Referência na música independente, Festival BR-135 pode ser cancelado em 2025


A equipe organizadora do projeto divulgou uma carta aberta pontuando a insuficiência de recursos para a edição deste ano.


Foto: reprodução.

O festival BR-135, um dos principais eventos de música independente do Maranhão, pode não acontecer neste ano. A equipe organizadora do projeto divulgou, em postagem veiculada nas redes sociais, uma carta aberta pontuando a insuficiência de recursos e a demora do governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Cultura do Estado (Secma), em garantir apoio técnico e o reconhecimento do evento como ação de relevante interesse cultural.

A proposta se baseia em uma resolução da Secma, editada em 2012, na qual foram fixados critérios para que iniciativas culturais pudessem ter os seus limites de financiamento ampliados, caso viessem a ser qualificados como programas de notável relevância para a cultura maranhense

O BR-135, neste caso, se enquadraria no Art. 24, III (Ação Cultural), que prevê até R$ 300 mil para projetos gerais, com possibilidade de acréscimo, desde que o secretário de cultura, de modo expresso – como informa o documento – o requeira. Na carta aberta, os organizadores do festival solicitam este reconhecimento “de forma urgente e justa”, conforme os mecanismos legais criados em razão de evitar justamente o enfraquecimento de atividades desta natureza.

Criado em 2012, o BR-135 consolidou-se como um dos mais importantes espaços de veiculação da música independente do Nordeste, reunindo em suas mais de dez edições, nomes de referência no estado, como Paulão, Ari Sousa, Meludo (Movimento Eletrônico Ludovicense), Núbia, Gugs, grupos de Tambor de Crioula, além de artista nacionais como Arnaldo Antunes, Rubel, Céu, Zeca Baleiro (com a inesquecível chuva daquela noite), dentre outros. 

Festivais de música, mais do que o entretenimento que possam garantir, são uma oportunidade de confluência e agregação de signos; emergências de linguagens e vigor, em termos de moda e comportamento. À síntese destas categorias, pode-se vislumbrar um fluxo de modernidade e inovações de âmbito social, e, por que não dizer, político.

Na economia, o Brasil vive um crescimento no setor de festivais de música: dados da plataforma Mapa dos Festivais registram um aumento de 18% no número de eventos no primeiro semestre de 2024, no país, em comparação com 2023, com destaque para o Nordeste – que teve expansão de 44%, puxada por Bahia e Pernambuco. Salvador, por exemplo, consolidou-se como a terceira cidade brasileira com mais festivais, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. 

Nesse contexto, o risco de cancelamento do BR-135 coloca o Maranhão na contramão de uma tendência nacional, ao gosto do modelo implementado pela atual gestão da Secma, cuja execução de obras significativas para a memória do estado, a modo de exemplo – como as tarefas de requalificação do Centro de Atividades Odylo Costa Filho e do Arquivo Público do Maranhão – não se vê respostas. Nem horizonte de consciência que ultrapasse o mau gosto, a lentidão e as más práticas em administração pública. 

Para minha geração, o BR-135 é a sinalização de um movimento de vitalidade e estímulos nas relações entre o espaço urbano e a cidade. São Luís, nos idos do festival, parecia amena – em suas desigualdades e fragmentações – deixando-se rebentar a sua contraface, promissora em alternativas estéticas; sedutora, em possibilidades sociais. 

Sua possível ausência no calendário de eventos da cidade cristaliza a opção do governo do estado, e seus dispositivos, pela substituição de ecossistemas culturais complexos – na música, no teatro e noutras artes – em favor da tacanhice, num misto de desatenção e malícia.

Leia parte da carta aberta dos organizadores do Festival BR-135:

Foto: trecho da carta aberta do staff do Festival BR-135, em apelo à Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão (Secma).

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