
A programação da televisão aberta volta-se, com merecido vigor, à celebração dos 60 anos da Rede Globo, marco que a emissora alcançou nesta segunda-feira (28). A data nos revolve à lembrança a participação da empresa em momentos decisivos para o país, informando-nos; entretendo-nos, mas, sobretudo, avisando-nos, em missivas eletrônicas, as vastidões brasileiras.
Despreocupado de minhas frívolas atividades matinais, vi-me atento à exibição de um dos programas dedicados à memória do canal. Na ocasião, Antônio Fagundes e Benedito Ruy Barbosa – ator e autor, respectivamente, célebres pelo empréstimo de seus talentos em trabalhos mútuos em algumas das novelas mais bem-sucedidas já feitas – visitavam-se, relembrando passagens inesquecíveis de seus trabalhos conjuntos.
Como espectador, nada em mim tem mais força dramática que a cena em que ambos foram às lágrimas, no vídeo, ao acompanharem um trecho do último capítulo de Renascer (1993). Fagundes, intérprete do protagonista da história, o coronel José Inocêncio, dissolve-se em murmúrios finais nos braços do filho enjeitado, João Pedro (Marcos Palmeira), em uma cena de forte carga dramática
O modo como é sugerida a morte de Inocêncio, até que ela se consume, na semana final da história, é um dos trunfos narrativos mais bem elaborados em qualquer tempo, na Globo. Um relógio mudo, intruso na cena, bate compasso. Avisa a cada um dos personagens principais que algo está por vir. A direção – vale dizer, a melhor de todas as novelas – situa o ambiente: cores, texturas, luzes, o fado em assobio; os bilros do épico em movimento; o jequitibá no centro de todos os destinos. O facão, distraído do suplício, enferrujado em seu desejo: a morte.
Mais de um minuto após assistí-los, o ator e o dramaturgo, chorei, como sempre acontece desde a primeira vez que assisti ao capítulo. Em cada choro – mais do que a poesia no ecrã -, é realçado o sentido mais profundo do amor que se revela na despedida, e que pode calar fundo em meu coração.
Por isso, quando indagado sobre as dores humanas, costumo responder, com franqueza, que nada, em minha experiência, iguala-se à constatação da ausência. Não importa qual: a do amor – repentina ou intuída; da amizade que padece, do objeto insignificante cuja falta revela, tarde demais, que ele era necessário. E — por que não?— da ausência de si mesmo.
Psicanaliticamente falando, sou até capaz de diagnosticar o ponto de inflexão que desvelou minha inépcia com o constrangimento decorrente da falta: há vinte anos, problemas de saúde apartaram minha mãe do convívio diário conosco. Suas internações – constantes, à época – davam-se por períodos de 15 a 60 dias. Eu, uma criança, não conhecia modos de racionalizar o tempo. Havia-me apenas a crueza da informação de que a minha mãe – o meu esteio; a minha vida fora de mim- partira, assim, sem aviso.
Posso recordar, vividamente, de ser tomado por uma emoção quase perversa, irrefreável. Meus irmãos ouviam, na sala, o Acústico MTV Kid Abelha – mais especificamente, a faixa Grande Hotel. Os vetores da harmonia sinalizaram tristeza, no que eu imediatamente encolhi embaixo da mesa, vencido pelo pranto, esticado em um tapume lanhoso; sem horizonte que não fosse apenas a erma criatura – minha mãe – no ponto cego, ao longe, insular. Tudo o mais a saudade dela.
Viria a experimentar sentimento parecido poucos anos depois: a minha babá (estranho pensar que um dia precisei de uma babá) se ausentou, em férias. Guardo comigo a sensação do embargo em minha voz, ao vê-la dobrar as portas em direção à van que a aguardava no saguão. Minha vontade mais sincera, vendo a cena, era gritar: – fica! É o que se deve fazer, sempre, em ocasiões do gênero, mas a razão conclama a prudência, e, com ela, o cessar do choro; a retificação da compostura. E a admissão de todos os clichês sobre esperar que o tempo reponha as coisas em seus devidos lugares.
Em certo sentido, traço – até de modo inconsciente – maneiras de deixar minha vida à prova de ocasiões que me exijam fitar saudades. Mas, vendo ao vídeo, naquela manhã, tive de assumir para mim que não posso fazê-lo.
A morte daquele pai, nos ombros do filho, desvela, no fundo, a mim, como espectador, a minha própria morte. Ou melhor, a impregnação de signos nas coisas que podemos amar e devolver, como referência às pessoas que amamos, em vida.
A canção que se apresenta; o show assistido; a poesia oferecida; a canção composta. Todas as coisas que se movem e se inscrevem como testemunhas de nossa constituição, como indivíduos, e, mais ao largo, como alicerces dos afetos que nos farão lembrar e sermos lembrados.
No encontro que surgira há um tempo, o entusiasmo de minhas palavras sobre esta mesma cena – como o faço, agora – tornavam luzidias as expectativas sobre constituir uma paisagem conjunta, em dupla, pés a pés, num caminho amoroso. A forma como falo do que me comove revela, antes de tudo, meu modo de amar o mundo.
Ela sentiu esse amor quando eu lhe narrei a cena. E eu só me percebi, cego de sua ausência, naquela manhã, ao reassistí-la e dar-me conta de que não há mais seu corpo, as suas mãos e os seus olhos de entusiasmo.
P.s: Refreio a dor desse instante porque um brado interrompe o texto: minha mãe anuncia à casa a mais recente aparição da flor do nosso sangue. Cecília é seu nome. Alva e miúda. Há de saber do amor, vencer os medos e tecer as suas miragens. Saber-se-á feliz e há de maldizer o mundo quantas vezes lhes escaparem das mãos as suas coisas mais preciosas: brinquedos, paisagens, pessoas.
Nasce hoje. E há de renascer tantas vezes mais.





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