
Logo depois da abertura do show com “Parabéns, Rosário” (Ribamar Marques), Sérgio Habibe olha para trás e comenta: “Só faltou uma cadeira aqui para os velhos”. A brincadeira dá o tom do que foi a Mostra Quatro70, apresentação épica desde a sua concepção e marcada pela cumplicidade entre quatro dos mais proeminentes artistas da música maranhense: Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Josias Sobrinho e Sérgio Habibe.
Os quatro ícones foram acompanhados por uma banda composta por Sued Richarllys (guitarra e direção musical), Rui Mário (acordeon), João Neto (flauta), Lucas Sobrinho (baixo e vocal), Cassiano Sobrinho (bateria e vocal) e Marquinhos Carcará (percussão).
Já que aqui posso ser superlativo e escapar da pretensa imparcialidade jornalística, afirmo: Que banda! Que cozinha! Sued foi excelente com os arranjos. Sobre Rui Mário e João Neto, o de sempre: talento inquestionável. Lucas Sobrinho era o mais empolgado da banda e se entregava ao baixo com muita sinceridade. Cassiano e Marquinhos foram seguros e souberam brilhar nos momentos certos. Preciso repetir: que banda! Palmas também para a escolha do repertório, que não foi óbvio, mas também não deixou de fora canções fundamentais e ainda nos presentou com algumas faixas inéditas ou lançadas recentemente.
O show ocorreu no Teatro João do Vale, na quarta-feira, 23 de abril de 2025, para um público formado prioritariamente por amigos e conhecidos dos artistas. Além de “Parabéns, Rosário”, responsável pela abertura da mostra, o quarteto cantou, em conjunto, “Cavalo Cansado” (Sérgio Habibe), “Dente de Ouro” (Josias Sobrinho) e “Erva Santa” (Joãozinho Ribeiro).
Nas duas primeiras faixas, os quatro pareciam ainda buscar uma melhor forma de harmonizar os cantos. A plateia assistia com admiração, tentando se conectar com o show. Com “Dente de Ouro” — Ribeiro e Habibe liam os versos em um papelzinho — Josias Sobrinho conseguiu romper o comedimento e pôs o público para cantar em coro o refrão: “Se eu tivesse um dente de ouro / Eu mandava tirar pra viver / Eu mandava encruzar e benzer / Eu mandava entregar pra Gegê.”

Após o momento inicial com o quarteto no palco, Chico Saldanha abre a série de apresentações individuais com “Inês é Morta”, “Emaranhado” e “Babalu”. Diferentemente dos amigos, Saldanha fala pouco entre as músicas, mas se mostra muito consistente.
Depois, quem sobe ao palco, já acompanhado de uma “cadeira de plástico para o velho”, é o espirituoso Sérgio Habibe. Sentado, o compositor faz uma apresentação brilhante de “Dia de Será”, “Solidão” e “Fogo e Chuva” (parceria com o lembrado e celebrado poeta Valdelino Cécio).
Em seu momento solo, Josias Sobrinho, agora mais à vontade no palco do que no momento inicial do show, apresenta “Infâncias”, “Porco Espinho” e “Rosa Maria”. Esta última, ele dedica à esposa Lenita Pinheiro, que se levanta da plateia e vai até o palco para lhe dar um beijo. Josias dança “miudinho” entre as faixas e fala constantemente sobre a importância da amizade, transparecendo carinho pelos colegas.
Joãozinho Ribeiro apresentou uma música inédita durante sua apresentação individual: “Genipaúba”, que faz referência a um povoado de Guimarães, onde nasceu o pai do poeta. Ribeiro cantou a faixa emocionado enquanto celebrava os seus ancestrais. Também integraram o repertório “Frevo dos Chicos”, uma celebração aos Chicos da música brasileira, inclusive o Saldanha, e “Samba 100”, já conhecidas do público.
No palco, o quarteto setentão dava provas recorrentes de amizade e satisfação com o encontro. Joãozinho Ribeiro e Sérgio Habibe, principalmente, contavam piadas e trocavam brincadeiras. Enquanto Chico Saldanha cantava na parte do show destinada a apresentações individuais, Ribeiro e Habibe “invadiram” o palco dançando abraçados. Já próximo do fim do show, Habibe reclama do poeta: “Ele me manda umas letras imensas e pede pra musicar; eu já falei que trabalho no máximo com quatro estrofes”. O público gargalhava com as anedotas.
Na última janela do show, o quarteto volta ao palco para apresentar os clássicos “Itamirim” (Chico Saldanha) e “Eulália” (Sérgio Habibe). Depois, Joãozinho Ribeiro, recordando que o show ocorria no Dia Nacional do Choro, cantou o seu clássico “Milhões de Uns”. Antes do término da apresentação, Ribeiro manda dois recados. Primeiro, diz: “Ainda estamos aqui, compondo e cantando” e, depois, declara: “Sem anistia!”.
O show foi encerrado com “Engenho de Flores” (Josias Sobrinho). À medida que a faixa era interpretada, o público se levantava para cantar junto com o quarteto. Agora, é torcer para que o apito do engenho de flores nos chame para um novo show. A Mostra Quatro70 merece bis.






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