Para enxergar o que importa


Porque não adianta resistir ao inevitável.


Depois de um relutante período, constatei que algo não ia bem com a minha visão quando um primo me indicou o curioso nome de uma loja e eu, olhando para a placa do estabelecimento, hesitante em meio ao causticante sol da tarde ludovicense, disse, com os olhos cerrados e de modo lamurioso: “Não estou conseguindo enxergar…”

O leitor com a condição de míope, assumida ou não, sabe que a afirmação vem acompanhada de um impiedoso e categórico: “Você precisa usar óculos!”

Depois da sentença, os sintomas começam a se apresentar com uma frequência constrangedora, como se quisessem provar que o problema, quando nomeado, ganha força — porque é sempre mais cruel quando anunciado.

Um letreiro de ônibus que não se pode ler, os cardápios que só se tornam acessíveis quando formatados em letras imensas, as letras no encarte do CD que só podem ser acompanhadas depois de uma indiscreta inclinada de pescoço… Como é indigesto aceitar que a sua visão está mesmo turva. E a irritação não se dá somente pelo fator clínico (de certo modo, você já esperava que seus olhos não resistissem a mais de 12 horas por dia diante de um computador). Duro mesmo é lidar com a ida ao oftalmologista, o exame (sempre me assustou essa estória, sei lá se verdadeira, de que é preciso usar um colírio muito ardente no procedimento) e o investimento substancial em um par de óculos.

Mas, sejamos objetivos: a teimosia, nesse caso, não compensa. Cheguei a essa conclusão depois de um episódio definidor, muito mais determinante do que placas ou cardápios inacessíveis. No balcão do Bar do Léo, onde tudo nesta minha vida parece acontecer, pedi, galhofo, os óculos de um amigo “pra ver se esse negócio funciona mesmo”. Cacete! Ou, “cacetada”, como diria o Aldir Blanc.

Há alguns anos, eu compareço toda semana, às vezes três ou quatro vezes por semana, àquele lugar. Sento sempre no mesmo banco, fito sempre as mesmas capas de CD (a não ser quando Leonildo muda uma ou outra coisa de lugar). Ainda assim, milhares de detalhes haviam sido negligenciados pela minha visão meio embaçada. Diante daquele mundo de encartes que se expandia, eu, boquiaberto, depois de alguns segundos, consegui exclamar: Puta que pariu! O Aldir tá fumando na capa desse disco!

Deixe um comentário

últimas

"Senta, se acomoda, à vontade, tá em casa...''

Assine a Sociedade do Copo e receba as nossas publicações em primeira mão!

Continue lendo