
Há um pedaço de mim preso à época em que eu não sabia pronunciar Heidegger e nem escrever Schopenhauer. De uma forma parecida, há outra parte da minha consciência aprisionada ao dia em que Eric Nepomuceno, outro alguém com um sobrenome de pronúncia relativamente difícil, precisou soletrar “Telefunken” em uma palestra na sede da Academia Maranhense de Letras para que o público compreendesse o título de um dos seus contos. Aos que desconhecem, Telefunken era uma empresa de origem alemã – assim como Heidegger e Schopenhauer – que fabricava rádios e televisores. No conto, escrito e recitado pelo autor, uma criança relata o amor por um rádio de estimação enquanto divaga sobre as únicas possibilidades de futuro que seus olhos e consciência a permitem vislumbrar.
Curiosamente, eu que já não sou mais criança e confio na bagagem de minha consciência, vislumbro o que há por vir com certa miopia. Sempre que limpo a poeira dos olhos, enxergo um futuro esfumaçado. Se bem me lembro, as análises dos psiquiatras sempre geravam resultados inconclusivos; seria eu ansioso, depressivo ou os dois? Por não saber gerir ou digerir o tempo, admitíamos que havia alguma desregulação, e nem mesmo hoje consigo esclarecer se o desinteresse pelo horizonte distante é mera apatia ou algum temor indizível. Por conta disso, dito minhas lembranças com uma frequência bem maior do que me debruço nas incertezas do amanhã; na verdade, deixo as memórias me ditarem. Sei bem, há certo perigo nisso, mas é automático. Automático, não mecânico. Há emoção demais para se resumir às minhas engrenagens, ainda que, paradoxalmente, eu funcione sobre um certo mecanismo de busca incessante pelo que já cessou.
Justamente por isso, aos dezessete anos, comprei uma câmera que me acompanha até hoje. Em minha crônica tentativa de petrificar o tempo, fotografei milhares de cenários e rostos diferentes, mas registrei ainda mais os que sempre reconheci. De alguma maneira, precisava obter a certeza que, mesmo que o mundo os removesse de mim, haveria ainda um resquício em algum plano de algum canteiro escondido de meus neurônios ou cartões de memória. Outrora, me surge a vontade de fossilizar minhas pegadas para decretar fisicamente uma presença perpétua em cada local que eu frequentar; chega a ser maníaco, quase psicótico, mas somente assim seria capaz de relegar tantas reminiscências que são somente astrais. Astrais como as nuvens que pairam sobre a minha cabeça e me fazem pensar nas formas que elas costumavam assumir quando as observava na infância, com maior atenção, o que ainda me faz pensar que as figuras no céu só me diziam o que diziam por eu encontrar uma correlação em todas as coisas que enxergo. Nesta correlação, vejo sempre algo que já partiu.
Ao conceber esse relato, pesquisei sobre o pensamento de alguns filósofos sobre a nostalgia; pesquisa motivada por um comentário recente de um amigo em uma mesa de bar, em que ele citou, creio que erroneamente, uma frase de Schopenhauer à respeito do sofrimento crônico que dilacera os nostálgicos. Ao buscar esta sentença atribuída ao filósofo, lembrei rapidamente de Heidegger. Ao pensar em Heidegger e Schopenhauer, percebi que, há alguns anos, possuía um grandessíssimo problema ao pronunciar ou escrever o nome de ambos. Nesta mesma cruzada, notei ainda que, há poucos dias, confundi brevemente a posição do “O” e “U” no sobrenome de Eric Nepomuceno. Ao pensar em Nepomuceno, logo lembrei da palestra, e então, me recordei do Telefunken, que me fez pensar novamente em Schopenhauer e Heidegger, mas que também me levou a uma madrugada, já no fim da infância, em que passei horas escutando as transmissões da rádio Mirante AM. Neste emaranhado, retornei à época em que estagiei em uma emissora de rádio, o que gera feixes de memórias de uma vida que eu acreditava estar plenamente lapidada. Ao falar em lápide, lembro de todos os amores condenados, sem exceção. Ao falar da ausência da exceção, me contradigo instantaneamente, pois sei bem que há alguns que se destacam com mais firmeza e, nesta firmeza, pairo sobre as lembranças que me afogam com a mesma força que me afagam.
Neste fluxo de consciência, saio desta confissão esperançoso de ter sido exitoso ao descrever meu prazeroso tormento. Sou assim, um vaso vistoso recheado de recordações que se embaralham e se relacionam na medida que meus olhos e consciência permitem.
Memória – Carlos Drummond de Andrade
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.





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