em São Luís eu sou a Áurea Maranhão. A pessoa que as pessoas olham e falam ”poxa, é possível”. Então, a homenagem, tanto no Maranhão na Tela [2019], quanto no Guarnicê, foi pra mim…caramba…

Eu sou filha de um chaveiro e de uma cozinheira, então nem no meu melhor sonho eu podia imaginar que eu ia chegar onde eu cheguei. [Áurea começa a chorar].
Ser reconhecida aqui, pra mim, é o maior presente que eu poderia viver em vida, sabe? É o meu Oscar, é o meu Grammy, é o meu Palma de Ouro, é o meu Berlinale, meu Kikito, meu Candango… nada paga isso. Ser reconhecido na sua terra é impagável. As pessoas te encontrarem no supermercado e dizerem que viram teu trabalho é impagável. Já aconteceu em São Paulo? Já, mas é diferente…é diferente quando você se sente parte de um lugar e esse lugar te representa. Isso é um privilégio, porque nem todo artista vive isso em vida. Eu me emociono mesmo, eu fico muito honrada mesmo em estar no Maranhão, em ser vista aqui.
Leonardo Alves
Áurea, você falou sobre homenagens, sobre não desistir…mas, em algum momento, você pensou em desistir?

Áurea Maranhão
Todos os dias…a nossa profissão é uma área de muita exposição…você passa a ser referência nas redes sociais, tem que dar opinião, estar ativa politicamente…a depender do filme, tem um trabalho que te desgasta fisicamente e mentalmente. E tem personagens que te mudam para sempre. Você não consegue ser o que era, vira outra pessoa.
Não é fácil. Tem glamour, sim, mas nem tudo é tapete vermelho. O reconhecimento, a página na revista, a homenagem, ela é uma resposta a muito trabalho, a um percurso muito extenso.
E eu falo isso, inclusive, porque se alguém que estiver nos lendo, estiver começando a carreira, se você quer fazer, faça como quem precisa abrigar a barriga de alguém pra salvar a vida daquela pessoa. Faça com o mesmo propósito de alguém que tá ali asfaltando a rua porque é preciso que um fluxo de vida aconteça ali naquela cidade, com o mesmo propósito e compromisso, porque não é fácil. Você carrega o piano, toca o piano, você dança, assobia, chupa cana e depois tem que desmontar o circo e voltar pra casa. O glamour acontece ali três minutos na hora que você entra no tapete vermelho pra apresentar o filme e depois acabou o milho, acabou a pipoca e o pipoqueiro foi embora.
Beatriz Benetti
Eu te vejo como uma pessoa que preserva muito sua vida pessoal, teu esposo, teu filho… Mesmo assim, eu lembro de uma polêmica com alguém comentando sua publicação falando sobre o seu corpo, gerando uma situação chata. Eu queria entender como você lida com a exposição nas redes sociais?
Áurea Maranhão
Num primeiro momento eu dei risada. Só pra situar: teve uma seguidora, muito antiga, que falou “poxa, você é tão bonita, porque você não põe um botox, um silicone?” E eu fiquei: como é? Vou te passar o meu pix e aí depois eu vou estar consultando, viu? Mas eu achei um absurdo. Que loucura isso!
Você falou da minha vida pessoal, do meu filho. Eu gosto de ter esse momento com eles. Eu confesso que às vezes eles não deixam eu postar certas coisas, coisas que eu até acho que seria legal trazer pra internet como pauta positiva, porque olha…não é fácil educar um menino homem, viu? Meu filho tá com 17 anos e eu digo que não é fácil. Tem umas coisas que eu debato com ele e fico com vontade de levar para as pessoas, mas ele não gosta de aparecer, não.
Beatriz Benetti
Vi uns vídeos da viagem que vocês fizeram e só aparecia o pescoço dele nas filmagens [risos].
Áurea Maranhão
Sim! Mas eu acho legal porque nós temos um combinado. É um combinado como os que eu faço como atriz, sabe? [risos]. Por exemplo, quando eu vou fazer uma cena de sexo, eu ponho no contrato que não quero que meu seio apareça, porque o enquadramento com o meu rosto facilita pra que isso apareça num site pornô, seja descontextualizado…eu até peço para os meus colegas de atuação me protegerem durante a cena, porque…é isso…a gente tem que criar esse mecanismos pra se resguardar.
E com o meu filho tem esses acordos de imagem também [risos]. Às vezes ele até sugere que eu pague ele. Ele diz: você não é paga pra aparecer? E eu respondo: é, você tem um ponto.
Mas eu acho que a rede social precisa sim de limite, de leis, de políticas públicas pra limitar níveis de exposição, porque a gente tá vendo como é nociva a internet pra nossa geração, pra geração dos nossos pequenos.
Beatriz Benetti
Áurea, nós separamos aqui algumas perguntas curtinhas para essa última parte da entrevista. Vou começar te perguntando qual você considera a maior performance de uma atriz?
Áurea Maranhão
Fernanda Torres, em Ainda Estou Aqui [Walter Salles]. É de tirar o fôlego. Nesse momento, Fernanda Torres.
Beatriz Benetti
Qual a sua maior referência na carreira?
Áurea Maranhão
Fernanda Montenegro. Tive a oportunidade de trabalhar com ela e ver um pouco da grandiosidade dela. E Rosa Reis, uma artista que eu acompanho desde pequenininha. Eu fiz capoeira no Laborarte e eu a via e ficava encantada. Ela sempre me atraiu como referência artística.
Beatriz Benetti
Agora, quero que você indique um filme, um livro e uma música.
Áurea Maranhão
Filme, o primeiro que veio a cabeça foi Aspirinas e Urubus [Marcelo Gomes]. Eu tô numa fase cinema brasileiro. Eu acho que vou de Lisbela e o Prisioneiro [Guel Arraes]… mas poderia dar vários: Ainda Estou Aqui, Central do Brasil [Walter Salles[, Estômago [Marcos Jorge]…meu Deus! São muitos…eu vou de Aspirinas e Urubus…não! O Céu de Suely [Karim Aïnouz]! Vou ficar com o Céu de Suely.
Livro: eu tô lendo agora o Sidarta Ribeiro…mas não tô lembrando o nome do livro, daqui a pouco vem.
Beatriz Benetti
Uma música.
Áurea Maranhão
Uma que eu ouvi hoje, tô ouvindo bastante, é Vai Embora, da Ângela Ro Ro.
Beatriz Benetti
E a última pergunta, uma fixa para as nossas entrevistas, que é uma indicação e uma contraindicação.
Áurea Maranhão
Eu indico vocês ouvirem o podcast Projeto Querino.
E a contraindicação: qualquer coisa que o Mário Frias tenha feito.
Beatriz Benetti
Obrigado, Áurea.
Áurea Maranhão
Lembrei o nome do livro do Sidarta! É Sonho Manifesto!
Fim da entrevista.

Texto introdutório por Leonardo Alves
Produção por Paulo Vinícius Coelho
Entrevista por Leonardo Alves, Paulo Vinicius Coelho, Beatriz Benetti e Gabriel Jansen
Edição e redes sociais por Gabriel Jansen





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