
O jornal em que Mariana trabalhava carecia de uma grande história para contar. As reportagens que consagraram o Folhetim Fantil no topo das vendas na cidade já tinham se tornado obsoletas. A concorrência teve de se calar diante da manchete exclusiva do icônico caso de estelionato das lojas Saias Baratas, é verdade, mas deu o troco com a história de superação da Dona Aranha em meio ao dilúvio.
Insatisfeito, o chefe de Mari – como era mais conhecida na redação – a incumbiu de lhe apresentar uma descoberta que poderia fazer o jornal decolar nas bancas. A jovem repórter engoliu em seco ao receber missão. Por ser o seu primeiro emprego, sentia que a tarefa poderia representar um passo definitivo na carreira, ou talvez, um péssimo indício para o futuro na profissão.
Obstinada, passou a consultar fontes que pudessem mostrar um caminho a ser explorado. Não tardou a definir a rota escolhida: a filha da prima do vizinho de uma amiga buscava alguém da imprensa sob a premissa de ter uma história que “chocaria” toda a cidade de Pequeno Bote. Em uma primeira conversa por telefone, a tal menina insistiu que era necessário um encontro cara a cara. Mari acatou a proposta.
Ao localizar a fonte, Mari recebeu um papel dobrado e um conselho: “cuidado, isso é coisa grande!” Ao abrir o bilhete misterioso, somente um endereço.
– Rua dos Bobos, Número 0?
– Sim. No seu lugar, eu iria lá o quanto antes.
– Olha, você tá fazendo pegadinha comigo? Meu trabalho é coisa séria e não tô nada a fim de perder meu tempo com bobagem.
– Se não for você, vou atrás de outra pessoa. Só sei que mais gente precisa ver o que eu vi. E realmente nem tem como explicar, é ver pra crer.
Encurralada com a pressão de já ter prometido um caso para o chefe, Mari buscou pelo lugar a contragosto mesmo. Acontece que mapa nenhum tinha a localização precisa da tal Rua dos Bobos, muito menos do que estaria no Número 0. Restava, então, fazer uma busca por eliminação. Mari pegou o carro e foi atrás de sua história, que não viria com facilidade. A falta de sinalização adequada na cidade foi o maior desafio para a reportagem. A única pista real da qual a jovem dispunha era uma duvidosa indicação de um colega radialista que havia dito “achar que sabia mais ou menos o bairro onde poderia ser a rua”.
A saga de Mari começou com uma visita à Rua dos Lobos. Por sorte, ela descobriu que estava no endereço errado antes de ganhar mordidas nada agradáveis. Dali, pegou um caminho sinuoso até se deparar com uma via repleta de restaurantes, lanchonetes e cafeterias. Descobriu se tratar da Rua dos Gordos, o que ainda não servia. As pessoas no local também não sabiam de nenhuma Rua dos Bobos, embora tenham falado muito bem da Rua dos Bolos.
A cada rua indesejada, a paciência da jovem se esvaía um pouco mais. Teve de lidar com manipulações, ameaças e tratamentos de silêncio na Rua dos Doidos; aí, ficou sem a bolsa preferida depois de ser assaltada na Rua dos Roubos; então, pensou ter finalmente encontrado o destino após ler uma placa antiga em que restava escrito “Rua dos Bobo”, mas teve uma enorme decepção ao questionar o morador da Casa 0,5 pela Casa 0 e descobrir que ali se tratava, na verdade, da Rua dos Bobocas, com parte da placa apagada.
Com o cair da noite e um turbilhão na mente, Mari resolveu o que o melhor a se fazer era pagar por um quarto, dormir e decidir pela manhã se valeria a pena manter a busca ou se seria o momento de se dar por vencida. Mas não chegara a tanto. Uma fúria imensa atingiu o coração da repórter ao lidar com a recepcionista do pequeno hotel que encontrou na Alameda dos Engraçados.
– Quero o quarto por uma noite.
– Ok. E onde está?
– Onde está o quê?
– A noite.
– Hã?
– O pagamento.
– Aqui no balcão, acabei de colocar! Na sua frente!
– Certo, aqui tem dinheiro, mas você ofereceu uma noite.
– Como assim???
– Não era um quarto por uma noite? Daremos o quarto. Falta você dar a noite!
Mesmo ao convencer a recepcionista de aceitar a forma tradicional de pagamento, Mari desistiu do lugar depois de receber um quarto tão minúsculo que não lhe servia, sob a justificativa de que havia recusado o serviço de quarto. Optou por dormir no próprio carro e cogitou pedir demissão na manhã seguinte. Pensava que essa vida não era para ela.
Foi aí que, ao buscar um lugar para estacionar, como num passe de mágica, surgiu ela: a Rua dos Bobos. Tão fútil quanto o nome poderia sugerir, o lugar tinha gramados coloridos, placas cartunescas, moradores que mais pareciam saídos de um bom livro de fantasia. Ainda um tanto incrédula com o achado, Mari se aproximou e tratou de investigar o local. Cinco, quatro, três, dois, um… e então, finalmente: “Rua dos Bobos, Número 0”. O pensamento da jornalista, enquanto se concretizava na certeza de sua visão, era tomado pelo digladio entre um êxtase inédito e uma raiva avassaladora por toda a saga até ali.
Passado o impacto inicial, ela então assimilou que se tratava de uma casa muito engraçada. Por incrível que possa parecer, a casa era desprovida de quaisquer condições mínimas de habitação. Enquanto os olhos passeavam pela construção única, Mari anotava as ausências que lhe chamavam a atenção. Não tinha teto, não tinha nada. Ninguém poderia entrar ali porque sequer havia chão. Não era possível dormir em rede, já que na casa não tinha parede. Resolvera bater na porta do vizinho.
Seu Bobô, da Casa 1, foi bastante atencioso e respondeu às indagações de Mari. “Até onde sei, ninguém pode nem urinar naquela casa, já que não tem pinico. Mas uma coisa lhe digo: houve muito esmero na construção aí”, explicou o vizinho. A repórter acreditou que podia se tratar de algum tipo de arquitetura inovadora, mas essa era uma questão a ser consultada depois de voltar para a redação com as informações que colhera.
Anestesiada com a descoberta, entrou no carro novamente e iria aproveitar que já era quase tempo de o sol aparecer para ir direto à redação e começar o texto. Acontece, porém, que a empolgação geraria um erro fatal. Receosa de ter uma crise alérgica com o forte cheiro de camarão na Rua dos Bobós, que seria parte do trajeto mais curto, fez um desvio que a levou para uma rua ainda desconhecida e sem um indicativo do nome.
Nessa rua, ainda escura, Mari se espantou quando uma figura surgiu no meio da pista. Freou rapidamente e evitou que o carro a acertasse em cheio. Era uma senhora bastante idosa e corcunda. Desceu do carro para verificar se estava tudo bem. A decisão, mais tarde, se provaria como um grande equívoco. Em meio a risos irônicos, a senhora informaria a jornalista de seu trágico destino em meio a risos.
– Jovem, não deveria estar por aqui…
– Senhora, que história é essa?
– Aqui não é lugar para você…
– Tudo bem, já estou de saída, mesmo.
– Claro! Mas quem por aqui passa não sai a mesma pessoa…
Acabou que se tratava de uma bruxa, a guardiã daquela rua: a Rua dos Tolos. Com um balançar das mãos e dizeres indistinguíveis, a senhora lançou um feitiço sobre Mari. A jovem não se recorda muito bem do que ocorreu naquele instante, nem dos momentos seguintes. Sua próxima lembrança era já na redação, onde encontrou o chefe, que já havia chegado bem cedinho.
Ao tentar contar a história, tragédia. Mari perdera a capacidade de se comunicar livremente. Abria a boca para contar algo e tudo que saiam eram… números. Não quaisquer números, mas somente do um ao dez. Inicialmente, o chefe não a compreendeu, pensou que se tratava de piada. Ela, tampouco, sabia o que lhe passava, mas logo o desespero tomou conta da jovem. Ao tentar escrever em seu caderninho ou digitar no computador, também só apareciam quatros e oitos, noves e cincos, números e mais números.
Acabou que, passadas algumas horas e chamadas equipes médicas, Mari entrou em surto diante da falta de solução. Foi necessário que agentes de segurança do prédio ajudassem a conter a jovem. Com os danos aparentemente irreversíveis, acabou demitida e encaminhada a uma unidade psiquiátrica. A história sobre a Rua dos Bobos, Número 0 jamais veria a luz do dia.
Meses depois, Mari seguia em tratamento. A fala e a escrita não voltaram ao normal, mas as camisas de força foram suficientes para conter os ataques. Um projeto de ressocialização a tornou auxiliar da rede de educação básica. As aulas de matemática nunca foram tão animadas.
– Vamos juntos, pessoal! Bora contar com as tias! Como é que é? – perguntou a professora.
– É um, é dois, é três, é quatro, é cinco, é seis, é sete, é oito, é nove, é dez! – responderam em coro as crianças, junto de Mari.
– Muito bem! Viva, Mariana!!!





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