Botequins da Ilha #4 – Casa Cosme e Damião


Na quarta edição do Botequins da Ilha, um lugar resiste ao tempo nos entornos da Praça da Saudade.


Casa Cosme e Damião. Foto: Gabriel Jansen

Na Madre Deus, as setas apontam para todos os lados. O reduto da cultura ludovicense é um ecossistema de estímulos, sem espaço para longos suspiros. Bares, lanchonetes, residências e outros estabelecimentos são componentes do sistema nervoso de São Luís; de um nervo ao outro, moradores e comerciantes aderem à missão inconsciente de impedir que a esterilidade contamine uma região sacramentada pela congregação comunitária, que é muito bem ilustrada nos entornos da Praça da Saudade, no botequim — ou quitanda — Casa Cosme e Damião.

Demarcando o cruzamento entre três ruas — Dr. Brasílio Sá, rua do Norte e rua Medeiros de Albuquerque —, o estabelecimento comandado por dona Graça integra a paisagem da região há quarenta e seis anos. Com o passar do tempo, as lembranças da proprietária passaram a ser um dos sustentáculos do local que serviu de cenário para a formação de sua família. Ela e o marido Hernandes, falecido há sete anos, migraram de uma casa alugada na rua São Pantaleão, passearam pela região central de São Luís e firmaram a Cosme e Damião no coração da Madre Deus. Desde então, os frutos dessa história são criados à beira do balcão.

Mais que o sustento, o local garante o sorriso de Graça. Preocupados com a saúde da idosa de 76 anos, os quatro filhos pedem para que ela feche o estabelecimento e descanse, mas a senhora insiste e define o trabalho como divertimento, principalmente após a morte do marido. “Eu continuo! Eu vou ficar aqui até o dia que Deus me levar também”, exclama. Mesmo com os pedidos, os rebentos permanecem no santuário da matriarca. Durante as folgas, o filho Marcelo cede atenção ao espaço que o formou. Sem laços consanguíneos, o acaso se encarregou de cruzar as veredas de Graça e do rapaz, que agora retribui os cuidados oferecidos pela mãe.

A gratidão também é visível entre a comunidade, que se comunga em ajuda mútua. A clientela é fiel e, quando os portões dos comércios e bares são abertos, a harmonia impera sobre as imediações e põe óleo nas engrenagens da Madre Deus. Quando o bairro adormece e os assentos da Praça da Saudade se transformam em leito para pessoas em situação de rua, a solidariedade de Graça se faz soberana. “Eles dormem aí, e todos me respeitam. Às vezes eu chego de manhã, dou pão, dou suco, eles se alimentam. Eles perguntam: ‘Tá precisando de alguma coisa?’. Quando me veem carregando algo, correm para ajudar”, conta.

No edifício azul que abriga o bar e residência da proprietária, as memórias surgem sem timidez. As recordações das folias que outrora recheavam os corredores da Madre Deus com mais intensidade – tanto no Carnaval quanto no São João – se misturam com citações acaloradas ao marido, que era timoneiro do espaço ao lado dela. Dona Graça evoca o passado com a facilidade de um respiro. “As lembranças são demais”, diz ela ao conversar sobre o companheiro com quem viveu por cinco décadas — cinco décadas que permanecem acesas na mente e se materializam no carinho dos relatos, quase sem lamentos.

Durante a conversa, bastou uma garrafa para que eu entendesse: paralela ao Cemitério do Gavião, a Casa Cosme e Damião direciona as setas da Madre Deus para a saudade que a praça simboliza. Dona Graça ainda contou uma curiosidade: ela e Hernandes se conheceram em uma praça, cujo nome preferiu guardar, e, desde então, “A Praça”, de Ronnie Von, se tornou a a trilha sonora do romance dos dois. Agora, diante de outra praça, com outros bancos, ela serve a cerveja — e as memórias — para quem frequenta o botequim.

Dona Graça. Foto: Paulo Vinicius Coelho

Texto: Gabriel Jansen

Produção: Leonardo Alves, Paulo Vinícius Coelho e Gabriel Jansen

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