Renato Russo, 65: líder da Legião Urbana segue presente no espírito contemporâneo


Uma breve análise sobre a preservação da memória do artista na atualidade.


Em uma manhã ensolarada de outubro de 1996, ao som de uma sonata de Schumman, Renato Manfredini espalhou as cinzas de seu filho, Renato Manfredini Júnior – popularmente conhecido como Renato Russo – por um jardim a 50 quilômetros de distância do centro do Rio de Janeiro, local em que o cantor e compositor havia falecido há cerca de uma semana. Anos antes, em 27 de março de 1960, o choro do recém nascido que se tornaria o líder da Legião Urbana soou pela Ilha do Governador, na mesma cidade, que, à época, ainda atendia como capital do país. Capitais que são, sim, citações necessárias ao falar sobre Renato, pois seu berço artístico se dá mesmo em Brasília, que seria fundada vinte e cinco dias após seu nascimento. Nesses intervalo de sessenta e cinco anos entre essas gêneses e os dias atuais, as canções de Russo embalaram as vidas e memórias de muitíssimas pessoas em muitíssimos lugares – e estou incluído nessa lista -, e jamais passaram despercebidas no zeitgest.

Passei a ouvir Legião Urbana em 2013, aos onze anos, mas sempre estive ciente da existência da banda. Meus pais não eram fãs e ouso dizer, caso as lembranças não me traiam, que era mais comum que escutássemos The Smiths em casa, mas a onipresença do nome do grupo sempre esteve impressa no meu inconsciente. No alvorecer da pré-adolescência, um professor encorajou que eu expusesse com mais veemência alguns questionamentos feitos durante as aulas de filosofia, e isto, somado à lógica dos meus anos rebeldes, foi o suficiente para que me debruçasse sobre o uso irrestrito e não supervisionado da Internet. Por indicação dele, escutei algumas canções do “Krig-ha, Bandolo!”, disco de estreia do Raul Seixas. Achei um saco, chato mesmo, mas, acima de tudo, precisava de algo meu, um gosto não herdado. Bastou algumas tardes à frente do computador e um login no 4Shared para que meu HD estivesse recheado com as canções mais célebres do conjunto musical liderado por Renato Russo. À medida que novas emoções surgiam em meu peito e novas revoltas insurgiam no país – o ápice do meu fanatismo por Legião Urbana foi concomitante às Jornadas de Junho -, se instaurava em mim uma forma de pensar que me soava inédita, causada por um elo admirador e formativo, mas pouco esclarecido.

Aos olhos do senso comum, pensar política em 2013 era menos complicado que hoje em dia. As nuances dos protestos que ocuparam as ruas não estavam nos interesses primordiais da grande imprensa, e o enrijecimento de uma narrativa que fixava uma disputa crônica entre “nós” (o povo, ou seja lá de quem estivéssemos falando) e eles (os políticos?) estava posto em prática. Com tudo isso em voga, algumas canções de Russo serviram como trilha sonora para os coros estridentes de alguns manifestantes, acredito eu, muito por conta da simplicidade lírica que o compositor assumia nas canções políticas. “Que País É Este”, do disco homônimo, é uma das escolhas mais fáceis para representar artisticamente o que “há de mais errado na nação”, assim como “Geração Coca Cola” serve como porta de entrada aos pensamentos questionadores e anti-imperialistas. Sim, parte das letras de Renato era abastada por discursos anti-sistêmicos, mas a abordagem de certos temas não arranhava sequer a superfície de uma profundidade extensa com que eles poderiam ser tratados. 

Por conta disso, parte de minha concepção política orbitava a singeleza do enunciado das músicas, e creio que era o bastante para uma criança de onze anos, mas um problema se esboçava à medida que a vaguidão desta ala do cancioneiro da Legião Urbana permitia com que uma ala reacionária do país se expressasse como “decanos da boa arte”. Não por culpa de Renato enquanto indivíduo, claro. Isso fica explícito em algumas entrevistas; em 1994, o artista chegou a afirmar para a MTV que seu primeiro álbum solo, “The Stonewall Celebration Concert”, tinha como motivação “falar contra o fascismo” e que o “Brasil estava cheio de nazistas em tudo quanto é canto”. O disco, entretanto, não possui canções próprias do compositor. Questões como essa propiciavam um desvio de rota no que se entende por Legião Urbana, já que, por muitos anos, com o advento das redes sociais, a banda passou a ser utilizada como uma espécie de construto do que os roqueiros evocavam como “música de qualidade”. Quem seguia páginas do Facebook como Rock Wins e ET Roqueiro, testemunhava imagens com frases que atrelavam o grupo a uma intelectualidade performática que reduzia o funk e outros gêneros musicais populares à sub categorias inventadas, com requintes de preconceito de classe. 

Hoje, tendo a dizer que o que ocorria por estas áreas da internet era uma compreensão esfumaçada das composições que gerou uma fratura ainda exposta. Na pesquisa para conceber esse texto, me deparei com uma opinião veiculada em outubro de 2010 na Folha Ilustrada, editoria de cultura da Folha de São Paulo, que afirmava que a força da Legião Urbana (lê-se “Renato Russo”) é “sua poesia fácil e encantadora que dispensa o rock”. Admito, a manchete faz algum sentido, mas me interessa mais o que há no corpo do texto; destaco logo o início, em que o autor, Thales de Menezes, sacramenta: “Brasileiro adora um violão […] Renato Russo era poeta. E adorava um violão”. E conclui: “Reproduzir no quarto ou na garagem as músicas de “Cabeça Dinossauro” ou “Selvagem?” requer equipamento e iniciação musical. Mas tirar as canções de “As Quatro Estações” é tarefa possível para quem ainda arranha o violão. De novo, o violão”. Parte disso continua a fazer sentido na paisagem contemporânea. As músicas mais lembradas da Legião são muito sedutoras aos violonistas iniciantes; a versão simplificada de “Tempo Perdido” tem quatro acordes, e “Ainda é Cedo” tem apenas três. Eis a gestação do “chato que abre uma rodinha de violão nas festas”, uma criatura que compõe o folclore urbano atual: da simplicidade, nasceu o enfadonho. Me questiono, sobretudo, se esse personagem sequer continua a existir. Os ares de renovação da geração Z parecem ter limado a figura do panorama cultural, e o que resta, na verdade, é o espectro e o temor de seu surgimento –  similar aos que os falantes da língua inglesa passam com os tocadores de “Wonderwall”

Chato ou não, o repúdio ao violeiro amador afastou ainda mais o público jovem da poesia de Renato, que, ironicamente, muito se assemelha às angústias da juventude dessa década. Cito primeiramente “Dezesseis”, do álbum “A Tempestade ou O Livro dos Dias”, que narra a história de João Roberto; ao longo de cinco minutos, Renato narra a história de um adolescente que, mesmo bem quisto por suas amizades, possui tormentos jamais notados e acaba falecendo em uma disputa de racha, em um suposto suicídio. “Johnny andava meio quieto demais, só que quase ninguém percebeu […] E o que dizem é que foi tudo por causa de um coração partido”, cantava. Lembro também de “Clarisse”, música do disco póstumo “Uma Outra Estação” que assume uma abordagem frontal, sem rodeios mesmo, sobre o mesmo tema. “O Teatro dos Vampiros” é, para mim, o relato definitivo sobre os conflitos de identidade que assolam jovens adultos; “Vento no Litoral” é despedida em forma de canção. Pensar nessas músicas me faz refletir sobre como ocorre a de manutenção da imagem de Renato Russo no imaginário popular. O resgate da obra legionária executado por Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, antigos companheiros de banda de Renato, é falho, quase amador e não possui a verborragia refinada que a presença do vocalista gerava em palco; Giuliano Manfredini, filho do artista, se revela um pouco mais burocrata à cada declaração e lançamento que iguala as memórias do próprio pai à meras estratégias empresariais ou instrumentos de comercialização. Orbitando essas esferas, uma disputa judicial pelo nome “Legião Urbana” se arrasta há quase 30 anos entre as partes citadas, e um endeusamento – que mais estigmatiza que eleva – molda um casulo de afastamento ao redor do compositor.

É bom esclarecer: Renato não era Deus, ou sequer um deus; Renato era humano, demasiadamente humano; um homem adicto, orgulhosamente bissexual, poeta exímio e violonista mediano. Tinha momentos de grandessíssima inteligência, falas equivocadas e lapsos de genialidade. Era quando vocalizava as próprias dores – e as alheias, consequentemente – que melhor se fazia compreender, mesmo quando não tínhamos acesso pleno ao que ele buscava relatar. Como preservar a memória de alguém que, no fim das contas, era um ser-humano qualquer? Talvez somente os cavalos-marinhos tenham a resposta.

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