O dia da mudança do carro de boi


O prazer pelo processo, a simplicidade, a reinvenção do mesmo lugar, a diligência e outros aprendizados vividos no Bar do Léo.


Quem chega ao Bar do Léo e observa tudo minuciosamente organizado – não pense o leitor que ali há qualquer tipo de acaso na distribuição dos itens – talvez não imagine a diligência com que o mestre Leonildo Peixoto Martins cuida de seu acervo. Durante a semana, a organização começa logo pela manhã, quando a feira do Vinhais ainda está em pleno funcionamento, os galos cantam e o bar ainda não abriu suas portas oficialmente. No domingo, após o fechamento do estabelecimento e a retirada das mesas pelas garçonetes, Leonildo e Diego, o vigilante da feira, começam a reger os objetos com precisão.

No primeiro domingo após o carnaval, dia 9 deste mês, fui ao bar me preparar para a semana que começaria no dia seguinte. O ambiente estava tranquilo, com poucos clientes, música no volume ideal e o balcão totalmente livre para reorganizar as ideias. Tudo em ordem. Infelizmente, eu havia acordado tarde e cheguei ao bar depois do horário planejado, o que significava que eu teria apenas duas horas de prazer.

Ainda antes do horário de fechamento, o barulho das mesas e cadeiras sendo rearrumadas revelava a pressa das garçonetes para o fim do expediente. Leonildo, por sua vez, parecia despreocupado e conversava sobre o CD de Mariene de Castro que tinha ganhado há alguns dias. A conversa era interrompida de vez em quando por um pedido de alguma funcionária: “Seu Léo, fecha essa conta pra mim?”

Ao lamentar o iminente fechamento do bar, recebi a sugestão: “Tenta pedir mais uma cerveja. Seu Léo vai ficar aí até mais tarde organizando a mudança do carro de boi.”

Fiquei estupefato. Já acompanhei e até ajudei a mover diversos móveis no bar, mas nenhum tão significativo, em termos de tamanho e história, quanto o icônico carro de boi, que já estava instalado ali quando fui ao bar pela primeira vez, há sete anos. O veículo (ou artefato?) permanecia ali, discreto, ao lado de uma imponente charrete. A charrete, alvo de fotos, comentários e lendas sobre como chegou ao bar. Já o carro de boi, com seu aspecto simples e recôndito, desatendido. Os clientes exclamam: “Uma charrete! Igualzinha às do século XIX!” (veja o exagero). E, logo depois, ao se perguntarem: “O que é mesmo aquilo ali ao lado dela?”, logo se ouve um murmúrio: “Ah, é só um carro de boi.”

Charrete

Para Léo, a história é diferente. Nascido em um povoado em Santa Helena, o mestre tem um carinho especial pelos artefatos que o remetem à sua infância e ao estilo de vida campestre. O carro de boi, que ele descreve como “rústico”, com um tom de brincadeira, certamente possui distinção na composição de sua identidade.

Mas, voltemos à mudança. Após o fechamento do bar, Léo se volta para Diego e o convida: “Vamos lá!” Primeiro, é preciso afastar as mesas e abrir espaço para o deslocamento do carro de boi. Em seguida, afastar a charrete e outros objetos. Cada movimento é feito com extrema parcimônia, pois qualquer erro pode derrubar um CD, um lustre, uma peça de porcelana ou outro item delicado. Com o cenário preparado, Diego ergue o cabeçalho do carro de boi e começa a movimentá-lo. O rangido das rodas revela o tempo que o veículo passou ali, e Léo avisa: “Vai ser preciso passar óleo…”

Partes do carro de boi. Fonte: site Artesanato do Maranhão

Em pouco tempo, após muitas manobras de Diego, o carro chega até a entrada do bar, onde seria realizada a manutenção. Antes de começar, porém, Léo solta a piada inevitável: “Tá vendo aí, Paulo? Diego já pode tirar a habilitação pra ser boi!”

A “revisão” do carro de boi durou boa parte da tarde, aproveitada vagarosamente enquanto conversávamos, planejávamos a nova disposição das mesas do bar e trabalhávamos (Diego mais do que eu e Léo).

Eventualmente, Diego fazia uma pausa no serviço para dizer, com certo orgulho: “Isso aqui tudo quem fez fui eu e Seu Léo.” É verdade, e isso precisa ser enfatizado: há quase duas décadas, Diego contribui imensamente com o bar, realizando todos os tipos de reparos, como a fixação de quadros, instalações elétricas e hidráulicas, e o deslocamento de móveis.

Com o tempo fechando, eu e Léo decidimos que era melhor ir embora antes da chuva. Diego, que faria plantão vigiando a feira, ficaria com os cuidados do carro de boi. Antes de partir, Léo me perguntou: “Tu não quer saber pra que vai servir o carro de boi?” Evidentemente, fiquei curioso, mas não me atrevi a perguntar.

O carro de boi, como fiquei sabendo depois, será transformado em uma mesa, a ser instalada logo na entrada do bar. Naquele domingo, a finalidade da mudança pouco me importava. A satisfação, na verdade, estava em compartilhar o tempo, conversar e planejar mudanças no bar — uma das maiores satisfações de Léo e algo que aprendi a apreciar também.

Antes de entrar no carro (não o de boi!) e me despedir, Léo me disse: “Na terça tu já vai ver como vai ficar!” Compartilhei o entusiasmo. A maior satisfação, no entanto, já havia sido alcançada. Ajudar a “preparar” o bar foi um privilégio. A felicidade é mesmo coisa muita simples: parece um carro de boi.

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