
Era um desejo antigo, meu, proceder como algumas figuras a quem admiro bastante – definimo-los cobras. em nossa vulgar coloquialidade – e pausar as atividades etílicas na quaresma. O fiz, de caso pensado, já no carnaval, estropiado os cornos, a todo gás. Acelerando, como o vernáculo informal de mes amis sugere.
Dos meus compromissos de fé, faço segredo. O fato é que, mais de 30 dias após pendurar as chuteiras, não resisti à oportunidade de congregar os de sempre em uma social dessas que tenho gosto, aqui em casa mesmo. Paulo e Terra vieram, com sedes cenozóicas. Minha mãe completou a farra que quase me levou a considerar uma traição aos meus votos. Calei-me. Nada fiz.
O gosto pela canção que nos interessava, na ocasião, foi encerrado em mim para que eu acompanhasse – discreto, com o canto miúdo de cada um dos olhos – Paulo e minha mãe em conversa franca, despretensiosa. Não eram assuntos extraordinários – falou-se em política, saudade, profissões; amenidades mais –, no entanto, exuberava-me naquilo a entrega de ambos. Um sereno estar-se na prosa.
Mais do que qualquer outra coisa, a fagulha entre as coxias de minha razão era observar Paulo e o fato cru: os afetos por ele nutridos não surgem dos mecanismos de defesa a que podemos nos referir como um senso de proteção masculinizante, ou mesmo virilizante.
Não havia – como, de um modo geral, não há – nos seus atos a contenção calculada, o medo do excesso, a negociação interna entre o que faz sentido exibir ou refrear. Paulo olhava, ria, tocava, respondia, tudo com fluidez. Nas falas de minha mãe, sua recíproca era a inteireza de todo o corpo – os joelhos voltados para ela, as mãos quietas, os olhos nunca avaliando o quanto aquela conversa valia seu tempo.
Percebi, naquela cena, o contraste entre a natureza dos reflexos a que nos condicionamos. Meu riso é uma ponte pênsil: tremula entre dois abismos: o da demasia – com as efusões que me habitam de quando em quando – e o da contenção, que já não negocio por saber-me parte dela.
Meu silêncio vem, atávico, confinado. Se cada átimo de mim se espraia, flagro a razão me convocar as mãos, os dedos e as palavras a postos, como se tudo além de mim confirmasse os não exageres que já ouvi. Em cada um dos meus gestos, só há três vias superexpostas: a do desejo, a do permitido e a do performado.
Paulo já silenciara a todas essas coisas, no que só lhe restou a desmesura. O amor lhe antecede as palavras, até mesmo o pensamento. Tanto que não há o que lhe constranja, mesmo em precipitações que nos levam a intuir o embaraço como certo. Ele não leu as regras. Se as leu, desacreditou. E a espontaneidade nos ais! de amor que ele sobrepunha ao rubor de minha mãe com tantas loas, mais pareciam denunciar uma criança que ainda não aprendeu a mentir.
Naquela noite. Na sala.





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