
Estive às voltas com a ideia de escrever algumas considerações sobre o que pude experienciar no Carnaval deste ano. Pensei e repensei, à medida que me pareciam inseguras as ideias as quais estive cultivando. No fim das contas, não me contive e optei mesmo por dar forma ao meu pensamento. Tudo, no Carnaval, é demasia; não contenção; hipérbole. As alegrias nos são tão próprias, nestes moldes, quanto as iras. E houve muito com o que se dar por satisfeito, e tanto mais com o que irar-se. Desordem e graça, como sugere a festa.
O Carnaval, por si, é alegria professada. Gosto da desmesura, do proibido e tudo o mais fantástico que estes quatro dias de remanso nos possam dar. Acho que seria mais bonito se houvesse a devida atenção ao Centro Histórico de São Luís. O governo do Maranhão optou, neste ano, por prescindir de festividades na região durante os principais dias destinados à folia. A saber: 28 de fevereiro a 4 de março deste ano.
O gesto não chegou a ser surpresa; parecia ensaiado desde o ano passado, quando, na ocasião, os dois circuitos – Beira-Mar, no Centro, e a Litorânea, na praia – apresentavam níveis de organização e distribuição de apresentações diferentes, com preferências do poder público quase explícitas pelo segundo circuito, em detrimento do primeiro.
A dificuldade – ou má vontade – de quem pensa a cultura, no estado, em relação ao Centro é, desde a origem, problemática, com um número razoável de episódios detestáveis. As pressões envolvendo a paralisação de funções do Centro de Criatividade Odylo Costa Filho e, mais recentemente, a mobilização coletiva em nome da interdição do prédio do Arquivo Público Estadual do Maranhão (Apem), embora sinalizem resoluções de naturezas diferentes, dão a medida de um governo que, por iniciativa própria, escolhe esgotar as possibilidades de omitir-se e equivocar-se em temas como a memória coletiva e a preservação do patrimônio público, ambos os assuntos tangentes à esfera cultural.
Em uma espécie de mea culpa, a região da Praia Grande recebeu, em alguns de seus principais pontos, circuitos culturais carnavalescos, no período anterior – ou pré – às datas festivas principais, nas praças do Reggae, da Fé, Catraieiros, Faustina e no Beco Catarina Mina. Pareceu-me nada razoável a manutenção destas atrações exclusivamente antecedendo o Carnaval, de fato. Com clareza, poder-se-ia atestar a pulsão, em termos artísticos e econômicos, do local, porque é mesmo ali a quintessência da cidade, a flama viva da cultura; o embodiment das razões pelas quais São Luís foi digna de reconhecimento pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como Patrimônio Cultural da Humanidade.
É fugir à lógica que se deixe o Centro Histórico e a Beira-Mar à míngua, em nome de um projeto de Carnaval de orla, sobretudo porque ainda não há condições de merecê-lo. A inépcia segue superior ao brilho e, ainda, ao sucesso que se queira comemorar desta empreitada.
Na Litorânea, é translúcida a má distribuição do fluxo de pessoas; a desorganização dos camarotes e a posterior dificuldade de deslocamento, quando a festa acaba. As ruas paralelas à praia são sinuosas, desertas, mal sinalizadas e mal iluminadas. Não há integração à avenida principal, o que dificulta, especialmente aos turistas, uma movimentação segura e uma experiência positiva para deixar o local, quer seja por transporte público ou por serviços de mobilidade em aplicativos.
A imprensa alternativa – a blogosfera – converge na maledicência e vassalagem aos gestos políticos mal organizados do governo, o que nos oprime, se nos denominamos democratas. É um mau sinal de saúde social a prostração acrítica; o adesismo sem culpa. Nos leva a crer, noutras instâncias, em uma não superação das velhas engrenagens que nos condenaram, até aqui, apenas retrovisores. Nunca, ou quase nunca, virtuosos o bastante para enxergarmo-nos à altura de um futuro, qualquer que seja ele.
O show do BaianaSystem, na terça-feira (4), talvez tenha sido um esboço de uma resposta que se poderia dar à subordinação e à dependência quase geral de nossas atuais estruturas de poder. Fazer rodas de capoeira, falar em caboclos, corpos em êxtase, contestação do capital e a importância de não se dar anistia aos criminosos tanto revigora como nos estimula o pensamento.
Luiz Antônio Simas nos disse que o Carnaval é, acima de tudo, disputar espaços. Temo a sujeição, ao ver a configuração estúpida cercando a disputa por relevância entre os carnavais organizados pela prefeitura e pelo governo, ao passo que pareço deslumbrado com todo o ímpeto encorajado pelas canções cantadas, naquela 1h30 de show, por Russo Passapusso.
Ao ver os Tropix e suas canções doces; a vitalidade do repertório do Bicho Terra; a exuberância do sagrado coração da Madre Deus; Pinduca, no palco, com Baré de Casco, renuncio ao desânimo. A velha forma do desastre nada pode diante da beleza do que só se faz aqui. Circuitos carnavalescos consolidados, como em Recife, Salvador e Rio de Janeiro, o são por cultivarem o que há de ímpar em suas manifestações. É inútil que São Luís, com a matriz cultural que possui, não o faça também.
A menos que se queira preservar a ignorância. E, com ela, tudo o que nos mantém na esteira da mais total servidão.





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