Por que não eu? Uma entrevista!


Desavergonhadamente inspirada na crônica de Paulo Mendes Campos.


Foto: charge do escritor Paulo Mendes Campos.

Desavergonhadamente inspirada na crônica de Paulo Mendes Campos, Entrevista Comigo Mesmo, decidi também entrevistar a mim mesmo. Tento amenizar a cabotinagem do gesto pensando que fazê-lo é por esporte. Mais: tomarei como salvo conduto tê-la escrito neste sábado, dia da criação, acompanhado por um belo sol nos céus de cá. Comecemos:

Se você pudesse resumir a sua jornada até este momento em uma única imagem ou metáfora, qual seria? E por quê?

Seriam duas sentenças. Como diagnóstico: até quando é ruim, é bom! Como prognóstico: não há mal que dure para sempre.

Quais foram as três maiores “viradas de chave” ou momentos decisivos que moldaram quem você é hoje?

A puberdade, porque descobrir o corpo é algo fascinante, muito embora a adolescência seja um calvário; a universidade, porque há coisas que você só descobre sobre si e sobre o modo como o mundo funciona do Bacanga para lá, e estar em uma redação de jornal. Nem toda a nudez do mundo é páreo para o frisson de uma redação jornalística. Quem sabe, sabe.

Qual é a sua maior alegria genuína e quando foi a última vez que você a sentiu plenamente?

São alegrias genuínas: o amor e a música. As canções que me tocam e o gesto amoroso de qualquer um que eu queira bem. Minha última vez com alegria plena foi na terça-feira de Carnaval. De lá pra cá, todo princípio de felicidade é mero esboço daquela alegria.

Quais são os seus medos mais profundos e como eles influenciam suas decisões?

Meus medos mais profundos são os mesmos de qualquer pessoa. Tenho medo de ficar sem dinheiro e morrer e, por isso, minhas principais decisões em relação a estes temas são manter os olhos no cartão de crédito e evitar andar depressa em lugares molhados. Acredite: já bati a cabeça em uma festa e poderia ter morrido. A morte, neste caso – e em muitos outros, também – é uma bobagem cujo preço é altíssimo. Avalie.

Se você pudesse dar um conselho crucial para o seu “eu” de 10 anos atrás, qual seria? E por quê agora?

Um conselho? Fuja de perguntas cafonas.

Qual é a sua definição pessoal de sucesso? Você sente que está caminhando em direção a ela?

No Brasil, o sucesso é ter o básico. Por enquanto, não tenho a menor ideia se estou caminhando em direção a este propósito.

Quais são os valores que você considera inegociáveis em sua vida? Eles sempre foram os mesmos?

Inegociáveis, apenas a lealdade. No mais, todo mundo tem o seu preço. O meu é relativamente baixo, inclusive, mas, sem lealdade, só há barbárie. E a barbárie é desumana.

Qual aprendizado recente te surpreendeu ou te fez repensar alguma crença?

Meu aprendizado recente foi descobrir que, ainda que eu não queira, eu posso ser muito desagradável. Ainda estou processando o que fazer dessa informação.

Olhando para o futuro, qual é a maior aventura ou desafio que você gostaria de se propor a viver?

Por enquanto, o meu maior desafio é conseguir ser um homem de classe média. Quer aventura maior do que conseguir ter uma casa e pagar as próprias contas?

Que mentira você repete há anos e já quase acredita nela?

Que eu tenho 1,80m. Espero que continuem acreditando nela; faz bem para a minha autoestima.

Qual artista brasileiro vivo você acha que ainda vai ser descoberto tarde demais?

Não acho que será tarde demais, em um sentido fatalista, mas acredito que, em 20 anos, o mundo e o Brasil terão seus olhos voltados para a grandeza do Rodrigo Amarante. Questão de tempo.

Qual tradição popular você acha linda, mas nunca participou, e por quê?

Meus sérios problemas com música atonal atrapalham um pouco a relação que tenho com o bumba meu boi do Maranhão. Há tempo para que isso seja corrigido.

O que acha que vai envelhecer mal na nossa cultura atual — e o que vai ser redescoberto com saudade?

Todo o tecnocapitalismo agro envelhecerá mal. É uma cultura autofágica. Redescobriremos com saudade o Ciro Gomes.

Qual dor você carrega que, se contada, pareceria um exagero literário?

Acho que não seria exagero dizer que a saudade é a maior do que se possa ter. Sou saudosista, às vezes; muito nostálgico e continuo amando muito, em particular, todas as pessoas que um dia fizeram parte da minha vida. Até as que não prestam. Sou afetivamente franciscano.

O que você faz melhor quando ninguém está olhando?

Samba e amor. Posso fazer boas músicas, de vez em quando, mas, no segundo caso, sempre há testemunhas. 

Que hábito seu você gostaria que fosse um personagem autônomo, vivendo longe de você?

Acho que o hábito de falar mal das coisas com muita veemência. Ganho mais do que perco, desse modo, só que eu acho muito gostoso esculhambar. Algumas coisas não prestam mesmo.

Se sua sombra pudesse falar, que segredo ela contaria sobre você?

Ça va sans dire.

Qual parte de você resiste a amadurecer, e você ora para que nunca o faça?

Que nunca faltem as ambíguas piadinhas de cunho sexual.

Qual erro você insiste em cometer, mesmo sabendo que ele tem o mesmo gosto de sempre?

Displicência e preguiça. Infelizmente, acho uma delícia deixar tudo para depois. 

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