A velha guarda do atraso


O Ira! expõe a contradição dos rebeldes de outrora


Nasi, vocalista do Ira!

Circulava há alguns anos nas redes sociais uma postagem que dizia mais ou menos o seguinte: “passou a vida inteira criticando o general de dez estrelas que fica atrás da mesa com o cu na mão e agora defende a extrema-direita” — uma brincadeira inspirada em um trecho de Faroeste Caboclo, da Legião Urbana, para ironizar certos figurões que cresceram ouvindo o rock nacional dos anos 1980 e, mais tarde, tornaram-se reacionários. As explicações mais consistentes para essa metamorfose eu deixo a cargo da sociologia, da história ou mesmo da psicanálise. Limito-me à suspeita de que, por não verem o mundo se transformar naquilo que imaginaram durante a juventude rebelde, esses outrora roqueiros revolucionários decidiram jogar no time adversário.

Movidos por uma grande ingenuidade — ou má-fé —, muitos chegam a acreditar que bandas como Engenheiros do Hawaii (liderada pelo brizolista Humberto Gessinger), Barão Vermelho, Os Paralamas do Sucesso e tantos outros grupos emblemáticos da época cantavam em defesa do autoritarismo, do conservadorismo ou da ignorância. É de se perguntar: vocês realmente prestavam atenção no que diziam Renato Russo, Cazuza e Herbert Vianna ou reparavam apenas nos solos de guitarra?

Pois esses mesmos ingênuos — sejamos otimistas quanto a classificação do bando — resolveram atacar Nasi, vocalista da banda Ira!, após o artista exclamar “sem anistia” durante um show no fim de janeiro, em Contagem, Minas Gerais. Ora, os inocentes se disseram surpresos com o posicionamento do grupo que compôs “Núcleo Base” (“eu quero lutar, mas não com essa farda”).

Não assistiram às inúmeras entrevistas de Nasi e de Edgard Scandurra, guitarrista da banda, criticando a ascensão da extrema-direita e lamentando a adesão de colegas músicos — os tais roqueiros revolucionários de outrora — a essa patota?

Os cândidos (continuemos a acreditar que eles não são maldosos, apenas foram enganados) me assustaram profundamente no show realizado pelos Titãs, na turnê Trio Acústico, no ano da graça de 2022, em São Luís. O país fervia às vésperas da eleição presidencial polarizada por Lula e Bolsonaro. 

Em praticamente todos os shows e eventos de massa realizados no Brasil, manifestações políticas da plateia eram observadas. Evidentemente, se esperava o mesmo no show dos Titãs, uma banda desde sempre insurgente. O repertório era sereno até a metade do show, quando Sérgio Britto aqueceu o público engomadinho do auditório do Multicenter Sebrae com sua atuação de “Polícia’’. 

Após a música, parte da plateia puxa o coro de “Fora Bolsonaro’’, abafado, em seguida, por um “Fica Bolsonaro’’, entoado dos setores mais caros do local. Como é possível que alguém ouça “Polícia” e em seguida se manifeste a favor de Bolsonaro, um personagem que facilmente poderia personificar as críticas realizadas na letra de Tony Bellotto?

Ambos os episódios revelam contradições individuais ao passo que lançam luz sobre a capacidade de o pensamento reacionário reificar mesmo os símbolos de protesto e insurgência, na cultura. Se Polícia pode adequar-se a uma defesa da repressão e violência institucionais, ou Núcleo Base ser entoada aos brados por quem vislumbra apenas o “chamado à severidade” como valor possível, não há saída senão constatar que a estética da desordem foi drenada do imaginário contestatório. 

Prometi não dar palpites e considerar o segmento roqueiro, a despeito do que diz subtexto das canções, apenas uma malta de crédulos, mas não me contenho, ao fim do texto, e admito ao leitor a minha própria contradição, ousando arriscar um palpite: penso que os antigos roqueiros, que veem no autoritarismo a redenção de nossas falências, como país, representam, no fim das contas, o influxo dos próprios signos de rebeldia. Se a transgressão foi cooptada pelo mercado e a antipolítica virou espetáculo, a verdadeira provocação deixou de ser musical para tornar-se estritamente política. 

E vou além: o contrassenso entre o ethos deliciosamente rebelde do rock e a latência antilibidinal reacionária sugerem uma defesa de um projeto político conquanto revolvem à própria nostalgia propriedades quase divinatórias. 

É no mito da juventude de outrora – onde os campeões de bilheteria do cinema, a moda, os games e, claro, as bandas, nos anos 1980, – que reside, para os roqueiros, o éden cultural, ainda que isso custe ignorar que todos estes itens de consumo fazem parte da mesma lógica da indústria cultural que, hoje, fascina as novas gerações. E fascinarão a quaisquer outras que hão de vir.

Com o passar dos anos – e com a emergência de artistas ligados a outros circuitos estéticos, em gêneros como o pagode, o forró, o axé e o funk – a pluralidade, no caso dos roqueiros saudosistas, parece ter dado lugar a uma mal-estar no qual a expansão do horizonte musical é erroneamente reconhecida como decadência; desfiguração de um modo no qual as predileções de uma geração aparecem, em termos, superada.

Caberia, portanto, atribuir aos governos de esquerda das décadas subsequentes a razão do suposto declínio da vida cultural brasileira, sem reconhecer, porém, que a pluralidade transmitida pelas artes brasileiras, hoje, é resultado, em certa medida, da movimentação dissidente que o texto e a postura de artistas ligados ao universo rock ajudou a promover.

Mas aí já estou, mais uma vez, dando muitos palpites. O Nasi mesmo já falou: – outro dia, pode ser, mas não vai dar agora.

Por Paulo Vinícius Coelho e Juliano Amorim

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